2. PARTE I: “Se a montanha não vai a David, vai David à montanha”
2.3 O contexto de intervenção
2.3.1 Entendimentos acerca da escola: “O que era, o que é e como a
Segundo Ciscar e Uría (cit. por Carvalho e Soares, 2019), a escola tem um passado histórico bastante extenso, assumindo diferentes concretizações sócio históricas, desde a sua fundação como instituição familiar, passando por uma instituição religiosa, para finalmente chegar a uma instituição estatal.
A primeira escola foi a família, vista como instituição responsável pela educação, criando um ambiente de aprendizagem (Boufleuer e Prestes, 2013). A família era uma fonte de transmissão de conhecimentos e dos valores sociais, detendo um peso essencial na educação. As crianças tinham a tendência de “imitar os pais”, desenvolvendo-se, então, uma educação que passava de uma geração para a outra, através de um ensino doméstico. Seguidamente, a religião e, portanto, as igrejas foram uma referência na sociedade e, através do poder alcançado, assumiram um papel predominante na educação. Desta forma, a educação não deixou de ser responsabilidade da família, mas esta deixou de ser a única instituição responsável pela formação (Boufleuer e Prestes, 2013). Apenas as pessoas com ligação à igreja sabiam ler e escrever, como tal, transmitiam-se os saberes unicamente às crianças de famílias religiosas, discriminando-se as restantes.
Segundo Carvalho e Soares (2019), os educadores religiosos usaram o ensino como uma arma de influência e de transformação social. Os mesmos autores mencionam que durante séculos só uma minoria privilegiada tinha acesso à educação formal, através da qual aprendiam a ler e a escrever. Por conseguinte, o ensino não era para a totalidade da população. Com o tempo,
começou a perceber-se que era necessário educar, não apenas em relação à religião, mas também em relação aos conhecimentos decorrentes das ciências (Nadal, 2011).
Após a Revolução Industrial, o Estado assume um papel importante na criação de um “Sistema educativo progressivamente democrático e igualitário” (Carvalho e Soares, 2019, p. 30-31). Contudo, essa progressão de escola enquanto instituição educativa passou por uma ideologia: “ensinar a todos como se fosse só um”. Ainda assim, a escola acabou por se tornar numa instância educativa com formação especializada, com um programa e um professor apenas por turma, o mestre. Criou-se, pelo tanto, a noção de escola restrita, conhecida como a “escola de elite”, em que só as classes sociais altas e com poder financeiro tinham possibilidade e acesso à formação.
No século XX, nos anos sessenta, começou a época de expansão dos sistemas educacionais, tendo como ênfase a igualdade no acesso à educação. O Estado percebeu rapidamente a ideia de quanto mais educação, maior benefício e riqueza para a sociedade e para o país. “À nova ordem política interessava a educação de todos, que precisava ser viabilizada dentro das condições possíveis, para o que a educação de muitos ao mesmo tempo, isto é, em sala de aula, se mostrou uma solução eficaz” (Boufleuer e Prestes, 2013, p. 243).
Após o 25 de Abril, assistiu-se a uma massificação do ensino. A escola passa a ser obrigatória, gratuita, universal e sobretudo laica. A escola de massas e heterogénea a nível socioeconómico, étnico e geográfico. Isto conduziu a uma educação em locais próprios, tendo os professores como operários e os alunos para matéria-prima. Surgiu assim a ideia da escola fabril, onde os alunos são vistos como um produto que sofre alterações e modificações. Segundo Gelati (2009), a escola é vista como um espaço de produção de conhecimento. Contudo, nessa época a ideia de produção tinha um diferente significado. O objetivo era reformular as pessoas em função de um modelo de produto, apoiando a ideia: “entram todos diferentes, mas saem todos iguais”. O que nos que leva a pensar na produção em série, fundada pelo fordismo, um paradigma da organização de produção. A escola dava, assim,
resposta às necessidades do modelo industrial.
A escola enquanto fábrica passou a ser considerada como uma instituição educativa organizacional, mas com características particulares e próprias. A escola é vista como uma instância com a sua própria dinâmica (Nadal, 2011), uma organização aberta, que promove educação numa certa sociedade e em função das suas necessidades e, que em função das escolhas, vai contribuir para a construção de uma certa sociedade (Nadal, 2011). A escola tem características e representa, além de uma organização, também a ligação entre a comunidade e a realidade social. Nadal (2011) defende a ideia que o espaço escolar se situa entre a sociedade que é educadora e a geração que tem que aprender para poder estar inserida na mesma. Embora integradas num contexto cultural mais amplo, cada escola tem a sua cultura interna e é o que diferencia as escolas entre si. A cultura própria no âmbito da escola reflete assim o que Carvalho (2006, p. 4) afirma: “um conjunto de práticas, valores e crenças partilhados por todos aqueles que interagem no seu âmbito”.
Barroso (2004) define a cultura da escola em diferentes perspetivas: a perspetiva funcionalista, sendo a instituição educativa um transmissor de uma cultura produzida no exterior pelo poder político; a perspetiva estruturalista devido à estrutura e à modelização, o que engloba a organização pedagógica, as disciplinas, entre outros; e, por fim, a perspetiva interacionista, considerando que cada escola é um caso. Segundo Cardoso et al. (2016, p. 128), “os contextos de trabalho apresentam dinâmicas muito próprias, estreitamente relacionadas com a cultura institucional, cuja evolução está dependente da capacidade de agenciamento dos seus intervenientes e da maior ou menor resistência que lhes é oferecida pela instituição, enquanto estrutura”.
Podemos concluir com Nadal (2011, p. 142), ao afirmar que “a escola é, ao mesmo tempo, uma realidade dada e dinâmica, uma organização em permanente construção e constituição, ideia que implica no envolvimento do sujeito histórico que, através de sua realidade socioeconômica, política, cultural e organizacional, desenvolve uma visão de mundo, uma consciência e ética (sua pessoalidade), e constrói, em coletividade, uma dada realidade”. O mesmo autor defende que as escolas têm um movimento interno e próprio, que
estão sujeitas a resistências, releituras, flexibilizações ou adaptações, sendo uma realidade única, constantemente em construção pelas interações e ações da sociedade.
Concordo com Boufleuer e Prestes (2013), quando identificam a escola como mediadora e articuladora das aprendizagens e transmissão dos conhecimentos das diversas gerações, um elo humanitário entre quem estava, quem está e quem vem. No meu entender, a escola não é apenas a transmissão de conhecimentos, mas sim um “pequeno MUNDO” dentro da nossa sociedade.
Antes de iniciar o estágio via a escola apenas como um local de aprendizagem das “bases de vida”, necessárias para a integração na sociedade, sem olhar para toda a organização, dinâmica, problemáticas, conflitos e desafios que uma instituição educativa pode ter. Mesmo se no primeiro ano do mestrado fomos esclarecidos e sensibilizados sobre o que é uma escola e o seu funcionamento, só percebemos depois de sermos incluídos na comunidade escolar enquanto profissionais. Hoje em dia e graças ao EP, percebo o que é uma escola. Do meu ponto de vista, vejo a escola como um meio bastante complexo e com inúmeros desafios. Defendo que a escola tem as suas próprias características e representa a realidade social, cuja comunidade educativa é uma organização com a sua estrutura, por exemplo, ao nível do organigrama da escola, das relações de comunicação e interpessoais, nos diversos processos de planificação e de tomada de decisão, baseados em valores, em crenças e normas que criam a cultura de escola. Acima de tudo, acredito que a escola não é apenas um estabelecimento, caracteriza-se antes pelo conjunto das pessoas aí inseridas. A capacidade das pessoas que compõem a escola é que a conduzem para além do que poderia ser apenas “um estabelecimento” (Nadal, 2011).