sujeitas a uma disciplina severa, por forma a criarem hábitos de ordem e método, respeito e obediência, entre outros «Por fim, a escola devia educar as crianças na
2 1 A PROFISSÃO DOCENTE
2.2. OS DIFERENTES NÍVEIS DE ENSINO
2.2.1. ENSINO PRIMÁRIO
No dizer de António Nóvoa77 os postos de ensino e o livro escolar único constitu-
em duas "inovações" legislativas do Estado Novo.
Os postos de ensino, criados em 30 de Novembro de 1931, foram apresentados à
Nação nos seguintes termos: «(...) ficam sendo mais um instrumento da iniciativa da Ditadura em prol da diminuição do número dos iletrados, ou seja da resolução do chama- do problema do analfabetismo»78.
Os "mestres" destes postos designavam-se "regentes escolares" e iriam ser esco-
lhidos, com a concordância do ministro da Instrução Pública, entre pessoas a quem mais não se exigiria do que a comprovação de possuírem «a necessária idoneidade moral». Porém, esta situação viria a conhecer, por decreto de 28 de Agosto de 1935, novo rumo: passou-se a exigir um exame de aptidão aos candidatos à regência dos referidos postos
(...)79.
A imposição de um livro escolar único para uma das classes de ensino primário foi uma outra medida do Estado Novo, tomada em 1936 (Decreto n° 1941, de 11 de Abril), medida que se destinava a «pôr termo à herança de anarquia pedagógica do demo-liberalismo, segundo a qual cada autor podia proclamar, numa estranha pluralidade de conceitos fundamentais, a sua verdade»80 e a dotar o regime de um poderoso instru-
76 Ibidem, p. 556. 77 Ibidem, p. 559.
78 CARVALHO, R. - História do Ensino em Portugal, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1986 p 736 79 Cf. Ibidem.
mento de endoutrinamento ideológico e de controlo dos conteúdos de ensino»81. Valores
como o culto das virtudes da autoridade, da caridade, do trabalho, da obediência e sacrifício, o elogio da vida rural, simples e alegre fazem parte do núcleo essencial veiculado por esse mesmo livro único82.
A reforma de Carneiro Pacheco de 1936 vai marcar o sistema escolar português
durante muitos anos, pois ela representa a realização, entre outros, de um objectivo há muito enunciado: «reduzir a escola primária ao "ideal prático e cristão de ensinar bem a 1er, escrever e contar, e a exercer as virtudes morais e um vivo amor a Portugal", libertando-a de um "estéril enciclopedismo racionalista, fatal para a saúde moral e física da criança, (preambulo da Portaria n° 9 015 de 11 de Junho de 1938>>83.
E de notar que a ideologia do regime supõe a estratificação social, a segurança e a promoção de elites. O povo estava miserável mas importava que não tivesse consciên- cia da sua miséria para que não houvesse sobressaltos sociais, para que não fosse para a cidade, para as fábricas, onde poderia estabelecer contactos "perigosos", devendo f i - car no campo a cultivar a terra. Daí a exaltação com que sempre eram referidas a beleza no campo, e as vantagens de uma economia agrária. «O inconveniente de o povo saber 1er não estava propriamente no facto em si mesmo de 1er mas no uso perigoso que dele poderia resultar. Por via da leitura teria o povo acesso ao conhecimento de doutri- nas corrosivas e de facécias mal cheirosas, conforme dizia Alfredo Pimenta, e se essa consequência fosse inevitável então melhor seria fecharem-se as escolas deixando-as apenas abertas aos filhos bem comportados da burguesia interessada na manutenção dos seus privilégios. Mas havia, sem dúvida um outro caminho a seguir que seria o de proporcionar escolas a todos mas só os deixar 1er aquilo que o Estado achasse conveni-
81 Ibidem.
82 Cf. http://www.malhatlantica.pt/germanobagao/ensino/html/aofensiva htm 83 Ibidem.
ente, não apenas enquanto crianças, na escola, mas depois como adultos, pela vida fora, até à hora da morte. Constituiria, sem dúvida, esta orientação alternativa, um programa grandioso, de proporções gigantescas (~.)»84.
«Num discurso proferido em 27 de Outubro de 1938, o ministro, Carneiro Pacheco, vangloriava-se já de um "aumento em números redondos de 30% nos agentes de ensino, de 53% na população escolar" em relação à realidade deixada pelo anterior regime em 1926. O relativo progresso quantitativo da rede escolar é, porém, fortemente contrabalançado por duas medidas: a extinção do ensino infantil oficial (Decreto-Lei 28 081, de 9 de Outubro de 1937) e a redução da escolaridade obrigatória para 3 anos (situação que se manteve até 1956 para o sexo masculino e até 1960 para o sexo feminino). A filosofia da nova política educativa tornava-se assim muito clara: o aumen- to da população escolar devia ser conseguido à custa da qualidade e da duração do ensino e funcionar como um verdadeiro instrumento de enquadramento ideológico ao serviço dos objectivos do Estado Novo»85.
Se em termos qualitativos a política restritiva do Estado Novo teve consequências nefastas no ensino primário, o mesmo não aconteceu no domínio quantita- tivo: averbou sucessos de relewo, designadamente no que se refere à «(...) finalização do ciclo de escolarização primária das crianças portuguesas. Em 1960 mantêm-se algumas dificuldades residuais, mas no essencial a escolaridade obrigatória é cumprida»86.
CARVALHO, R. - História do Ensino em Portugal, p. 728.
http://www.malhatlantica.pt/germanobagao/ensino/html/aof ensiva.htm NOVOA, António - A «Educação Nacional», p. 481.
Alunos - Ensino primário1
Anos Ensino Oficial Ensino Particular Total Anos
Masc. Fem. Total Masc. Fem. Total Masc. Fem. Total
1930(a) 241856 180768 422624 _ _ _ 241856 180768 422624
1940(a) 315639 239253 554892 36437 15369 51806 352076 254622 606698 1950(a) 339203 270706 609909 39134 15707 54841 378337 286413 664750 1960(b) 439266 406758 846024 19922 21289 41211 459188 428047 887235
a) Inclui adolescentes e adultos. b) Menores em idade escolar.
Analisando o quadro anterior é possível verificar que duplicou o número de alu- nos no ensino primário num período de trinta anos. O aumento de alunas é mais significa- tivo.
Nos anos 5088 começa-se a «(...) vislumbrar uma nova política educativa no sec-
tor do ensino primário:
«O problema do analfabetismo está, pois, a ser dominado. Já se aheraram as
cifras vergonhosas de há trinta anos e caminha-se para taxas idênticas às de outros
países. A questão que se põe agora, e necessita de ser vista corajosamente, é a da qualidade de ensino e da sua utilidade, porque não basta ensinar a ler e escrever e até ministrar o ensino até ao exame da 4a classe»89.
87 Ibidem. 88 Ibidem. 89 Cit. in Ibidem.
Chegou a hora de soprarem alguns, ainda que ténues, «(...) ventos (tímidos) de mudança, de que vale a pena destacar o alongamento da escolaridade obrigatória: primeiro para 4 anos, em 1956 (sexo masculino) e em 1960 (ambos os sexos); depois para 6 anos, em 1964.0 fenómeno da «explosão escolar» começa a manif estar-se com nitidez, iniciando uma das mais importantes transformações históricas da sociedade portuguesa»90.
Veremos de seguida quais eram as ideias defendidas por AS relativamente à Escola Primária.
AS sustenta que «(...) é à volta da escola primária, e entendendo-a como principi- ando com o jardim de infância, que pode iniciar-se a redenção económica de Portugal, e, pela forma de a levar a cabo, a redenção de sua alma»91.
AS desejaria que a escola primária funcionasse como uma cooperativa de produ-
ção e consumo. Daqui resultaria que a vida escolar arrancaria do trabalho na cooperati- va, dando-se primazia ao contacto com a realidade, em detrimento de um artificial, porque afastado da realidade, e «(...) prematuro 1er, escrever e contar; como sucedeu
na história da humanidade, seria a própria evolução do grupo associado que exigiria o
domínio das técnicas de registo e comunicação; todo o trabalho estaria o mais possível a cargo de alunos, tomando-se consciência de que, se não relegássemos o trabalho manual àqueles de que nos consideramos superiores, todos nós teríamos mais tempo para apren- der a vida e não nos dedicaríamos, com a frequência com que o fazemos, a falsas ocupa- ções intelectuais que apenas se criaram para dar sustento aos incapazes de tarefas de produção real»92. Neste sistema de ensino a escola deve ser o local ideal para «(...)
estudar e meditar, não para ensinar e falar; escola que nada separe da natureza a que teremos de voltar enriquecidos de tudo o que nos foi a experiência da história; e escola que reforme o mundo (...)»93.
90 Ibidem.
91 SILVA, A. - Educação de Portugal, p. 69
92 Ibidem. 93 Ibidem, p. 70.
A escola primária não deve funcionar como uma instituição isolada, mas «(...)
é preciso que a comunidade toda se congregue à sua volta, que na escola possam também aprender os adultos o que é propriamente saber e que pela primeira vez tenha o povo lugar de luz, convívio e ânimo que lhe substitua a taberna; a que se tem resignado, muito mais que querido»94. Além disso, «deve funcionar a escola primária (...) como centro de
reunião e actividade de lazer da comunidade inteira, ali se dando as aulas que forem solicitadas, dando as informações e guia que forem solicitadas»95.
Mais do que ensinar muitas coisas aos alunos, a escola primária deveria "acordá-los" para a vida, por intermédio da sua participação e responsabilização nas tarefas do grupo, da cooperativa.
Se a escola primária conseguir levar a cabo um ensino livre, que sacie a curiosi- dade das crianças, então nelas poderemos ver a imagem do homem que se deve realizar e, na sua simplicidade, aprender a tirar partido da vida e de tudo aquilo que dela faz parte: «(...) nas condições actuais só a criança vive, no sentido basilar de que não se põe como ideal adquirir hábitos, mas reinventar o dia a cada sol que surge»96.
Mais do que transmitir conhecimentos, a escola primária deveria lançar os fun- damentos dos homens e mulheres de amanhã.
Ibidem, p. 71. Ibidem. Ibidem.