A PRESCRIÇÃO TRABALHISTA
C) Do poder regulamentar – extensão do poder diretivo
8.3 Empresa e estabelecimento
Sendo a empresa uma organização que visa à produção de bens ou serviços, fácil é notar a sua imaterialidade, a impossibilidade de a empresa, apresentando-se como atividade econômica, ser reduzida a matéria. A sua representação material se associa, pois, ao estabelecimento, porque é nele que os fatores de produção, imbricados pelo empresário, apresentam-se para o mundo fenomenológico, onde coisas e pessoas têm nome, forma e utilidade9.
Há autores de nomeada que preferem associar estabelecimento à idéia de um elemento do conjunto empresa, para eles se revelando nesta, e não naquele, o grau maior de autonomia contábil e financeira, a superioridade hierárquica e a assunção dos riscos da atividade econômica10. Em verdade, esses critérios distintivos nos remetem mais à pessoa do empresário (ou empregador, se possui empregados) e nos fazem lembrar que se ele
7
Sobre a corrente institucionalista, ver Amauri Mascaro Nascimento (NASCIMENTO, Amauri Mascaro.
Curso de direito do trabalho. São Paulo : Saraiva, 1997. p. 353).
8
Cesarino Júnior defende que "a empresa, em si mesma, é sempre uma pessoa jurídica, para os efeitos do Direito do Trabalho, distinta da pessoa física ou jurídica, a quem o direito comum atribui a sua propriedade" (CESARINO JÚNIOR, Antônio Ferreira. CARDONE, Marly Antonieta. Direito Social. Vol. I. São Paulo : LTr, 1993. p. 129). Mais adiante, o autor observa que o conceito jurídico-social de empresa faz dela, até certo
ponto, uma pessoa jurídica, distinta da pessoa física ou jurídica de sua proprietária, explicando: "Dizemos até certo ponto porque apenas doutrinariamente este conceito é aceitável já que, considerado o direito positivo,
apenas em dois aspectos aquela natureza sobressai: quando há mudanças na estrutura jurídica da empresa (...); igualmente, o consórcio de empresas é considerado um único empregador (...)" (op. cit., p 131). Ao remate, o autor pondera: "Há, todavia, um certo consenso quanto a que a empresa é pessoa jurídica in fieri. A tendência é transformá-la em pessoa jurídica" (op. cit., p . 132).
9
Neste mesmo sentido, o artigo 1142 do novo Código Civil: “Considera-se estabelecimento todo complexo de bens, organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária”.
10
Neste sentido, Orlando Gomes e Elson Gottschalk (GOMES, Orlando. GOTTSCHALK, Elson. Curso de
constituiu vários estabelecimentos, tencionando organizar em cada um deles os mesmos fatores de produção, para em todos realizar igual fim econômico, a sua responsabilidade não se divide na mesma proporção em que se partiu a sua ação econômica, respondendo o empresário e todo o seu patrimônio por obrigações tributárias, civis ou essencialmente trabalhistas que contrair em qualquer de seus estabelecimentos.
Preferimos, por isso, o apego à idéia, sobremodo singela, de o estabelecimento ser a representação material da empresa11, pura e simplesmente. Se a empresa se
materializa em vários estabelecimentos, é provável que em um deles se aloje o seu titular e
este o eleja, assim, como a sede da sua empresa, não importando se ali se desenvolve atividade produtiva ou apenas de comando. Noutras vezes, um só estabelecimento é constituído, confundindo-se ele com a sede da organização empresarial. Essas realidades distintas não exercem influência no conceito de empresa e de estabelecimento, como se pode notar.
Uma questão derradeira, que por vezes é suscitada a propósito de ser o estabelecimento a representação material da empresa, tem a ver com a possibilidade de contratos de emprego serem utilizados na constituição das chamadas empresas virtuais, que implicam o desenvolvimento de atividade produtiva através do trabalho de empregados em suas residências (referimo-nos ao chamado teletrabalho) e sem o uso de um espaço topográfico previamente definido; ou ainda com o fato de o emprego existir em empresas voltadas à prestação de serviços, nos casos em que os seus titulares têm domicílio ou escritório central, mas realizam a sua atividade produtiva mediante o fornecimento de empregados que laboram em estabelecimentos de outras empresas.
A bem ver, tais exemplos ilustram apenas como o conceito de estabelecimento não deve ser engessado nem pode ter a mesma importância para qualquer empresa, na sociedade contemporânea. Se é certo que os tradicionais estabelecimentos fabris sempre tiveram uma referência territorial, também o é que há, hoje, empresas que não se
estabelecem no mesmo local em que o seu titular utiliza força de trabalho alheia para
exercer atividade econômica.
Como essa discussão, travada a partir da existência (ou inexistência) de estabelecimentos em algumas empresas contemporâneas, vai repercutir em estudo que se avizinha, sobre a sucessão de empregadores, cabe ao intérprete do direito duas alternativas. Ou se apega ele à origem etimológica12 da palavra estabelecimento, ou dela abstrai para
fundar um novo conceito.
É que o estabelecimento das citadas empresas virtuais e prestadoras de serviço não têm a referência territorial exigida pelos autores que proclamaram, por exemplo, a impossibilidade de um estabelecimento ser transferido, dando-se nessa hipótese a extinção de um estabelecimento e a abertura de um novo. Se não há trabalho subordinado no local que se apresenta, sob o ponto de vista estritamente formal, como o estabelecimento da empresa, compete ao intérprete do direito deduzir a inexistência de estabelecimento ou,
11
Cf. PINTO, José Augusto Rodrigues. Curso de Direito Individual do Trabalho. São Paulo : LTr, 2000. p. 143. O autor diz secundar, neste ponto, a distinção sintética de Élson Gottschalk: "A empresa é o objeto das
atividades do empresário; o estabelecimento é a manifestação material da empresa".
12
O verbo estabelecer provém do latim stabiliscere,de stabilire, significando "tornar estável ou firme", conforme Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, da Enciclopédia Mirador Internacional.
como preferimos, o alargamento do conceito para que ao seu objeto se integre toda atividade produtiva vinculada a uma certa unidade técnica do empregador, ainda que se exerça essa atividade, total ou parcialmente, em local onde outras empresas também têm estabelecimento. Tais noções serão revisitadas no subitem que segue, em que trataremos de sucessão de empregadores.