1. O TRAJETO DA PESQUISA
1.5 Questões norteadoras
existe, na academia e fora dela, para dar suporte ou fomentar a construção do conhecimento em torno desta prática de regência? Seguindo esta questão, duas decisões foram tomadas logo no início da pesquisa: 1) Durante o processo de revisão de literatura, registrei os eventos e cursos citados para a formação de regentes de bandas; 2) Com os dados da primeira ação, elaborei um questionário online que foi encaminhado para regentes, maestros e mestres de diversas localidades do Brasil. Os resultados e reflexões advindas destas ações fomentaram a criação de um tópico específico nesta tese (tópico 2.5), com o objetivo de difundir informações sobre eventos-cursos e questionar determinadas ações propostas para a formação de regentes, maestros e mestres que atuam em bandas de música. Neste ponto, parte das críticas que foram postas ganharam destaque a partir do pensamento decolonial e da verificação de ações com padrões de ensino alicerçados em modelos eurocêntricos, que valorizam determinadas práticas e estéticas sonoras em detrimento de outras. E aqui, nos comportamos como “um espelho que distorce o que reflete” (QUIJANO, 2005, p. 129), insistindo na valorização de determinados padrões de ensino para a regência e ignorando formatos que comunicam e emergem das bandas de música brasileiras.
Ainda sobre a formação dos que regem bandas, sempre coloquei como questão para ser verificada em campo os processos pelos quais passaram os regentes de Nova Lima. Aqui, além de uma possível verificação do alcance dos cursos mapeados através do questionário, me interessava compreender a trajetória dos atuais regentes das bandas de Nova Lima. Sabendo, antes mesmo de entrar em campo, que dos três regentes que atuam em Nova Lima todos acessaram cursos superiores de música23, abriu-se espaço também para discutir o diálogo entre a academia e as demandas destes personagens em campo. As reflexões possíveis a partir do questionamento sobre a formação destes personagens encontram-se difundidas nos Capítulos 2 e 5 deste texto.
Como instrumentista, e depois com a tarefa de reger bandas, sempre vivi situações em que senti um preconceito estrutural contra esta formação. As experiências vão de integrantes que deixam a formação por aderirem a determinadas orientações religiosas, até prefeituras que controlavam os valores repassados para bandas e despejavam recursos em outros ambientes na expectativa de criação e manutenção de uma orquestra para o município. Dentre as tantas discussões que estas situações podem ensejar, adicionei a seguinte questão aos anseios desta pesquisa: quais os impactos do colonialismo na história das bandas que refletem,
23 Fábio (União Operária) e Welerson (Santa Efigênica) se formaram recentemente no curso de Licenciatura em Música da Universidade Estadual de Minas Gerais. Lucas (Coração de Jesus), é aluno do curso da UFMG de Bacharelado em Música, com habilitação em trompete.
especificamente, na forma como alguns grupos são reiteradamente denominados ou esquecidos sistematicamente? Com amparo nos trabalhos de Quijano (2005) e Cahen e Braga (2018), a história das bandas no Brasil foi observada a partir de uma perspectiva decolonial, tratando também de questões que envolvem o contexto das bandas de Nova Lima e os mecanismos de resistência frente aos constantes impactos de uma sociedade construída sob influência de padrões eurocêntricos.
Mais antiga do que as relações de dominação que se instauraram em cima do conceito de raça, os quais Quijano (2005) analisa criteriosamente sob a categoria de colonialidade do poder, são as diferenças sociais impostas na relação homem-mulher. Falo aqui do lugar subalterno que historicamente foi reservado às mulheres. Antes mesmo de iniciar o trabalho de campo desta pesquisa, eu já havia formulado a questão: como se deu a história das mulheres nas bandas de Nova Lima? Dentre tantos fatores que me instigaram a questionar como se deu a participação das mulheres nos quadros de instrumentistas daquele ambiente, o fato de uma mulher ter regido uma das bandas e outra ser hoje a assistente em um dos grupos potencializou meu interesse. Os cargos que ocuparam, as funções que assumiram, a forma como chegaram à regência e as reações dos grupos a estas trajetórias foram questões que me ocuparam desde os primeiros contatos com os grupos no período desta pesquisa. No tópico “maestrinas, musicistas e diretoras”, o discurso e a história destas personagens ganharam densidade, buscando colaborar e demonstrar que a temática pode ser mais visitada por todos que se interessam pela pesquisa com estas formações.
Adicionada a todas as questões norteadoras localizadas até aqui, havia o desejo de tornar a tese, ou parte dela, distinta em relação aos formatos tradicionalmente instituídos na comunicação dos resultados de pesquisa. Oscar Sáez define bem a essência necessárias no formato de uma tese: “a tese deveria ser suscetível de leitura seletiva, já que a maior parte do seu público consiste em especialistas à procura daqueles trechos em que o autor apresenta dados ou juízos novos” (SÁEZ, 2013, p. 86). Mesmo sem saber como, no início da pesquisa eu busquei alternativas para tornar mais acessíveis, também para meus interlocutores, os resultados da minha experiência de pesquisa, tentando superar o que o professor Samuel Araújo chamou de “estágio de neutralidade reflexiva só alcançável entre os muros das universidades e instituições socialmente legitimadas como de pesquisa” (ARAÚJO, 2016, p. 13).
Como, portanto, deixar os resultados e reflexões desta pesquisa, mesmo que em parte, mais conectados com o público “não acadêmico”? Em resposta ao meu desejo por uma certa distinção formal, adotei algumas estratégias no momento de transpor as experiências de
pesquisa vividas para o formato de um relato de pesquisa. Primeiro, aproveitando características do meu estilo de escrita, busquei uma consonância com a “linguagem comum” (SÁEZ, 2013, p. 74), utilizando e valorizando, sempre que possível, as categorias nativas. Além disso, me lancei na proposta de incluir na tese uma parte na qual minha ação se resumiria a organizar as falas transcritas dos interlocutores da pesquisa, no que chamei de “mosaico de memórias”. O tópico construído com as falas sobre a história e as memórias das bandas e dos regentes foram submetidas também à avaliação e revisão dos interlocutores. Mesmo que singelos, estes passos pretendem contribuir com o diálogo e os resultados desta pesquisa com públicos distintos:
pesquisadores, interlocutores e integrantes de bandas. Em suma, caminhei em busca de um formato que não despreza totalmente as características formais tradicionais, mas que busca conexões e comunicação direta com os interlocutores da pesquisa: “apresentar um material ou relatório de pesquisa que se paute pelas premissas, termos e interesses dos ‘nativos’ é assegurar um lugar cativo fora dos portões da universidade ocidentalizada” (DAUMAS, 2017, p. 31).
Antes de seguirmos, é digno de nota que, embora tenham sido localizadas aqui as questões norteadoras e indicados alguns locais nos quais se encontram em densidade, elas perpassam todo o corpo deste trabalho como um tempero, que por vezes se percebe a presença em evidência.
2. OS TERMOS, AS PESQUISAS E AS AÇÕES DE FORMAÇÃO PARA LÍDERES