“A sociedade moderna e a poderosa indústria que a sustenta nos instigam cada vez mais a “padecermos” do mal da pressa”
(Gleick, 2003)
O Futebol é um fenómeno complexo e com características bem singulares, e, não sendo entendido como um fenómeno que aparece por geração espontânea, é entendido como um fenómeno que deve ser construído e que deve ter como base a Formação. Assim, boa parte do futuro dos Futebolistas decide-se na infância (Cruyff, 2002), pelo que todo o trajecto percorrido pelos mesmos revela-se fundamental para o alcançar de rendimentos superiores.
Para que o futuro do Futebol seja garantido, torna-se necessário olharmos para o Futebol de Formação com a atenção que ele realmente merece, pois “falar de Futebol juvenil é fundamentalmente falar do Futebol de amanhã “ (Queiroz, 2000 cit. por Leal e Quinta, 2000). Assim, a Formação não é nenhum luxo ou privilégio de alguns clubes, tornando-se mesmo uma necessidade indispensável ao Futebol (Oliveira, 2006).
Contudo, e como já foi evidenciado, o processo de Formação dos jovens desportistas tem que ser balizado por certos princípios e normas que permitam extrair ao máximo as qualidades individuais de cada um. Para tal, revela-se fundamental compreender que a preparação desportiva para o rendimento superior é um processo desenvolvido ao longo de vários anos (Marques, 1998) e onde a aprendizagem não deve ser balizada por objectivos de rendimento
imediato, sob pena de se estar a comprometer a evolução futura do jovem praticante (Mesquita, 1997).
A Formação desportiva deve, assim, realizar-se dando passos e não correndo, construindo e construindo-se (Ramos, 2006). Queimar etapas e antecipar alguns conteúdos de preparação é condenar a evolução do atleta, impedindo-o de manter uma margem de progressão ao longo dos anos (Raposo, 2006).
No entanto, e como refere (Gleick, 2003), actualmente vivemos no tempo da “pressa”. Cada vez mais, estamos inseridos numa sociedade em que a “impaciência” se apodera de todos os nossos actos e até as mais pequenas coisas do quotidiano são marcadas pela “vertigem” da pressa, como o pão fatiado e sem côdea que compramos, nos enlatados e pré – cozinhados que enchem as nossas despesas, nos fast – food dos restaurantes, nos sumos que não vêm mais da fruta mas sim dos pacotes dos supermercados…! (Gleick, 2003). Poderíamos mesmo ir mais longe e especular se não seria um consequência deste mal da pressa o tempo de gestação dos fetos tender de forma apressada a ser encurtado, uma vez que os bebés que nascem prematuramente são cada vez mais, o que tem associado uma elevada perigosidade (Cintra, 2006 cit. por Maciel, 2008).
Neste sentido, estando nós inseridos numa sociedade que influencia e é influenciada por este fenómeno que é o Futebol, não é de admirar a evidente contaminação que se encontra no desporto por este “vírus”.
Nesta linha de pensamento, e aceitando o quanto nociva pode ser a Formação de pessoas em contextos “doentios” como o patenteado, pode descortinar-se desde já o que poderá suceder se a Formação dos jovens desportivas e Talentos for balizado por estes princípios actuais. (Maciel, 2008).
De facto, e fazendo uma ponte para a realidade do Futebol, é evidente a valorização da pressa nos contextos actuais, denotando-se uma grande preocupação pelos jogadores em fazerem tudo o mais rápido possível (Amieiro, 2005), tal como evidencia, em tom de crítica, Moreira & Moreira (2006 cit.
veloz, o Futebol tem de ser jogado com mais rapidez (…) Homem hoje tem de ser muito veloz para jogar Futebol”.
“ Tévez é astuto, valente, aguerrido, hábil, incisivo. Mas corre demasiado ultimamente, como se tivesse de pedir perdão por algo. Quando a equipa tem a bola há vezes em que, estando desmarcado, continua a correr. Quando a bola passa para os rivais, corre atrás de quem a tem e, se esta a passa, corre atrás do novo possuidor e assim até eu me canso de olhar.”
(Valdano, 2007a)
O Futebol actual está, de facto, verdadeiramente contaminado pela velocidade revelando-se esta como a “palavra do momento”, e onde os jogadores que fazem desta a sua “arma” são constantemente valorizados em detrimentos de outros que, apesar da sua “aparente lentidão”, conseguem imprimir a verdadeira “velocidade” ao jogo, optando sempre pela melhor opção no melhor momento.
Rivalo, Suker, Romário, Zidane, Deco são exemplos de jogadores conceituados que, apesar de catalogados de lentos, apresentam em comum o facto de “nenhum ter pressa”, o que permite concluir que “a aparente lentidão é uma mentira do corpo, o disfarce que usam os que têm a velocidade escondida na inteligência” (Valdano, 1998, pp. 141).
Com estas palavras, apesar de não se encontrarem directamente direccionadas para o Futebol de Formação, pretende-mos perceber um pouco da importância da velocidade, ou da “ vertigem da pressa”, como diria Amieiro (2005), no contexto actual do Futebol.
Contudo, importa salientar que esta tendência do Futebol actual não se reflecte somente no Jogo, na forma de jogar, expressando-se igualmente, e de maneira ainda mais evidente e preocupante, na forma como os jogadores e os Talentos se “constroem”, se “criam”.
A contaminação da FORMAÇÃO pela vertigem da velocidade é, de facto, já uma realidade (Santoalha, 2008), o que se reflecte na obsessão e na “pressa” em descobrir novos Talentos (Lobo, 2007 cit. por Maciel, 2008), o que
nos permite concluir que a Formação encontra-se perfeitamente caracterizada pela preocupação com o “futuro”, na sua “rápida” antecipação.
“Quero produzir craques e, por isso, quero vê-los craques JÀ!!!!”. É esta a mentalidade incutida nos técnicos dos escalões de Formação, que na procura de mostrar o seu trabalho, o seu “talento”, procuram ter os craques “aqui e agora”. E qual a melhor forma de os demonstrar? VENCENDO e GANHANDO a todo o custo!!! Talvez induzido por esta realidade, Cruyff (2002) demonstra-se contra a necessidade dos treinadores dos escalões de Formação terem Formação na área. Porque, segundo ele, estes treinadores que estudaram irão investir seu tempo para subir na carreira o que, na realidade actual, apenas ganhando se consegue. Neste sentido, ainda segundo Cruyff, o treinador deveria ser “o rapaz da aldeia do lado que jogou toda a sua vida Futebol e agora quer ensinar os jovens”. Apesar de ser uma ideia bastante redutora e simplista, parece-nos que é bastante elucidativa quanto ao receio transmitido pela constante “pressa” que se vive nos escalões de Formação, pela constante necessidade de “antecipar” o futuro e possuir craques “aqui e agora”, como referido.
Neste sentido, salvo raras excepções, o que acontece na maioria dos casos, e que dita a normalidade, é a “marginalização” do jogar nas etapas de Formação. Aqui esse jogar é, muitas vezes, substituído por dimensões complementares, como são o treino físico e o treino táctico. Sempre com o objectivo de trazer o “futuro” para o “presente”, prejudicando todo um “presente” que se quer de preparação para o “futuro”!
“Se pensarmos na origem dos melhores jogadores do mundo, neles não existem grandes academias, campos relvados e botas fantásticas. Existem, isso sim, bairros de lata, baldios de terra revolta e pés descalços.” (Lobo, 2007). Efectivamente, “todos os grandes jogadores começaram a brincar com a bola nas ruas (…) “ (Tostão, 2004), como são os exemplos conhecidos de Pele, Ronaldinho, Maradona, entre tantos outros, que, com uma laranja ou um limão, como referiu Paulo Sousa (2006a) relativamente a Maradona, apenas se preocupavam em divertir-se, em “jogar a bola”.
No entanto, hoje em dia, o processo “normal” de querer antecipar o futuro não contempla este “jogar à bola” nem o consequente desenvolvimento de capacidades que, sendo fundamentais, apenas é possível a longo prazo. E, assim, temos um processo demasiado obcecado com os resultados do presente, desprezando por completo as consequências que tais sequências processuais terão nos resultados do futuro. Assim, toda a lógica de um processo que visa um “futuro” (Formação do craque) mas que se preocupa em demasia com o “presente”, tentando antecipar esse “futuro” para o “aqui e agora”, encontra-se comprometida, uma vez que sempre procuramos acelerar o presente, como efeito secundário curioso abrandamos o passado e sempre que nos (pre)ocupamos com o futuro, o presente parece desaparecer mais velozmente! (Gleick, 2003).
Ora “esta pressa em obter tudo, de uma só vez, sem perspectiva de percurso, sem semear, é muito própria dos nossos dias” (Ramos, 2006) e deve ser encarada com cuidado.
De facto, e como referia o Professor Victor Frade ao longo das suas aulas, os talentos são cada vez mais “cozinhados em panela de pressão”, onde a busca de resultados imediatos na Formação de talentos conduz a processos de Formação desajustados e que em muito influenciam o futuro das crianças.
“A primeira causa de acidentes é a velocidade” argumenta Valdano (2007a), referindo-se aos variados posters que encontra na estrada, acrescentando que os “colocaria nos estádios para os Futebolistas entenderem a importância do tempo de cada jogada”. Poderíamos ser ainda mais radicais e colocar estes posters nos gabinetes do Futebol de Formação para que todos os envolvidos compreendessem que uma Formação de qualidade não se coaduna com lógicas apressadas (Maciel, 2008).
Neste sentido, e como já foi demonstrado anteriormente, a Formação desportiva dos atletas é um processo a longo prazo e, como tal, deve ser estruturada e organizada segundo um conjunto de pressupostos e princípios (Raposo, 2006).
Na linha deste pensamento parece se encontrar Garganta (1986, cit. por Moita, 2008), referindo que um jogador passa por várias etapas antes de
alcançar os mais elevados níveis de desempenho desportivo, sendo que, para que isso aconteça, torna-se imperativo racionalizar e organizar esse percurso desde o início da Formação até aos mais altos níveis de desempenho.
Em jeito de conclusão, reforçamos a ideia de que a maturação das crianças se faz lentamente e, como tal, o segredo da Formação de jovens Jogadores reside no facto desta refutar, assim, qualquer lógica apressada (Cruyff, 2002), o que exige que a participação em actividades desportivas especializadas por parte das crianças se faça em torno de programas adequados que não obedeçam apenas às lógicas da preparação mas fundamentalmente aos níveis de prontidão da criança na resposta às exigências do treino e da competição (Marques, 2002).