Entre 14-15 diz-se: a primeira planta é uma e as do mundo sensível são muitas e provêm necessariamente da que é inteligível O problema é articular esta tese com a ideia das formas serem
2. Logo, o Bem é aquilo que existe antes de todas as coisas.
O problema entre 1. e 2. é que não existe uma real relação de suporte entre as proposições; ou seja: uma coisa pode ser auto-suficiente, não carecer de outra qualquer coisa para existir e ainda assim não ser a primeira das coisas antes de todas as outras coisas. A partir daqui articula-se uma ideia que deriva directamente desta linha especulativa: se o Uno é o único, o primeiro e o melhor entre todas as coisas, o que dele procede é, alegadamente, inferior e por isso, do ponto de vista axiológico, pior. Antes de haver pluralidade não existia maldade; porque os males apareceram naqueles que não participam do bem de nenhuma maneira, pois estão em oposição directa ao bem e nada está abaixo deles. Depois, Plotino, avança uma falsa disjunção reforçando, aliás, o que tem vindo a avançar: ou o Bem é o primeiro dos seres, o melhor e por isso necessariamente existente, ou não existe em absoluto nem é necessário.
Entre as linhas 1-16, o que se estabelece funciona como um renovado reforço do que até aqui tem vindo a ser avançado por Plotino; o problema fundamental daquilo que se determina neste bloco é mais uma vez o seu real valor argumentativo. Repete-se de outro prisma que o Bem é aquilo que está no topo hierárquico da ontologia aqui edificada; sublinha-se que por estar no topo da estrutura metafísica avançada, o Bem é também a melhor das coisas e que por isso mesmo é também aquilo que necessariamente existe. Na realidade, a relação de suporte entre as teses expressas por Plotino é inexistente153; dado o que é simplesmente inferido e o modo como o é, não é nada evidente que exista uma tal coisa que seja de tal ordem que seja necessária, sumamente boa e primeira entre todos os entes. A disjunção apresentada por Plotino é imprecisa: a SE ou existe ou não existe – mas não é de todo convincente que no primeiro caso o Bem, a existir, tenha que necessariamente ter as características aduzidas. O problema já vem, aliás, das linhas 6-7; Plotino questiona: como pode a melhor das coisas existentes não ser o Bem?154 A proposta agora é profundamente circular: se a
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Escapa na maior parte das vezes aos comentadores na bibliografia secundária especializada a observação de que este aspecto é, talvez, um dos mais relevantes e omnipresentes mitos do imaginário antigo e recente. Não é certamente por mera coincidência que o topo da hierarquia metafísica plotiniana é ocupado por uma SE que tem como característica fundamental, entre outras, o alegado facto da sua auto-suficiência. Não há dúvida de que o problema em Plotino é também cultural – e é evidente que Plotino recebeu esta informação da tradição de que é de algum modo expressão; mas o importante é percebermos que razões estruturais profundas existem nas Enéades para este tipo de comportamento intelectual.
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Outra das características da SE amplamente subentendida aqui é a da simplicidade; o princípio da anterioridade da simplicidade que atrás já fizemos questão de sublinhar parece articular a tese introduzida: o Bem ou existe ou não existe – mas como é antes de todos os demais seres, existe necessariamente, é inevitavelmente simples e é por isso, alegadamente, o melhor de todos os entes. Já tivemos oportunidade de tratar esta questão atrás; o presente trâmite conceptual é profundamente falacioso e opaco de um ponto de vista crítico.
154 A referência colhe directamente do platónico Filebo (20e et 60b); conforme já dissemos, o objectivo da presente investigação não passa por uma genealogia dos termos e soluções teóricas avançadas por Plotino, mas importa aqui e para já frisar que o problema é parcialmente reconduzível a toda a meditação construída por Platão em torno da relação do bem com o prazer. Em Plotino, contudo, as respostas são sem dúvida originais, se comparadas com as soluções do mestre ateniense; o princípio da anterioridade da simplicidade, sub-repticiamente pressuposto no trâmite habitual da consciência antiga, ganha especial relevo aqui ao fundamentar com uma invulgar profundidade retórica a necessidade de que alegadamente não há alternativa à hipótese de que a melhor das coisas não seja o Bem. Repare-se que o problema parte de uma platónica necessidade de refutação de uma teoria sensualista que faria coincidir o bem com o prazer. A tese de Platão é salvaguardada pelo posicionamento de Plotino, mas ao mesmo tempo é inegável a originalidade da solução
189 coisas.
O que anteriormente se organiza em torno desta tese fundamental funciona como um adereço e concorre para a correcção teológica plotiniana que temos vindo a sublinhar; falar-se de um vestígio do Uno ou da luz que este alegadamente proporciona ao/no Intelecto é entrar numa descrição de carácter mitológico e teológico que pouco peso tem para o pensamento crítico e argumentativo rigoroso. Aqui, mais uma vez, nenhuma das proposições avançadas se estabelece numa teia de suporte válida e verosímil; as associações de ideias são arbitrárias porque se limitam a seguir o trâmite justificativo dos pressupostos de que são expressão, com desenvolvimentos adicionais de pormenores conceptualmente salientes e pesados.
23. 16-25. A continuação do
presente parágrafo persiste no mesmo registo; a condicional avançada na linha 16-17 é expressão do mesmo género de especulação: se alguém disser que x não existe (sendo x a SE), também não existirá o mal. O raciocínio é o seguinte: só existe o mal porque o mal aparece definido por oposição ao Bem e as coisas más surgem definidas como aquilo que não participa dele. Plotino insiste: se não existisse o Bem, as coisas seriam naturalmente indiferentes – o que é impossível155. Todas as coisas que chamamos de bens referem-se a ele, e este, como é de esperar, não se refere a nada. Isto é: todas as coisas existem ontologicamente orientadas a partir do e para o Bem; sendo este, por definição, o termo último e superior de todas as relações e por isso não está, alegadamente, dirigido a nada senão a si próprio.
Descortinar o que quer realmente significar esta constelação de conceitos proposta por Plotino é difícil de entrever; o registo especulativo do texto plotiniano é opaco e assenta fundamentalmente em intuições religiosas que não estão comprometidas com um questionamento aprofundado do que é rigorosa e insistentemente proposto.
O Bem criou o Intelecto e criou a vida, criou as almas e todas as coisas que participam da razão, do Intelecto ou da vida. O Bem preserva as coisas, insufla-lhes intelecto, vida ou faz simplesmente com plotiniana: aqui não se trata apenas de uma resposta ética que propõe o refrear dos apetites humanos para subordinar o prazer ao saber e à razão; a questão em Plotino passa antes pela proposta aprofundada de uma teologia conceptualmente bastante densa e que tem reverberações não só do ponto de vista eminentemente metafísico, mas também nas dimensões mais práticas da vivência humana, nomeadamente e claro está, no plano da ética humana. No seu devido tempo, regressaremos à presente problemática.
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A questão da indiferença ( ) das coisas diz aqui directamente respeito a um problema trabalhado pela tradição estóica (Diogenes Laertius 7. 101-3; 7. 104-5; 7. 160; Stobaeus 2.79, 18-80, 13; 82,20-1; 2.83,10-84,2; 2.84, 18- 85,11; Sextus Empiricus, Adversus Mathematicos, II.64-7; Plutarchus, De Stoicorum Repugnantiis, 1048a, Cicero, De Finibus 3.50; Epictetus, Diss. 2.6.9; Stobaeus 2.76,9-15); este é o núcleo fundamental onde ética e metafísica se
conectam: a intuição plotiniana de uma impossibilidade teórica do não-cognitivismo ético é expressão do preconceito que regula os eixos mais centrais do seu trabalho especulativo. Para Plotino, todas as coisas se referem de algum modo ao Bem enquanto este último, por sua vez, não está orientado para nada – o que é opaco na construção teórica aqui avançada é justamente a natureza desta relação. Remeter a explicação desta relação para a ideia – que de resto Plotino sistematicamente parece avançar no sentido de colmatar esta ausência de conteúdo explicativo real – de que por estar no topo da hierarquia ontológica, necessariamente existe eé a melhor, possibilitae garante toda a realidade que dela deriva, mas não satisfaz a necessidade de explicar em rigor não só o significado mas também o processo da orientação dos seres em direcção à SE. Tudo isto faz parte de um essencial projecto de correcção teológica assistemático mas aliado a uma estratégia de retórica que na verdade arvora todo o trabalho especulativo de Plotino. Adiante voltaremos a esta questão.
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que existam. Plotino esboça bem nesta passagem a gradação ontológica que perfaz o universo proposto no horizonte intelectual deste texto: o Bem salvaguarda as coisas que gera, e às coisas que pensam, dá-lhes, através do Intelecto, pensamento, nas que vivem insufla-lhes vida e naquelas que não vivem nem pensam, dá-lhes pelo menos existência.
O que se releva com maior proeminência neste momento é o reforço dos pressupostos que animam em profundidade todo o horizonte intelectual do texto de Plotino; por ser a causa da existência, o Bem, já o referimos, é também a causa incausada a partir da qual se gera o Intelecto e a vida. Para além do problema lógico que este tipo de raciocínio acarreta e que já tratámos atrás, importa insistir na ideia de que a existência do Uno é aqui sugerida, alegadamente, como necessária, porque caso não existisse esta estrutura reguladora e edificante da realidade, todas as coisas não só à partida não existiriam, como se acaso ainda assim existissem seriam indiferentes ( ), ou seja, e numa linguagem que remete sem dúvida, como atrás sublinhámos para questões relativas ao estoicismo, nem boas nem más. Atrás já tratámos o problema que afecta esta posição que é conceptualmente confusa; o que interessa neste momento é renovar a ideia de que a tese da necessidade da existência da SE aqui sugerida é absolutamente espúria, no sentido de que do ponto de vista lógico não é evidentemente necessária a postulação de uma entidade sobrenatural para que se possa vincular a orientação hierárquica dos entes, nem a objectividade ética e axiológica de todos os seres.
Outro ponto a relevar é que a explicação oferecida para a diferença axiológica entre os entes está relacionada com o grau de participação destes no Bem; o problema aqui é que o conceito de participação ( ) avançado na linha 12 é em rigor pouco explicativo e por causa disso – por não se perceber com precisão nem o alegado processo de participação dos entes na SE, nem a razão pela qual, na verdade, há seres que então participam mais que outros do Bem – deixa por resolver o problema que pretende solucionar156.
A intuição que fundamenta esta constelação de conceitos é bastante arcaica. Conforme temos vindo a descrever, o axioma que desencadeia este raciocínio assenta na ideia de que aquilo que engendra uma coisa, fá-lo porque lhe é de algum modo superior, sendo que ao mesmo tempo aquilo que dele supostamente procede, quer no mundo sensível, quer no mundo inteligível, serve, por sua vez, para podermos inferir a existência de um topo metafísico que funciona simultaneamente como a entidade que doa e preserva o predicado da existência de todos os entes que de um modo ou de outro perfazem a realidade sensível e inteligível de que são, ao mesmo tempo, expressão ou sinal. Em suma, convém sublinhar a propósito do que foi dito: o vago argumento avançado por Plotino corresponde claramente a um trabalho especulativo sobre um típico argumento teleológico para a existência do divino.
156 A crítica a Plotino que aqui recuperamos deve-se evidentemente ao que Aristóteles denuncia, por exemplo, sobre Platão na passagem fundamental da Met. 991a20-22. O problema no trâmite aristotélico-platónico é de difícil averiguação muito por causa do irredutível platonismo que estrutura em profundidade a especulação metafísica de Aristóteles. O problema aqui é todavia outro, porque na realidade a influência quer de Platão, quer de Aristóteles é mais do que evidente. Importa frisar para já também o seguinte: à semelhança do que sucede em passos fundamentais da metafísica platónica e até, aristotélica, também Plotino não parece especialmente interessado em expor o seu trabalho metafísico com transparência argumentativa e rigor. Prova disto é, neste caso específico, o facto de que Plotino, explorando apenas a temática de modo meramente alusivo, não explica exactamente o próprio processo através do qual em rigor e supostamente ocorre o fenómeno de participação dos entes no Bem. Veremos adiante como este tipo de ausências explicativas são na verdade fundamentais, pelo menos no que diz essencialmente respeito à anatomia geral da metafísica plotiniana.
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ideia agora de que é a luz que ilumina o Intelecto e de que a alma participa. Depois, Plotino retoma as dificuldades que atrás tinham animado o tratado para concluir a existência da SE; o Bem é o Bem porque é desejável por outrem e se é desejável apenas para alguém, dizemos que é bem para alguém, mas se é desejável para todos, então já dizemos que é o Bem. Assim: