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1. O TRAJETO DA PESQUISA

1.4 Um campo com sequelas

estar com o celular na mão, me solicitaram que fizesse um vídeo da performance de músicas que estavam sendo ensaiadas, para que pudessem postar depois, algo que comunicou com meu interesse expresso aqui de colaborar de alguma forma com aquelas corporações.

gradual das atividades das bandas, já que o trabalho de campo teve início quase que concomitante com o anúncio de retorno de cada grupo. A União Operária, que retornou suas atividades logo nos primeiros meses de 2021, experimentou mais situações práticas do que as demais bandas. Além dos ensaios, geralmente realizados semanalmente nas sextas-feiras à noite e quinzenalmente aos domingos pela manhã, a União Operária promoveu três ensaios abertos, três retretas e duas procissões21. Já a banda Coração de Jesus retornou suas atividades de ensaio, de fato, em agosto de 2021 e participou de um ensaio aberto e duas retretas.

A banda mais nova de Nova Lima, a Santa Efigênia, demonstra maior dificuldade na retomada das atividades, principalmente dos ensaios. Durante o trabalho de campo, a única atividade passível de observação foi uma aula promovida pelo regente Welerson. No entanto, pela estratégia de uma “mineira entrada”, o nível de conexão com as atividades do grupo não se consolidou durante o período do trabalho de campo. A situação desta banda, da qual fui integrante por um período de minha trajetória, preocupa e merece um pequeno destaque. Algum tempo antes da aprovação do projeto desta pesquisa, houve uma dissidência coletiva de músicos da Santa Efigênia. A situação se deu por desavenças criadas com a presidente e demais membros da administração do grupo. A partir daí, um novo regente, Welerson, foi convocado com a missão de reerguer a banda, formando alunos e promovendo atividades práticas. Pouco antes do início da pandemia, o grupo realizou, com auxílio de músicos de outras bandas e municípios, uma retreta na região de Nova Lima. No entanto, a pandemia e o consequente isolamento desestabilizaram o processo de reconstrução do grupo. Há ainda carência de recursos financeiros e de repasses da prefeitura para esta banda, assunto que será apreciado com mais detalhes no capítulo sobre a história do município.

Voltando ao Quadro Resumo os leitores mais atentos irão perceber uma pequena disparidade entre o período anunciado como marco do início do trabalho de campo e o período indicado no Quadro. O deslocamento se dá em função da inclusão de uma entrevista que foi realizada em março de 2021 com Miranda, o então presidente da União Operária. Naquele momento, eu buscava me conectar com a história e pessoas daqueles grupos, e essa entrevista foi um excelente ponto de partida, sem, no entanto, ser compreendida como o momento de início do trabalho de campo. Neste mesmo período, a busca de conexão com os interlocutores da pesquisa, respeitando a limitação momentânea de encontros presenciais, passou pela realização de diálogos e envio de questionários por aplicativos de mensagens. Há de se levar em consideração que, diferente de uma entrevista presencial, neste formato o interlocutor tem

21 Por motivos de trabalho, não consegui acompanhar a primeira procissão da qual a União Operária participou.

mais tempo para pensar e formular suas respostas. Sobre este assunto, aproveito aqui as palavras de Oscar Sáez para reforçar o método escolhido:

O interlocutor deve ter tempo para pensar (ou para lembrar, ou para consultar com outros...), porque, como já foi dito, ele faz dados, não os tira do bolso já feitos. Não há “cultura “com respostas prontas para todas as nossas perguntas e a ideia da espontaneidade, como tal, parte exatamente desse pressuposto falso (SÁEZ, 2013, p.

162).

Neste período inicial de conexão com os sujeitos da pesquisa, contribuíram remotamente com a pesquisa os músicos José Lopes Filho e José Felipe. Dois meses após a entrevista realizada com Miranda, dei início ao trabalho de campo e permiti que aos poucos as conexões fossem se criando e o mapa daqueles com os quais eu devia conversar foi se consolidando. Portanto, apresento a seguir outro quadro elaborado a partir dos desdobramentos do trabalho de campo. O Quadro de Entrevistas condensa informações sobre os interlocutores e interlocutoras da pesquisa, localizando a data da entrevista, o formato (remoto ou presencial) e elementos sobre a relação que mantém com as bandas e os interesses desta pesquisa.

Figura 4: Quadro de Entrevistas com localização dos interlocutores da pesquisa e período no qual foram entrevistados.

DATA FORMATO NOME OBSERVAÇÕES

25/01/2021 Remoto José Felipe Rocha

José Felipe atuou como membro da diretoria e como músico da União Operária por muitos anos. O diálogo por aplicativo de mensagem permitiu uma interação que buscava localizar os principais regentes que passaram pela União Operária. Zé Fuzil, regente muito respeitado em Nova Lima, era um grande amigo.

25/01/2021 03/03/2021 05/03/2021

06/03/2021 Presencial Endersom Rodrigues Gomes

Conhecido no município pelo apelido de Miranda, é o atual presidente da União Operária. A entrevista com Miranda foi realizada na sede da banda. Miranda começou sua trajetória na banda Coração de Jesus e demonstrou profundo conhecimento sobre a atuação das três bandas de Nova Lima.

16/09/2021 Presencial Sonaly Luiza Matias

Clarinetista da União Operária, com uma trajetória que inclui sua participação como maestrina. Foi a primeira maestrina a atuar em bandas em Nova Lima. Seu pai era músico da Coração de Jesus e também atuou na União Operária. A entrevista com Sonaly foi realizada na sede da União Operária.

24/09/2021 Presencial Eliézer Vieira

Percussionista da Coração de Jesus com longa trajetória na cidade. Começou sua participação na banda ainda criança, como maleiro, e esteve presente em uma das viagens mais importantes que a banda já fez, quando se apresentaram na Lyra de Xopotó. A entrevista com Eliézer foi realizada em sua residência. Atualmente, por um problema no joelho, Eliézer não tem participado das atividades da Coração de Jesus.

13/11/2021 Presencial José Lopes Filho

Meses após o diálogo registrado por aplicativo de conversa, fui até a casa de José Lopes para uma entrevista presencial. Considerando o desenvolvimento da Pandemia, o encontro só ocorreu no momento em que José Lopes se sentiu seguro para a conversa presencial.

28/01/2022 Presencial Sila Gabriela Duarte

Sila é trombonista e auxilia como maestrina na União Operária. Já ocupou cargos na administração do grupo e auxilia até hoje na elaboração de diversos projetos. Sila é casada com Fábio, atual regente da União Operária. A entrevista foi realizada na sede da União Operária.

12/02/2022 Presencial Claudinei Martins

Claudinei foi por muitos anos regente da Coração de Jesus. Atualmente toca bombardino na banda e é uma das figuras mais respeitadas no grupo. Claudinei formou diversos músicos para a banda, incluindo o atual regente da União Operária, que foi seu aluno por um período.

A entrevista foi realizada na sede da Coração de Jesus.

26/02/2022 Presencial Eumindo Leão

Eumindo é clarinetista e o músico mais experiente da Coração de Jesus. Participou na viagem para tocar na Lyra de Xopotó, a qual relembrou durante a entrevista. Atualmente Eumindo não está participando das atividades da Coração de Jesus. A entrevista foi realizada em sua casa.

29/07/2022 Presencial Fábio Silva

Fábio é o atual regente da União Operária. Músico e professor conhecido em Nova Lima, Fábio atua há muito tempo no cenário músico-cultural da cidade. Formou-se recentemente no curso de Licenciatura em Música da UEMG e vem atuando também como professor de musicalização em escolas da rede privada de Nova Lima. A entrevista foi realizada na sede da União Operária.

20/08/2022 Presencial Lucas Nascimento

Lucas é o atual regente da Coração de Jesus, banda onde iniciou sua trajetória como trompetista. Lucas participou do curso de Bacharelado em Música da UFMG e atua como trompetista em diversos grupos de Nova Lima e da capital mineira. A entrevista foi realizada em sua casa.

02/10/2022 Presencial Willian Praça

Willian Praça foi regente da Santa Efigênia. Muito respeitado na região, Willian atuou também como regente da Corporação Musical Nossa Senhora da Conceição de Raposos/MG e como trombonista da banda Brasil 70. A entrevista foi realizada na sede da banda de Raposos.

02/10/2022 Presencial Miguel Praça

Miguel Praça é filho de Willian e foi regente da Santa Efigênia por dez anos. Atualmente Miguel atua como regente da Corporação Musical Nossa Senhora da Conceição, banda que já havia regido há alguns anos. Miguel é formado no curso de Bacharelado em Música da UFMG e desenvolve intensa atividade como trombonista na capital mineira e no seu entorno.

A entrevista foi realizada na sede da banda de Raposos.

Remoto José Lopes Filho

José Lopes é atualmente o músico com maior tempo de atuação em bandas na cidade de Nova Lima. Ele e seu pai, José Lopes Guimarães, atuaram como regentes da União Operária. O diálogo por aplicativo de mensagens auxiliou na localização de grande parte dos regentes que atuaram nas três bandas de Nova Lima.

As entrevistas, ou diálogos por aplicativos de mensagens, partiram de questionários sobre a história dos regentes e foram se desdobrando em áudios que, após arquivados, foram transcritos com a devida permissão dos interlocutores. Agendar uma entrevista presencial com uma pandemia em andamento, mesmo que já experimentando níveis de flexibilização das regras de isolamento, foi uma ação um tanto desafiadora. Parti, principalmente, daqueles com os quais eu vinha criando vínculos nas atividades que eu estava observando em campo. E neste ponto dois fatores influenciaram a ausência de uma rotina regular de entrevistas: 1) Foi com o tempo e o decorrer do trabalho de campo que localizei aqueles que seriam convidados para uma entrevista; 2) Nem todos que eu gostaria de entrevistar haviam retornado para as atividades presenciais das bandas. Muitas pessoas contribuíram com a pesquisa durante o seu desenvolvimento, e a escolha daqueles aos quais eu solicitaria uma entrevista teve como direcionamento a relação percebida com a história e atuação dos regentes daqueles grupos.

Outras temáticas, como a relação da banda com a Mina da Morro Velho e o percurso das mulheres até a regência também influenciaram minhas solicitações. E por falar em entrevista, utilizo aqui novamente uma das frases de Oscar Sáez que comunica com a forma como

“selecionei” os meus interlocutores: “Não deveríamos cair naquela tendência antiga de entender como dignos de entrevista apenas aqueles que o grupo designa como ‘os que mais sabem’, ou os líderes. Mas é evidente que não começar as entrevistas por eles pode ser uma falta grave de etiqueta” (SÁEZ, 2013, p. 160). Serviram ainda como referência para a minha pesquisa, entrevistas realizadas pelo professor e pesquisador Carlos Ernest, que em 2012 escreveu um livro sobre a história das três corporações de Nova Lima. Dos materiais compartilhados, foram utilizados nesta pesquisa, sobretudo, uma entrevista realizada com Vicente Magno, que atuou por muitos anos como regente da Coração de Jesus, e a entrevista realizada com Selma, filha de “Zé Fuzil”22.

A memória foi um dos elementos que busquei registrar com maior ênfase nesta primeira fase de entrevistas. Quase sempre, os diálogos buscaram um caminho inicial pautado na recordação da entrada de cada entrevistado no universo das bandas, passando depois para lembranças sobre a atuação dos regentes que ali desenvolveram suas atividades. E neste ponto, embora nenhuma entrevista tenha sido realizada na sede ou com regentes da Santa Efigênia, foi possível identificar um trânsito de músicos entre as bandas da cidade, especialmente entre a Coração de Jesus e a Santa Efigênia. Deste modo, os interlocutores com maior tempo de

22 José Acácio de Assis Costa, “Zé Fuzil”, será constantemente lembrado no decorrer desta pesquisa. Trata-se de uma figura marcante no ambiente musical de Nova Lima.

experiência com as bandas daquela localidade contribuíram com lembranças sobre suas participações na Santa Efigênia e sobre a atuação dos regentes que estiveram à sua frente.

Com os regentes que estão em atividade, as entrevistas serviram para responder a questões que registrei sobre a atuação deles nas bandas, como: as funções que assumem (musicais e extra-musicais); a forma como lidam com os ensaios e diversos tipos de performances que a banda realiza; o trajeto que percorreram até a regência; como aprenderam a reger; quais foram as inspirações para suas ações, entre outras questões específicas de cada sujeito. As notas de campo e as experiências que vivi registram, por exemplo, situações em que determinados regentes conduziram a banda tocando mais de um instrumento ao mesmo tempo;

fizeram treinamento de memorização de determinadas músicas apagando a luz da banda no ensaio noturno; intercalaram o uso de grade e partes individuais para reger, entre tantas novidades para a minha percepção de “cria de banda”. Portanto, o diálogo sobre estas ações foi fundamental para compor o quadro de reflexões dos capítulos finais desta tese, com forte carga etnográfica e um interesse profundo na atuação dos regentes das bandas de Nova Lima.

Diante dos fatos recentes da Sociedade Musical Santa Efigênia, em parte potencializados pela pandemia, a experiência etnográfica concentrou-se nas bandas Coração de Jesus e União Operária. Todos os aspectos transcritos sobre a história da Santa Efigênia e de seus regentes ajudaram a construir reflexões dentro desta pesquisa. No entanto, a impossibilidade de um contato mais profundo com as atividades desenvolvidas no período recente limitou a discussão sobre a atuação do atual regente. Ao fim do trabalho de campo, aproveitei, com certo pesar, apenas uma experiência etnográfica com a Sociedade Musical Santa Efigênia, refletindo sobre a breve aula que foi ministrada pelo regente Welerson.

Como síntese dos principais momentos da pesquisa transcritos até aqui, elaborei uma linha do tempo, destacando alguns dos fatos relevantes relacionados ao trabalho de campo e a metodologia que foi se construindo com o decorrer da pesquisa.

Figura 5: Linha do tempo do trabalho de campo.