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Ensino do Jogo: Jogar o Jogo para melhor o aprender

2.5.3– A Importância da “variabilidade de qualidade” e de uma “Redução sem Empobrecimento”

4. Apresentação e Discussão das Entrevistas

4.5 Ensino do Jogo: Jogar o Jogo para melhor o aprender

Ao longo da nossa revisão procuramos demonstrar a importância da presença de jogo ao longo de todo o processo de formação de um jogador de Futebol. De facto, sabendo que o Futebol de Rua foi a escola de muitos jogadores de TOP, e sabendo-se que neste tipo de Futebol o Jogo era a fonte referencial de toda e qualquer aprendizagem, uma vez que raramente víamos os jovens a praticar gestos técnicos ou tácticos de uma forma isolada (Michels, 2001), procuramos evidenciar que a qualidade do processo de formação encontra-se fortemente relacionada com a possibilidade de contemplação do jogo ao longo de todo o processo

Neste sentido, ao longo das nossas entrevistas procuramos perceber o entendimento dos nossos entrevistados relativamente a esta problemática:

“Os mais jovens querem é bola...por isso temos que dar é bola, temos que os deixar jogar, porque também era isso que eu queria e também foi isso que me permitiu evoluir e chegar onde cheguei, agora lentamente devemos começar a ter outras preocupações, devemos começar a ter preocupações com certos aspectos tácticos, por exemplo, mas isso deve acontecer lentamente…o que acho é que as crianças devem ter é muito jogo porque é isso que elas gostam e se não o tiverem acabar por ficar saturadas e desistir da usa prática...”

António Sousa (Anexo II) “Eu acho que deve ser com jogo, a técnica individual faz parte do jogo, qualquer exercício de jogo que faças engloba sempre esta técnica individual…”

Secretário (Anexo III) “ (…) é o jogo sem duvida.”

Miguel Lopes (Anexo IV) “(…) sou um grande defensor do jogo, das formas reduzidas, simplificadas de jogo, aqui a técnica está sempre ao serviço da resolução de problemas e de situações de jogo daquilo que se pretende fazer”

“ (…) porque o jogo tem o seu lado macro e o seu lado micro, agora o seu lado micro tem que ser contemplado em função do beneficio que o lado macro vai colher em função disso, e isso é que é difícil em termos de operacionalização.”

Vítor Frade (Anexo VI)

“Eu entendo que o jogo é a base fundamental da aprendizagem, nos aprendemos Futebol para jogar Futebol…agora para se jogar melhor Futebol temos também que recorrer aos aspectos da técnica para que esse Futebol seja melhor, mas tudo para jogar Futebol, para jogar. Daí que no ensino as situações jogadas e de jogo devem ocupar a predominância da sessão de treino e de ensino.”

Rui Pacheco (Anexo VII)

“ (…) é o jogo que as crianças gostam de fazer, quando era mais novo só queria jogar, era isso que me dava prazer, por isso quanto mais as crianças jogarem mais prazer vão sentir e depois mais vão querer treinar para poderem ser melhores, agora se elas só fizerem aquelas situações de passe rapidamente se vão fartar e acabam até por desistir de jogar Futebol.”

Ruben Micael (Anexo VIII)

Como verificado pelos excertos anteriores, todos entendem que o Jogo deve ser o “motor” de todo o processo de ensino, encontrando-se assim todos de acordo com a nossa pesquisa bibliográfica.

António Sousa e Ruben Micael salientam, mesmo, a presença deste como fundamental para a continuidade de um jovem na prática de Futebol porque, como afirmam, o que eles gostam é de jogar, é de ter a bola, e se o treino não contemplar isso rapidamente se fartam acabando por abandonar a prática desportiva.

No entanto, também é consensual que o treino não pode ser só jogo. Como refere Miguel Lopes, eventualmente e pontualmente pode ser necessário retirar complexidade ao exercício para que se proporcionem situações em que a repetição de um gesto seja muita exacerbada, porque só deste modo é que se conseguirá proporcionar um grau de propensão elevado daquilo que se pretende melhorar. Assim, e como salienta reportando-se a exemplos práticos, “...temos aqui casos de miúdos que quando nos chegam aos 6/7 anos se

tentarem acertar com o pé na bola desequilibram-se e caem, e portanto aquilo que eles precisariam era de estar todos os dias contra a parede a passar a bola, a rematar, porque assim iríamos conseguir que eles em cada cinco minutos fizessem esse gesto inúmeras vezes, que se relacionem com a bola, e se eles fizerem uma situação de meinho provavelmente só vão conseguir fazer 4 ou 5 vezes um passe, e nessas vezes provavelmente vão ter insucesso…para esse miúdo que tem muitas dificuldades e que tem uma relação com a bola muito difícil, esse exercício é se calhar mais específico, ele precisa de passar por isso para conseguir estar minimamente integrado no jogo.” (Anexo IV). Então, simplificando o processo, realizando uma situação

mais simplificada “nem que seja ao ponto de fazermos aquela situação que

muitos chamariam analítica” (Anexo IV), como por exemplo contra a parede, a “situação não é propriamente jogo mas é altamente específica para aquilo que nós queremos e tem trazido uma evolução muito grande para ele...uma manifestação muito grande em termos de jogo” (Anexo IV). Através das

palavras do nosso entrevistado percebemos perfeitamente as declarações de Frade quando salienta que “normalmente essa lógica que se utiliza do global e

do analítico é um falso problema, porque o jogo tem o seu lado macro e o seu lado micro, agora o seu lado micro tem que ser contemplado em função do beneficio que o lado macro vai colher em função disso, e isso é que é difícil em termos de operacionalização” (Anexo VI)

Depreende-se assim que, por vezes, para se aumentar a propensão de aparecimento duma situação que queremos torna-se necessário retirar complexidade aos exercícios. Rui Pacheco parece partilhar da mesma ideia entendendo que quando se ensina alguma coisa pela primeira vez é necessário baixar o nível de complexidade para que de facto os jovens possam perceber e tenham as ferramentas mínimas para se poder jogar, porque, como refere, “se

os miúdos nunca tinham tido nenhum feedback relativamente à realização do passe ou da recepção, nós não poderíamos querer que eles realizassem já isso num meinho, porque aqui já é preciso a técnica de receber a bola, de passar, a tomada de decisão...e isso é muito complexo…” (Anexo VII).

Também António Sousa, reportando-se à sua experiencia prática, evidencia a importância deste tipo de trabalho mais simplificado para a sua própria evolução, referindo que em miúdo, como forma de melhorar o pé esquerdo, “ficava algum tempo a chutar para a parede até que fui ganhando

confiança para o usar mais vezes, penso que este treino mais isolado e esta persistência permitiu que desenvolvesse este pé” (Anexo II).

Pelas palavras de António Sousa, verificamos a importância que a repetição de um gesto, mesmo de uma forma mais simplificada que o jogo, teve para o desenvolvimento do seu pé esquerdo. Por outro lado, e já como Miguel Lopes havia referido, verifica-se aqui a utilidade da parede, o que vem de encontro a Cruyff (1997), segundo o qual “a parede é o companheiro de rua na qual os jovens jogadores se apoiam para sair de um drible. Recebias a bola tal como ela te chegava, e o ressalto na parede ou no bordo obrigava a aperfeiçoar a sua recepção e controlo, algo que é essencial no Futebol profissional.”

Pelas palavras dos nossos entrevistados verificamos assim a importância de um processo onde o Jogo deve ocupar a predominância da sessão de treino e de ensino, tal como havíamos referido na nossa revisão. Contudo, e como também constatado, isto não significa que estas sessões contenham única e exclusivamente jogo, até porque, como refere Ronaldinho Gaúcho (in Pacheco, 2005b):

“Jogava na rua com os meus colegas, mas também jogava horas sozinho ou com o meu cão, o “Bombom”, que era incansável.”

Assim, o processo de treino deve ter como essência o jogo, sendo, no entanto, complementado com os aspectos da técnica para que se possa enriquecer o jogo, então “a ideia é partirmos para o jogo, e depois partir esse

jogo em pequenos jogos se nós não conseguimos resolver esse problema, depois se o problema não for resolvido passamos a situações mais simples e depois voltamos novamente ao jogo, e isto é fundamentalmente o ensino do Futebol baseado nos jogos condicionados, condicionar o jogo consoante

algumas situações mas em que o jogo seja predominância, mesmo que para isso por vezes seja necessário recorrer a formas simplificadas no treino das habilidades técnicas para melhorar a qualidade do jogo.” (Pacheco, Anexo VII).