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O encon tro com as ribei ri nhas: de con ver sa em con ver sa, muito

No documento caderno de educacao popular e saude (páginas 106-108)

a apren der!

Uma des co ber ta foi a aco lhi da maior por parte das mulhe res. Talvez por pas sa rem maior parte do tempo em casa fazen do as tare - fas domés ti cas. Criamos cora gem e deci di mos cha mar algu mas para con ver sar. Convidamos, lan ça mos a idéia de umas con ver sas ani ma das sobre assun tos da vida. Divulgamos na difu so - ra da Igreja Evan gélica, para que as mora do ras dos sítios vizi nhos vies sem. Algumas acei ta - ram. Marcamos dia e hora, con se gui mos per - mis são para fazer o encon tro na esco la. Escalamos uma das alu nas par ti ci pan tes do tra ba lho para dis trair as crian ças, con tan do his tó rias e fazen do brin ca dei ras enquan to as mães esta vam conos co.

Preparamos lan che, sele cio na mos alguns mate riais sobre saúde da mulher para dar mos o „pon ta pé ini cial‰ e depois levan ta ría mos os assun - tos que elas dese jas sem abor dar nos pró xi mos encon tros, se eles vies sem a acon te cer. Queríamos dar ao encon tro um ar de con fra ter ni za ção e infor ma li da de que nos dei xas se a todas pró xi mas e sem receios.

No pri mei ro encon tro, 23 mulhe res com - pa re ce ram. No iní cio, fica ram um tanto cala das, mas foram se expres san do, umas mais, outras menos. Fizemos um cír cu lo com as cadei ras, nos apre sen ta mos, con ver sa mos ame ni da des. A dis - cus são ini cial foi sobre nosso corpo de mulher. Pergun távamos: o que é ser mulher? Entregamos lápis de cor, papel, bor ra cha. Pedimos que dese - nhas sem o seu corpo. Algumas acei ta ram de pron - to, outras mais enver go nha das, fica vam obser van - do. Após dese nhar, con vi da mos aque las que qui - ses sem mos trar seus dese nhos, descrevendo-os.

Foi uma rique za. Aos pou cos, elas mos tra vam seus dese nhos, expli ca vam com deta lhe o que haviam dese nha do. Enquanto se refe riam ao dese nho, fala vam de si mes mas: como se viam, o que acha vam mais boni to em si, sonhos para o futu ro, rela ção com os com pa nhei ros e filhos, a vida em Nazaré...

Após o lan che, fize mos uma brin ca dei ra: a elei ção da mais sem-vergonha do grupo, aque la que não tinha receio de falar em públi co. Foi ani - ma do! As crian ças que brin ca vam lá fora, sob os cui da dos da nossa aluna, vie ram ver o que esta va cau san do tanta alga zar ra.

Ao final, ava lia mos o encon tro. Quase todas expres sa ram suas opi niões. Disseram que que riam mais encon tros como aque les. Fizemos uma lista de assun tos a serem abor da dos nos pró - xi mos encon tros: como evi tar filhos, doen ças do útero, pra zer sexual, edu ca ção dos filhos, como evi tar doen ças cau sa das por ver mes, etc.

Fizemos um pacto: pro me te mos não per - mi tir a pre sen ça de homens nos nos sos encon tros, para que se sen tis sem mais à von ta de. A recrea ção com as crian ças foi man ti da; deci di mos que todas lim pa ría mos a esco la após cada encon tro.

Distribuímos pas tas cor de rosa con ten do papel sul fi te, lápis, cane ta, bor ra cha, régua. Os encon tros seguin tes, rea li za dos uma vez por mês, foram cada vez mais ani ma dos, com a pre sen ça de mais par ti ci pan tes, vin das de outras comu ni da - des, acom pa nha das de filhas ado les cen tes, noras,

netas. Era boni to ver as voa dei ras che gan do, atra - can do lá embai xo no rio, cheias de mulhe res empu nhan do as pas tas cor de rosa, agitando-as no ar, a nos cum pri men tar de longe.

Fizemos um sor teio de peque nos brin des femi ni nos: batom, pre si lha de cabe lo, pul sei ra de miçan gas, anel, meia calça. Homenageamos as ani ver - sa rian tes, con ver sa mos sobre pro ble mas que afli giam algu mas par ti ci pan tes, veri fi ca mos pres são arte rial, tro ca mos segre dos do cui da do de feri das, apren de mos recei tas de chás e lam be do res. Ouvíamos his tó rias do boto, encan ta men to da jibóia e outras len das de arre - piar, con ta das com gosto, na clara inten ção de nos atra pa lhar o sono no barco, à noite.

Aos pou cos, a ami za de se ins ta la va entre nós. Fomos cum prin do a cada encon tro a pauta suge ri da pelas par ti ci pan tes, que ele giam os assun - tos mais urgen tes para os encon tros seguin tes. ¤s vezes fica va con ver san do enquan to algu mas lava - vam roupa no rio. Aprendi que para evi tar o ata - que das arraias, era pre ci so fazer a „bate ção‰, ou seja, bater com um pau na água bas tan te e andar arras tan do o pé, pois elas ata cam quem as pisa, com um fer rão que pro vo ca dores ter rí veis.

Um mer gu lho nas águas de Nazaré

Em um des ses encon tros, dis cu ti mos a impor tân cia da água para nos sas vidas. Des - taquei alguns tre chos para mos trar, toman do o cui da do de atri buir outros nomes:

„Eu uso a água pra lavar a louça, a roupa, tomar banho, fazer a comi da... a água é tudo. Já pen sou, a gente que já nasce den tro dÊágua, pare ce até peixe, de repen te não ter mais água em Nazaré?‰ (Maria)

„A água é a coisa mais sagra da... quan do estou de cabe ça quen te, vou lá pro colhe rei ro tomar um banho, esfriar a cabe ça, é bom de - mais...‰ (Joana)

„¤s vezes, no domin go, a gente vai todo mundo lá pro lago pes car, lá mesmo a gente assa e come os pei xes com cer ve ja, quan do tem...‰ (Célia) „É engra ça do, outro dia eu esta va pen san do, o barco anda em cima da água. Quer dizer que quan do a gente qui ser, a gente pode andar em cima da água, é só pegar o barco! Os bar cos che - gam, saem, levam gente para São Carlos, Calama, Porto Velho... tra zem mer ca do rias pra gente...‰ (Expedita)

Pude iden ti fi car algu mas dimen sões do uso da água e seu sig ni fi ca do para o dia-a-dia das ribei - ri nhas. Chamei de dimen sões por que indi cam a manei ra como as mulhe res vêem e se rela cio nam com a água que, na ver da de, é algo mais pro fun do do que o sim ples uso do coti dia no . São elas:

Dimensão água sagra da

Maria enu me ra os usos domés ti cos da água e depois apre sen ta uma defi ni ção dos ribei ri nhos, como aque les que já nas cem den tro dÊágua, não poden do viver sem a água, que é tudo. Nazaré sem água pare ce um sonho ruim para Maria.

Joana atri bui à água um poder sagra do de curá-la quan do abor re ci da. O colhe rei ro a que se refe re é um iga ra pé lindo, de águas gela das. Mais adian te, tem o iga ra pé „cura-ressaca‰ que, como o pró prio nome já diz, pela baixa tem pe ra tu ra da água, sem pre enco ber ta pelas árvo res das matas cilia res, é fre qüen ta do após finais de sema na mais fes te ja dos, pelos mora do res, para ali via rem o mal estar da res sa ca.

No documento caderno de educacao popular e saude (páginas 106-108)