• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO III – ANÁLISE DE DADOS

3.3 Análise da conversa colaborativa 2: Germes de mudança

3.3.3 Então, o que podemos fazer?

Meu trabalho é construído na perspectiva da formação crítico-reflexiva de professores porque acredito que o professor possa ser o melhor disseminador de uma ideologia que não mais privilegie àqueles que estão no poder, mas que possa disponibilizar as ferramentas de que os alunos e a comunidade escolar como um

todo necessita para promover a emancipação dos sujeitos, tendo o sentimento de insatisfação como motor propulsor de mudanças.

É no sentido de promover uma reflexão que ajude os docentes a assumir uma postura mais crítica que realizamos nossas conversas colaborativas, o que é corroborado no discurso da professora Vitória:

Excerto 5

(1)Vitória: É. Então o que nós podemos fazer em pequenas atitudes é (2)fazer com que as pessoas percebam e aos poucos ir criando laços, (3)criando laços, mas não de romper. Acho...

Ao utilizar o pronome nós (linha 1), expressa compromisso seu e dos outros professores como um todo na tarefa de promover mudanças. Os processos materiais fazer (linhas 1 e 2), repetido duas vezes, e criar, também repetido (linhas 2 e 3), pode abrir margem para o entendimento de que devemos agir e que temos grande poder para isso. O fato de a professora ter escolhido o modal poder para acompanhar o processo material fazer (linha 1), pode demonstrar que ter a atitude, mesmo que pequena, de procurar promover mudanças é uma questão de escolha por parte do professor. Nesse sentido é que precisamos trabalhar bem no processo de conscientização dos docentes, para que percebam a importância de terem uma postura de engajamento num projeto de educação para a emancipação dos sujeitos.

Este é um trabalho de criação de uma espécie de rede, ou laços, como a professora Vitória preferiu chamar, já que o trabalho em grupos de estudos como o nosso se dá, em geral, com um número reduzido de professores. Contudo, se houver muitos grupos, as mudanças necessárias serão mais facilmente implementadas.

Excerto 6

(1)Vitória: Então, está vendo, o que você fala, assim, é uma estrutura (2)muito armada, que a gente, assim, com estes pequenos grupos de (3)estudos vem, assim, conscientizando, trazendo um pouquinho da (4)teoria crítica para o terceiro ano para ver se abre um pouco, né.

Aqui, a professora Vitória continua falando da importância do trabalho nos grupos de estudos e já demonstrando uma ação concreta que tem implementado junto às turmas de terceira série do ensino médio, com as quais tem procurado, nas

atividades de interpretação de texto, levar para as aulas temáticas que incitem a reflexão com relação às assimetrias existentes na sociedade. Quero chamar a atenção para o emprego do pronome você, associado ao processo verbal falar (linha 1), que se refere aos textos e discussões que provoquei, tendo a questão de ideologia e relações de poder como tema em nossos encontros, e também, para a forma pronominal a gente (linha 2) denotando, creio, o engajamento de Vitória com a proposta que já não é só mais minha, mas é nossa.

A professora Eduarda também tem procurado promover a reflexão por parte dos alunos com os quais trabalha, sendo também tal reflexão voltada para uma clientela de ensino médio, especialmente, as duas últimas séries. Vejamos como a professora tem provocado a reflexão em seus alunos:

Excerto 7

(1)Eduarda: É importante você mostrar com o aluno, você está usando (2)um livro, aí você está usando um livro de uma quinta série, você está (3)usando num primeiro ano de segundo grau. E você tem que mostrar (4)isso para esse aluno. “Olha, esse livro que eu estou usando com vocês (5)é da quinta série. Por que que eu estou usando com a quinta série? Eu (6)vou mostrar o livro que eu deveria usar com o primeiro. Vamos ver (7)como seria. Olha, dá uma olhada no livro. Perceba a diferença que (8)tem entre um e o outro”. E aí, eles mesmos começam a perguntar por (9)que que eles estão atrasados.

Vou enfocar alguns traços do discurso da professora que considero mais importantes nesse momento. O pronome você, aparecendo repetidas vezes (linhas 1, 2 e 3), na primeira pessoa, marcando inserção situacional, i.e., a experiência pessoal da falante pode ser partilhada com os interlocutores (Labere & Sansankoff, 1980 apud Papa, 2008, p. 55), sugere que a atitude tomada pela professora com seus alunos deveria ser seguida por nós, companheiros do grupo, e por outros docentes. O processo material usar, no gerúndio, aliado ao processo estar (linhas 1, 2, 3, 4 e 5), pode deixar o entendimento de que o uso de um livro didático feito para a quinta série do ensino fundamental numa primeira série de ensino médio, seja um fato transitório e não perene, diante da possibilidade de mudança aberta pela reflexão crítica. O aluno seria chamado a perceber a diferença (linha 7), o que deve levar à reflexão por meio de questionamentos a respeito da realidade de ensino/aprendizagem que vive em sua escola.

A luta das docentes que atuam na escola Delta, que também, mesmo que menos diretamente, é minha e da professora Vitória, teve um fruto muito positivo,

que foi a mobilização da comunidade escolar para defender o projeto

“Resignificando a aprendizagem de língua estrangeira: um projeto de ensino das quatro habilidades comunicativas”, quando ameaçado de extinção por parte da Secretaria de Educação de Mato Grosso. Veja-se o que nos diz sobre isso a professora Eduarda:

Excerto 8

(1)Eduarda: (...) Então, eles acabam, assim, se alertando e começam às (2)vezes a questionar e a lutar com você também, porque que ele está (3)naquilo, e começa às vezes a brigar junto com você. Por que que os (4)alunos do Delta fizeram um abaixo assinado para entregarmos lá na (5)secretaria de educação para a continuação do projeto? Porque eles (6)viram que é diferente.

Os bons resultados obtidos pelo projeto ao qual nos referimos encontram respaldo junto aos alunos, os quais, por meio do processo mental ver (linha linha 6), no sentido de perceber, são apresentados pela professora como pessoas que experienciaram o diferente (linha 6), o que dá certo e é de melhor qualidade, e por isso, o defendem. O processo mental de cognição alertar-se (linha 1) pode levar os alunos a começar (processo material, de ação) a questionar, a lutar (linha 2) e a brigar (linha 3) – também processos materiais de ação – o que pode ser ilustrativo do que acontece com o trabalho de conscientização e reflexão crítica: ele deve levar à ações concretas que sirvam para a melhoria das condições de vida dos grupos menos favorecidos da sociedade. O processo material entregar (linha 4), empregado na primeira pessoa do plural, demonstra que os alunos são parceiros dos professores na luta pelo projeto, o que é extremamente louvável e desejável na perspectiva de trabalho que assumo.