No plano do encaixamento social, esta análise objetivou fazer um diag- nóstico do fenômeno variável em seu nível fônico, particularmente no que se refere à oposição entre as variantes alveolar e palatal, que se mostraram as mais representativas na amostra de fala analisada. Os estudos realizados com o
corpus do Projeto NURC na década de 1970 apontavam para um incremento da
regra de palatalização sobre a realização alveolar. Tal se deveria a uma possível influência do padrão carioca que estaria penetrando na área dialetal de Salva- dor, sobretudo em função da influência dos meios de comunicação de massa. Contudo, a análise de uma amostra de falantes cultos constituída desde os fi- nais da década de 1990 constatou uma reversão dessa tendência, com uma restauração da pronúncia alveolar frente à realização palatal do <s> implosivo (MOTA, 2002, p.404 et seq.).
Os resultados obtidos nesta análise revelaram que, no universo do chama- do português popular ou semiculto de Salvador, estaria ocorrendo uma tendên- cia análoga à observada na norma culta. Os resultados da variável faixa etária tanto para a variante alveolar quanto para a variante palatal apontaram a mesma tendência a uma recuperação da realização alveolar. Como se pode ver nas Figu- ras 1 e 2 (elaboradas a partir dos resultados da Tabela 23), enquanto os mais ve- lhos apresentam os maiores índices de palatalização, a frequência da realização alveolar aumenta à medida que se passa para as faixas dos falantes mais jovens.
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Tabela 23 - Realizações palatal e alveolar do <s> implosivo segundo a variável faixa etária no português popular de Salvador
Faixa etária
Palatal Alveolar
Nº de oc./ Total Frequência P. r. Nº de oc. / Total Frequência P. r.
Faixa 1 1.081 / 2.586 42% .41 1.505 / 3.065 49% .58
Faixa 2 1.308 / 2.726 48% .48 1.418 / 3.252 44% .53
Faixa 3 1.318 / 2.298 57% .62 980 / 2.831 35% .38
Total 3.707 / 7.610 49% .47 3.903 / 9.148 43% ---
Figura 1 - Realização alveolar do <s> implosivo segundo a variável faixa etária no português popular de Salvador
Figura 2 - Realização palatal do <s> implosivo segundo a variável faixa etária no português popular de Salvador
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Essa tendência refletiria o fato de a pronúncia alveolar ter se consolidado como a pronúncia padrão, sendo, inclusive, adotada nos telejornais do Rio de Janeiro, em que se evita a pronúncia excessivamente chiante que caracteriza o dialeto carioca. Nesse sentido, a restauração da pronúncia alveolar observada em Salvador caracterizar-se-ia como uma mudança em direção ao padrão, à variante de prestígio, em relação à pronúncia chiante marcada como uma pronúncia regional carioca. Em termos labovianos, pode ser então caracte- rizada como uma mudança de cima para baixo.
Os resultados da variável sexo (cf. Tabela 24) se ajustam ao padrão de uma mudança em direção à variante de prestígio. Como se pode ver nas Figu- ras 3 e 4, as mulheres lideram o processo de restauração da pronúncia alveo- lar, enquanto a realização palatal predomina na fala dos homens. Apesar da dificuldade de se definir com clareza o comportamento da variável sexo nos processos de variação e mudança (LUCCHESI, 2004), tem força na literatura sociolinguística a posição de que as mulheres se mostram mais sensíveis às formas de prestígio aberto, tendendo a liderar as mudanças em direção ao padrão (CHAMBERS; TRUDGILL, 1980, p.97-98; LABOV, 1982, p.78).
Tabela 24 - Realizações palatal e alveolar do <s> implosivo segundo a variável sexo no português popular de Salvador
Sexo Palatal Alveolar
Nº de oc./ Total Frequência P. r. Nº de oc./ Total Frequência P. r.
Homem 1.999 / 3.663 55% .58 1.664 / 4.499 37% .42
Mulher 1.708 / 3.947 43% .42 2.239 / 4.649 48% .58
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Figura 3 - Palatalização segundo a variável sexo no português popular de Salvador
Figura 4 - Realização alveolar segundo a variável sexo no português popular de Salvador
O diagnóstico de uma restauração da pronúncia alveolar como uma mu- dança em direção à variante de prestígio fornece as hipóteses para um estudo a ser realizado no futuro focalizando o chamado problema da avaliação (WEIN- REICH; LABOV; HERZOG, 2006; LABOV, 1972, 1982). Nesse estudo, testes bus-
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cariam controlar a variação estilística do fenômeno, bem como aferir a reação subjetiva dos falantes diante das variantes do <s> em coda silábica.
Conclusão
Esta análise variacionista do <s> em coda silábica no universo dos falantes com nível de escolaridade fundamental e média da cidade do Salvador revelou um processo de variação estruturado centralmente entre as realizações alveo- lar e palatal, que se opõem de forma diametralmente oposta em uma série de condicionamentos estruturais. Enquanto a variante alveolar é favorecida em distribuição final de palavra antes de vogal da palavra seguinte e bastante des- favorecida em posição medial, o primeiro fator inibe enormemente a pala- tização, e o último a favorece. Na variável tonicidade da sílaba em que figura o segmento, enquanto as sílabas tônica e pré-tônica favorecem a palatalização, a sílaba pós-tônica final favorece a realização alveolar. No que diz respeito à consoante que inicia a sílaba seguinte, quando o <s> implosivo está em dis- tribuição medial de palavra, a consoante velar é aquela que mais favorece a realização alveolar, sendo igualmente o fator que mais inibe a palatalização. Dessa forma, a relação entre as variantes alveolar e palatal como formas de realização do <s> em coda silábica pode ser definida como uma distribuição complementar no contexto da variação. Não se trata, portanto, da distribuição complementar em níveis categóricos como pensada pelo Estruturalismo, mas de uma distribuição no universo da variação, no sentido de que os fatores que inibem uma variante favorecem a outra e vice-versa.
Já a variante não coronal ou laríngea seria a variante minoritária, conside- rando-se o escopo fonológico do fenômeno. Nesse sentido, pode-se mesmo pensar que a aspiração do <s> implosivo, de que resulta a realização laríngea, constituiria um processo independente de variação e mudança em relação a essa unidade fonológica da língua portuguesa, em função de seus condiciona- mentos estruturais específicos, e distintos daqueles que estruturam a relação entre as realizações alveolar e palatal. A realização laríngea é favorecida par- ticularmente em posição medial, quando a sílaba seguinte é iniciada por uma consoante nasal, lateral ou vozeada. Nesse sentido, o fenômeno pode ser ca-
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racterizado como um processo de difusão lexical, com largo uso da aspiração nos itens lexicais mesmo e desde (MOTA, 2002, p.421-422).
Esta análise também demonstrou que, no plano fonológico, a variação do <s> em coda silábica se restringe a essas três variantes, pois o apagamento se revelou um fenômeno de natureza morfossintática, não sendo afetado por condicionamentos da estrutura fonológica. Esse achado é importante, já que desautoriza a hipótese de que a variação na concordância nominal de número no português brasileiro teria a sua origem numa deriva românica no sentido da perda das consoantes finais, no caso o -s, já embutida na língua portuguesa desde a sua formação em Portugal (NARO; SCHERRE, 1993, 2007).
No plano do encaixamento da estrutura social, esta análise revelou que está em curso um processo de restauração da pronúncia alveolar, revertendo uma tendência à palatalização que teria ocorrido até meados da década de 1970. Na medida em que se confirmam os resultados alcançados por Jacyra Mota (2002) em sua ampla pesquisa sobre essa variável na norma culta de Sal- vador, pode-se dizer que, nos segmentos escolarizados de Salvador, a realiza- ção alveolar do <s> implosivo estaria avançando sobre a realização palatal, com a concorrência da variante laríngea em contextos bem específicos. Caracteri- zando-se como uma mudança de cima para baixo no nível da consciência dos falantes, que buscariam ajustar a sua pronúncia à variante de prestígio, futuras investigações que reunissem evidências empíricas acerca da reação subjetiva dos falantes, no que se tem denominado de problema da avaliação, poderiam ser decisivas para uma caracterização mais ampla do fenômeno da restauração da pronúncia alveolar do <s> implosivo na cidade do Salvador.
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