3. NOVA LIMA: uma cidade de muitas bandas
3.3 Uma cidade de muitas bandas
3.3.4 Entre o bloco e a partida
uma bebida para animar e alimentar os participantes. Seu filho Leleco Melo, jogador do Villa Nova, participava e ajudava na organização. Alguns participantes se reuniam próximo à Barbearia de Zezinho Goularte, outros em frente do Campo do Villa Nova e ao som e ritmo da Banda iam se juntando e seguindo para a praça Bernadino de Lima, subindo as ruas até a parte alta da cidade (LOPES, 2021, p. 22).
Ao falar da participação dos músicos das bandas, alguns nomes ganham destaque. A cartilha publicada recentemente com a história do carnaval em Nova Lima cita a década de 20 e o maestro da União Operária, Manessés Alexandre, o qual não foi citado por nenhum interlocutor no momento das entrevistas84. Na memória dos entrevistados, o grande destaque na organização dos blocos está atrelado ao Zé Fuzil. Ele é lembrado por muitos como organizador da banda para o carnaval e pela capacidade que tinha de conseguir mais recursos financeiros para pagar os músicos. Dos entrevistados, Miranda foi quem mais detalhou a atuação do Zé Fuzil no bloco, descrevendo sua atuação até nos momentos em que já não conseguia mais “puxar” o bloco tocando seu trombone:
Os músicos tocava por amor. Então até que então foi tombado pela prefeitura, né? O Bloco dos Sujos, e foi dada essa verba. Mas quando já passou a dar essa verba, Fuzil já tava já saindo, né? Já tava mais velho. Aí ele ficou na coordenação, mesmo ele ainda sem tocar, ele ficou na coordenação muitos anos. Ele ficou e regia também. Aí ele passou a reger o Bloco dos Sujos, né? Ele que fazia a virada das músicas na voz, ele passava e falava as marcha que ia tocar. Dunga Pimenta é que era o pistonista dele que virava, né? E na bandinha do carnaval ele começou fazer pequenos arranjos, que hoje até no Bloco dos Sujos a gente faz alguns dos arranjos que ele bolou pras música de carnaval. Como ele num pôde tocar mais ele sentiu na obrigação de tá escrevendo85.
Dunga Pimenta, lembrado por Miranda, era regente da Sociedade Musical Santa Efigênia e também foi lembrado como um dos organizadores da parte musical do bloco pelo Sr. Eumindo Leão e por Claudinei, que acrescentou na lista de coordenadores o nome de Délcio Felix: “Quem pegava era ele (Zé Fuzil), era ele, Dunga e Délcio Félix. Eram os três que coordenavam a charanga do Bloco dos Sujos. Eles já eram titulares, eles ficavam muito entusiasmados com a gente”86.
O conjunto de músicos, organizados principalmente pelos regentes Zé Fuzil e Dunga, serviu de inspiração para a criação da Charanga do Villa. O Villa Nova Atlético Clube é um time de futebol que em 2022 disputou a Série D do Campeonato Brasileiro e ficou na 8ª colocação do Campeonato Mineiro. Seus torcedores se orgulham em ostentar o título de maior
84 Nenhum interlocutor da pesquisa reconheceu o nome do regente. Não há, ainda, nenhum documento que mencione o nome deste regente dentro daquela banda.
85 Entrevista realizada com Miranda em 06/03/2021.
86 Entrevista realizada com Claudinei Martins em 12/02/2022.
torcida do interior de Minas Gerais. É o segundo clube mineiro mais antigo e sua história, assim como acontece com o Bloco dos Sujos e com as Bandas de Música do município, remonta aos tempos dos mineiros da Saint John. Silva (2007), em sua dissertação intitulada “Cultura Operária: um estudo de caso do Villa Nova Atlético Clube”, aponta que o clube surgiu a partir do interesse de um grupo de pessoas que se reuniu na Casa Aristides e, percebendo as altas demandas recebidas pela já existente equipe do Morro Velho Atletic Club, resolveram fundar em 1908 o Villa Nova Atletic Club, utilizando como referência o então nome da cidade, Villa Nova de Lima87. Entre os fundadores do time, Silva (2007, p. 32) destaca a presença de pessoas com “nomes comuns brasileiros em parceria com nomes ingleses, o que reforça a heterogeneidade do grupo”. Seu estádio teve as primeiras arquibancadas inauguradas em 1924 e ocupa até hoje o mesmo espaço no bairro Bonfim.
A história das bandas e dos músicos de Nova Lima se conectam com a história do “Leão do Bonfim”88 em no mínimo dois pontos. O primeiro está atrelado à criação e vida da ainda ativa Charanga do Villa. Já o segundo é percebido quando se destaca a existência de dois hinos para o clube, um deles oficial e o outro popular89, acionado em diversos momentos de interação social, tais como carnavais e outras festas do município. Sobre a criação da charanga, Silva (2007) aponta indícios de que ela surgiu em 1946 como uma extensão do grupo que Zé Fuzil organizava para o Bloco dos Sujos:
A ideia da criação da Charanga surgiu de uma conversa entre o Edgar Henrique Amparo (ex-jogador do Villa em 1938/1944 e irmão do craque Cici) e o músico José Acácio de Assis Costa (Zé Fuzil). De início, ele estranhou a ideia do amigo Edgar, mas logo tratou de colocá-la em prática, cedendo à charanga músicos e instrumentos da Corporação União Operária [...] Zé Fuzil foi o responsável por organizar a Charanga que tocava no bloco dos sujos [...] A farra era tão bom que surgiu a ideia de se criar a Charanga do Villa Nova (SILVA, 2007, p. 74).
Uma entrevista realizada com os criadores da charanga, Edgar e Zé Fuzil, foi publicada em 1989 pelo Órgão Informativo do Villa Nova Atlético Clube. No trecho resgatado, os dois contam como era a atuação da Charanga nos dias de jogo:
A charanga saía da Vila Operária, em direção ao centro, e ia arrastando o povo até o campo. A gente tocava um dobrado e ninguém conseguia resistir [...] Havia uma música para cada ocasião: a de saudação, quando o time entrava em campo; o rufar dos taróis durante a marcação de faltas; outra para gols; o hino do Villa, etc. (LEÃO DO BONFIM NOTÍCIAS, 1989 apud SILVA, 2007, p. 75).
87 O nome dos dois clubes aparece em destaque na figura 11, retirada do Almanak Laemmert de 1917.
88 Apelido do time em alusão ao seu mascote e ao bairro onde se situa o seu estádio.
89 O termo “popular” é utilizado aqui em alusão à popularidade do hino no município.
Músicos das Bandas de Nova Lima ainda tocam na Charanga do Villa até hoje, mantendo, de certo modo, o perfil de atuação descrito por Edgar e Zé Fuzil. Foi neste ambiente de interação com os torcedores e de incentivo ao time durante os jogos que um samba tocado pela Charanga se tornou o que podemos chamar de “hino popular” do time. Da minha experiência com as bandas da região, já era de meu conhecimento a melodia e parte da letra do samba, que toquei várias vezes nos carnavais e que toquei novamente durante o trabalho de campo dessa pesquisa.
No dia 17 de dezembro de 2021, último ensaio do ano e no qual a banda se preparava para o último toque, que seria realizado no domingo pela manhã, cheguei na sede da União Operária poucos minutos após as 20:00. Assim que cheguei, recebi de alguns músicos a informação de que no domingo a banda faria dois pontos de parada antes de chegarmos na Praça Bernadino de Lima, onde faríamos uma retreta. As paradas eram motivadas por demandas apresentadas para a diretoria por dois comerciantes locais que estavam, naquela circunstância, fazendo doações para a banda. Um deles havia doado dinheiro para a aquisição de um forno para a banda e o outro havia doado 50 camisas para o novo uniforme da banda. No dia do toque, o patrocinador das camisas prometeu ainda a doação de um instrumento musical para a banda, algo que ele já havia feito há alguns anos. Os patrocinadores, além de concorrentes no comércio local, são “rivais” no esporte também, sendo um deles torcedor fanático do Villa Nova e o outro do Atlético Mineiro. Portanto, tínhamos ali a missão de tocar o hino dos dois times durante as paradas previstas para o domingo. No ensaio daquele dia, percebi uma movimentação típica de Fábio na secretaria da banda. Fábio estava terminando de ajustar o arranjo do hino do clube Atlético Mineiro e imprimindo as partituras para os músicos. Este hino foi a primeira música a ser ensaiada naquela noite e foi passada diversas vezes, enquanto o hino do Villa não foi passado em nenhum momento pela banda. Fábio disse ainda que no domingo seria tocado o hino do Villa que todos conhecem, para não aumentar ainda mais a demanda de preparação da banda.
Essa atitude demonstrou para mim o entendimento do regente de que o hino popular do Villa já era conhecido por todos ali, figurando como novidade apenas o hino do Atlético Mineiro.
No domingo, dia da retreta, chegamos à sede bem cedo. Assim que cheguei, encontrei a porta da secretaria fechada, pois Fábio estava lá dentro transpondo uma das partes do hino do Atlético para um músico. Antes de sairmos em direção à casa dos comerciantes, Fábio ainda fez um pequeno ensaio com a banda, no qual passou novamente o hino do Atlético Mineiro e outras músicas que seriam tocadas na praça. Logo após o pequeno ensaio, os músicos foram
saindo da sede da banda e assumiram suas posições na formação para caminharmos até a casa dos comerciantes. Como era véspera de Natal, o trajeto até as casas e até a praça foi feito com a banda tocando músicas de Natal em ritmo de samba e marcha. A primeira parada aconteceu a poucos metros da sede da banda, e como esperado, ao chegarmos em frente à casa do primeiro comerciante, Fábio anunciou o hino do Villa Nova, que foi tocado de cor por todos da banda.
No meio do grupo e com meu saxofone, a experiência foi um tanto curiosa, pois havia algum tempo que eu não tocava o hino, e tive que, como alguns ali, seguir os que tocavam com mais força e confiança, até relembrar a melodia completa do dito “hino popular”. Dali seguimos para a casa do próximo comerciante, localizada na Praça do Mineiro. Lá tocamos o hino do Atlético Mineiro, só que dessa vez utilizando as partituras que o Fábio havia arranjado. Nesta residência, por haver ali alguns torcedores do Villa Nova, nos foi solicitado também que tocássemos o hino do clube, que novamente foi executado de cor por todos antes de seguirmos com o trajeto até a praça.
Toda essa experiência, além de demonstrar para mim a forte relação do clube com o município e com as bandas, que sabem seu hino e o acionam sem muita dificuldade, despertou em mim a curiosidade sobre a existência dos dois hinos. Algum tempo depois, ao conversar com músicos e com o regente da União Operária, não me pareceu haver um consenso sobre quem criou o samba, ou como ele passou a se tornar um símbolo do time. O consenso veio quando disseram se tratar de um samba que possui outra letra e para o qual foi adaptada a letra em alusão ao Villa Nova. Durante as buscas que fiz, localizei um samba com a melodia e letra praticamente idênticas, chamado “A Vila Não Morreu”90, em alusão à Vila Izabel e de autoria de Aldair Louro, Color e Anício Bichara. Curiosamente, a melodia principal era idêntica e a letra se diferenciava somente na substituição de “A” Vila Não Morreu por “O” Vila Não Morreu. A diferença mais significativa na comparação da versão encontrada e a que as bandas tocam para o Villa está na introdução que os músicos de Nova Lima fazem para o hino, que não é semelhante à da versão encontrada. Considerando o contexto e a forma de atuação da charanga, que durante os jogos prioriza a execução de marchas carnavalescas e sambas, é razoável imaginar que a adaptação surgiu nos momentos em que a charanga tocava o samba que tem a letra facilmente aplicável ao contexto da partida e do clube: “isso começou na charanga quando Fuzil tocava, era responsável pela charanga”91. Neste cenário, o hino
90 A gravação de referência localizada encontra-se disponível no link:
https://discografiabrasileira.com.br/fonograma/79384/a-vila-nao-morreu
91 Conversa com Miranda em 16/04/2022.
oficial92 acabou perdendo espaço de representação simbólica através da charanga, por não se enquadrar dentro daquilo que compunha o repertório do conjunto.
Neste momento, as bandas, o Bloco dos Sujos e o Villa Nova continuam resistindo como símbolos da história e da capacidade das classes que historicamente foram menos privilegiadas na estrutura social do município. E neste cenário de resistência, a busca por recursos financeiros tem sido uma das principais preocupações daqueles que coordenam o Villa Nova e também, das bandas de Nova Lima, assunto sobre ao qual nos dedicamos a seguir.