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3 GESTÃO DO PROCESSO DE PROJETOS

3.3 ENGENHARIA SIMULTÂNEA E PROJETO SIMULTÂNEO

A Engenharia Simultânea surgiu como novo paradigma num contexto de

acirramento da competitividade industrial, de valorização da estratégia de

diferenciação pela melhoria da qualidade, de desenvolvimento tecnológico e de

inovação. Nessa realidade, ganharam importância a capacidade e a agilidade das

empresas em desenvolver novos produtos e serviços, e os métodos de gestão do

processo de projeto passam por revisões, de forma a orientar o projeto aos novos

condicionantes da competitividade industrial (FABRICIO, 2002).

Segundo Fabricio (2002), os primeiros estudos sobre Engenharia Simultânea

remontam da segunda metade da década de oitenta do século passado. Essa

denominação foi proposta e caracterizada primeiramente pelo Institute for Defense

Analysis (IDA) do governo americano:

Engenharia Simultânea é uma abordagem sistemática para o projeto integrado e concorrente de produtos e de seus processos relacionados, incluindo manufatura e suporte. Esta abordagem pretende fazer com que os desenvolvedores, desde o início, considerem todos os elementos envolvidos no ciclo de vida do produto, desde a concepção até o descarte, incluindo qualidade, custo, prazos e os requisitos dos usuários. (WINNER et al., 1988, p. 2, tradução nossa).

Ainda de acordo com Koskela (1992), a Engenharia Concorrente (ou

simultânea) lida principalmente com a fase de projeto do produto. Ademais, baseia-

se em ideias semelhantes às filosofias Just in Time (JIT) e Total Quality Control

10

(TQC), que têm como objetivos a melhoria no processo de projeto.

O modelo de processo de projeto tradicional sequencial ocorre de forma

unidirecional, ou seja, após a formulação ou concepção de um aspecto do projeto do

empreendimento as informações geradas são transmitidas e é o ponto de partida

para a etapa seguinte (FABRICIO, 2002).

Diferente do processo de projeto tradicional sequencial, no modelo baseado

na Engenharia Simultânea, ciclos de interação são transferidos para as fases iniciais

através de trabalho em equipe. A redução do tempo de projeto, o aumento do

número de interações e a redução do número de pedidos de alteração são os três

objetivos principais de Engenharia Simultânea (KOSKELA, 1992).

Segundo Fabricio (2002), no Brasil, diante das peculiaridades do setor de

construção, uma solução alternativa para a aplicação de alguns dos princípios da

Engenharia Simultânea foi desenvolvida dando ênfase à realização integrada das

várias especialidades de projeto de produto e de processo – O Projeto Simultâneo.

De acordo com Fabricio (2002), o conceito de Projeto Simultâneo busca

convergir, no processo de projeto do edifício, os interesses dos diversos agentes

participantes do ciclo de vida do empreendimento, considerando precoce e

globalmente as repercussões das decisões de projeto na eficiência dos sistemas de

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10 Essas filosofias surgiram no Japão, nos anos 1950, e foram aplicadas ao Sistema de Produção da

Toyota na produção de automóveis. A idéia defendida pelo JIT era a eliminação ou redução dos estoques, o que levou ao desenvolvimento de técnicas para lidar com essa eliminação ou redução, já o TQC, tratava sobre a inspeção de matérias-primas e produtos, defendendo o uso de métodos estatísticos, com o intuito de promover o controle total da qualidade (KOSKELA, 1992).

produção e na qualidade dos produtos gerados, envolvendo assim aspectos como

construtibilidade, habitabilidade, manutenibilidade e sustentabilidade das edificações

e deve ser entendido como uma adaptação da Engenharia Simultânea.

Fabricio (2002, p. 204) define Projeto Simultâneo, como:

O desenvolvimento integrado das diferentes dimensões do empreendimento, envolvendo a formulação conjunta da operação imobiliária, do programa de necessidades, da concepção arquitetônica e tecnológica do edifício e do projeto para produção, realizado por meio da colaboração entre o agente promotor, a construtora e os projetistas, considerando as funções subempreiteiros e fornecedores de materiais, de forma a orientar o projeto à qualidade ao longo do ciclo de produção e uso do empreendimento.

De modo a implementar o Projeto Simultâneo no processo de projeto de

edifícios, Fabricio (2002) descreve as três principais transformações no processo de

projeto para viabilizar uma maior colaboração entre os agentes e integrar as etapas

desse processo no ambiente da construção de edifícios:

a) Transformações culturais:

! Formação de parcerias que extrapolem as limitações das mediações

contratuais estabelecendo novas práticas de colaboração, e criação de

uma nova disposição de cooperação técnica entre os projetistas,

construtores e promotores;

! As parcerias devem abranger desde o início da montagem do

empreendimento, o promotor, a construtora e os projetistas, bem como

considerar as contribuições dos subempreiteiros e dos fornecedores de

materiais.

b) Transformações organizacionais:

! Romper com a organização hierárquica do processo de projeto e

reavaliar o organograma organizacional de desenvolvimento de projeto

de forma a privilegiar a coordenação de esforços, o desenvolvimento

em paralelo e integrado das diferentes especialidades de projeto;

! Gerir as interfaces do processo de projeto e a colaboração precoce

entre os agentes do processo;

! Planejar o processo de projeto de forma a privilegiar a interatividade

entre os agentes e respeitar o processo intelectual de desenvolvimento

de cada especialidade ou dimensão do projeto;

! Prever um coordenador para incentivar e integrar a participação dos

diversos agentes envolvidos, principalmente entre os projetistas do

produto e da produção;

! Prever que a gestão da obra coordene a participação dos projetistas e

dos serviços de apoio à execução;

! Propiciar a participação do usuário e do promotor do empreendimento.

c) Transformações Tecnológicas:

! Uso de tecnologias da informação, tecnologias de informática e

telecomunicações como extranets para facilitar a colaboração e a

comunicação entre os agentes do processo, vencendo inclusive

distâncias físicas entre eles. Nesse sentido, atualmente existem

softwares que trabalham no conceito de Building Information

Modelling

11

(BIM).

De acordo com Eastman et al. (2011), o termo BIM é utilizado para descrever

ferramentas, processos e tecnologias que são facilitadas por documentação digital

sobre o edifício, seu desempenho, planejamento, construção e operação. Segundo

Azevedo (2009), a tecnologia BIM possibilita a criação de um modelo digital

integrado que abrange todas as especialidades de projetos, considerando todo o

ciclo de vida da edificação.

Shigaki e Tzortzopoulos-Fazenda (2013) colocam que o uso obrigatório do

BIM em alguns países, a pressão do mercado e de parceiros que já incorporaram as

tecnologias e práticas BIM vêm incentivando a adoção mundial dessa tecnologia.

Autoridades do setor de construção de países como Reino Unido, Estados Unidos,

Finlândia, Noruega e Singapura, têm liderado as iniciativas de suporte ao uso de

BIM, a começar pelo setor público.

No entanto, de acordo com Oliveira e Pereira (2011), essa ainda não é uma

ferramenta amplamente conhecida, e, portanto, não é estabelecida nos escritórios

de arquitetura, que ainda não estão preparados para fazer a migração para a nova

plataforma.

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11 O BIM é uma ferramenta que utiliza um sistema de softwares de modelagem tridimensional de

projetos, parametrizado, que reúne, online, todas as informações das disciplinas envolvidas na execução de obras, permitindo a visualização dos desdobramentos arquitetônicos, técnicos e financeiros de qualquer alteração introduzida por novos dados ou mudanças no projeto original. Nesse sistema, não há perda de informação, e esta pode ser visualizada a qualquer momento (BARBOZA, 2011).

Fabricio (2002) afirma que os objetivos mais relevantes para a aplicação do

Projeto Simultâneo na criação e desenvolvimento de novos empreendimentos de

edifícios são:

a) Ampliar a qualidade do projeto e, por conseguinte, do produto;

b) Aumentar a construtibilidade do projeto;

c) Subsidiar, de forma mais robusta, a introdução de novas tecnologias e

métodos no processo de produção de edifícios;

d) Eventualmente, reduzir os prazos globais de execução por meio de projetos

de execução mais rápida.

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Fabricio (2002) também descreve as interfaces do processo de projeto que

são passíveis de um tratamento simultâneo, conforme Ilustração 5.

Ilustração 5 - Interfaces do processo de desenvolvimento de produto na construção

de edifícios

Fonte: Fabricio (2002).

De acordo com Fabricio (2002), na interface com o cliente (i1), interagem o

mercado (demanda) e o promotor. Nela são discutidas as reais necessidades e

condições dos clientes considerando as possibilidades projetuais.

A interface coordenação de projetos (i2) corresponde à coordenação entre as

diferentes disciplinas de arquitetura e engenharias, e sua consideração desde o

início do processo de projeto implica em garantir que as soluções projetuais sejam

globalmente eficientes. “Cabe à coordenação de projeto fomentar a interlocução

entre os agentes e a abordagem multidisciplinar dos problemas de projeto”

(FABRICIO, 2002, p. 232).

A interface projeto para produção (i3) diz respeito à construtibilidade dos

projetos. O desenvolvimento dos projetos para produção deve ocorrer em sintonia e

de forma concomitante ao desenvolvimento do produto, de maneira a permitir a

exploração conjunta das soluções espaciais e técnicas do produto com as

possibilidades construtivas.

A interface retroalimentação execução-projeto (i4) representa a necessidade

de acompanhamento da obra e elaboração do projeto as built, de forma a garantir a

retroalimentação de futuros projetos e a manutenibilidade do edifício construído.

Por último, a interface com o cliente – retroalimentação de desempenho (i5)

está relacionada com o acompanhamento do empreendimento durante a sua fase de

uso e manutenção, a fim de aferir os resultados alcançados e a satisfação dos

clientes por meio de avaliações de desempenho e pós-ocupação.

Os resultados dessas avaliações devem alimentar os processos de

desenvolvimento de novos empreendimentos, de forma a criar uma dinâmica de

aprendizado e aprimoramento dos empreendimentos. “Essa interface deve trazer

para o processo de desenvolvimento de produto informações sobre o desempenho,

patologias e custos, vida útil da edificação, de forma a levar ao projeto uma visão de

ciclo de vida” (FABRICIO, 2002, p. 227).

Considerando esse contexto, pesquisadores têm proposto modelos para o

processo de projeto, baseados nos princípios de Engenharia Simultânea e Projeto

Simultâneo, que trouxeram contribuições significativas ao gerenciamento do

processo de projeto.