A14’ padece de muitas debilidades. Por partes temos: 1. é apenas uma hipótese assumida – nunca
sendo devidamente discutida senão apenas nos constrangimentos próprios do debate acerca do uno; a premissa 2., ainda que contradizendo P11, apoia-se totalmente na sugestão absolutamente gratuita da ideia de que para uma coisa perfeita não é possível criar outra coisa imperfeita; 3. é claramente um legado histórico-filosófico recuperado aqui e de igual modo também inquestionável; 4. é a conclusão inconsistente de 1., 2., e 3.; neste esquema, 5. é finalmente o culminar infundado de um argumento non sequitur: o reconhecimento da perfeição do intelecto não pode levar à correcta inferência dedutiva da perfeição dos entes gerados e, no contexto, da sua sensibilidade.
O raciocínio pretende mostrar como o intelecto por ser perfeito não pode estar comprometido com a geração de seres imperfeitos; contudo, de uma perspectiva crítica toda a construção argumentativa é claramente inválida. Neste sentido e dada a debilidade dos argumentos produzidos, a hipótese negada na frase final deste parágrafo de que seria absurdo considerar a sensibilidade dos seres um factor apenas acrescentado aos entes no momento da sua geração corresponde apenas a um artifício absolutamente retórico.
4.1-21. O texto sofre agora um pequeno desvio do assunto que até então o tinha orientado. Neste preciso momento, a questão é a seguinte: o que é o Homem? A resposta parece reforçar P8 – existe o Homem sensível e existe o
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Homem inteligível. Seguidamente, Plotino articula outra questão: é o Homem sensível uma razão apenas da alma, diferente dela própria que o gerou e que lhe proporciona a vida e o raciocínio? Ou ao invés será o Homem aquela alma total que anima o seu corpo? Se o Homem é um animal racional, ou seja um composto de corpo e alma, não será esta razão entre uma alma e um corpo o mesmo que a alma total? Plotino continua: se a razão que perfaz o Homem é este composto de uma alma racional, como será possível a existência eterna já que tal só se gera na reunião entre um corpo e uma alma?
O bloco final traz consigo e ao contrário das questões passadas asserções positivas: esta razão do corpo e da alma humana, diz-nos Plotino, não é aquilo que define absolutamente o Homem. A crítica presente é nitidamente histórica e prende-se evidentemente com todo um legado platónico- aristotélico que aqui se recapitula; a sugestão plotiniana é que a explicação da composição que perfaz o Homem não corresponde à definição da forma que está na matéria (
), mas apenas e tão-somente à natureza do próprio composto gerado e não portanto daquilo que é eternamente. Daí esta rejeição de Plotino: a definição do Homem como um animal racional não explica nem define a forma do Homem – mas o composto que existe.
O texto sujeito a análise destaca-se pela quantidade de questões retóricas que endereça; todas as interrogações caminham na direcção do estabelecimento da tese de que a definição do Homem que consiste na predicação dos atributos da racionalidade e da animalidade não diz respeito à sua forma eterna, mas ao que existe no mundo sensível (P8). A definição considerada de Homem por Plotino gravita justamente em torno das duas ideias que traduzem a dualidade da perspectiva metafísica de que aqui se parte. Corpo e alma, animalidade e racionalidade é tetralogia conceptual que anima esta discussão e a tese que Plotino sugere é que a constituição do Homem inteligível não passa pela conjugação destes termos, justamente porque estes apenas podem dizer respeito ao composto, àquilo que pertence ao mundo sensível. O equívoco está aqui na confusão conceptual gerada por Plotino; o texto sugere que a definição de Homem como ‘animal racional’ esclarece apenas o que
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O e a sua posição no interior da economia do presente texto são complexos e difíceis de avaliar dada a irredutível polissemia no texto. Procurámos sempre que possível na tradução manter a ambiguidade que se pressente com nitidez em Plotino. Este problema tem sido debatido intensamente na bibliografia secundária, ao ponto de ter sido sugerido nos anos quarenta, por A. H. Armstrong que o poderia ser interpretado como uma quarta hipóstase dentro do ambiente intelectual construído por Plotino (Armstrong, The Architecture of Intelligible Universe in the Philosophy of Plotinus 1940). Atrás já referimos o problema que por sua vez se agita em torno do termo ‘hipóstase’. Esta problemática é amplamente retratada e debatida por Luc Brisson (Brisson 1999); a relação deste termo com a questão da providência também já foram devidamente discutidos por Shubert (Shubert 1968) num artigo que releva bem a relação
que os dois princípios mantêm nos textos de Plotino. O sentido do termo na época de Plotino era uma moeda
comum na arena do debate gnóstico – sendo, aliás, um aeon ou seja, uma emanação primordial do ser supremo – e está a nosso ver definitivamente comprometido com uma influência estóica profunda. No presente tratado é bem evidente a flutuação semântica do termo, todavia e ainda assim é igualmente perceptível a ideia de que no texto apresentado, o traz consigo uma significação que o remete para uma causalidade se não criadora, pelo menos reguladora e
semelhante ao papel que os princípios inteligíveis desempenham no plano da existência sensível. O é o princípio
que adequa cada forma nos respectivos particulares sensíveis, proporcionando-lhes ordem e estabelecendo neles uma
existência inteligível; apesar da flutuação dos termos técnicos em Plotino, enquanto produto do e de acordo por
exemplo com J. M. Rist (Rist 1967, 95), é um nome genérico para a parte mais importante da Alma – é a força providencial, não quedada na mundanidade que media a ligação descendente e ascendente entre o mundo terreno e o mundo superior. Mais uma vez importa assinalar: além das flutuações semânticas dos termos técnicos em Plotino, o que é ainda mais relevante é a constante multiplicação de justificações ad hoc, a contínua proliferação de estruturas e/ou de princípios criativos ou reguladores da realidade, sem que se avancem argumentos decisivos a favor das teses avançadas.
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só se podem encontrar no mundo sensível. A confusão está no simples facto de que em rigor Plotino perturba um argumento que deveria ser evidente, dada a posição dualista de P8: