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Entre o anseio e a experiência: Patria Grande

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 33-47)

Em março de 2013, Cristina Fernández de Kischner, presidente da Argentina em exercício desde dezembro de 2007, encontrou em Roma um conterrâneo e público opositor do seu governo, o recém proclamado Papa Francisco I. Na ocasião, Kischner afirmou com entusiasmo que o pontífice empregou o termo Patria Grande durante a conversa que mantiveram em torno da possível intercessão do Chefe da Igreja Católica na disputa pelas ilhas Malvinas entre Argentina e o Reino Unido41. A genealogia da expressão em destaque remonta às gestões independentistas da América Hispânica, e foi usada em diversas ocasiões e contextos. Em resumo, essa noção faz referência ao anseio de construir um sentido de unidade nas ex-colônias espanholas já independentes e que,

41 ―(...) la mandataria argentina expresó su sorpresa por escuchar del Papa Francisco el término "Patria Grande", y también por la importancia que le dio el Pontífice a esta iniciativa. "El sacó el tema de conversación y me habló de la Patria Grande. Me habló de Latinoamérica y del rol formidable que están cumpliendo sus distintos gobernantes, que trabajan unidos", relató Cristina. Añadió que Francisco "recordó que el término Patria Grande lo usaban José de San Martín y Simón Bolívar", y dijo (…) "Me impactó, me impresionó mucho escuchar del Papa el término Patria Grande, y nos hace pensar en redoblar los esfuerzos para seguir en esta dirección"(...)

http://noticias.terra.com.ar/politica/cristina-le-solicite-a-francisco-su-intervencion-para-lograr-un-dialogo-con-el-re,4d36d29cae47d310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html Visitado em:19-Mar-2013.

apesar de sua transcendência, nunca chegou a se configurar como um programa geopolítico.

Patria Grande é um termo cunhado por Manuel Ugarte (1875-1951) – pensador argentino da primeira metade do século XX – como reafirmação das idéias do intelectual cubano José Martí (1853-1895) e, principalmente, do uruguaio Enrique Rodó (1872-1917). Estes pensaram uma unidade americana no sul do Río Grande, limite entre o México e os Estados Unidos depois que a este se anexara, em 1845, o Texas, que foi território mexicano até 1836. Para Martí e Rodó42 a afirmação de uma Patria Grande se configura como uma reação às crescentes ingerências e propósitos expansionistas dos EUA Em direção ao sul43.

Porém, e como indicam os sociólogos da Universidade Autônoma do México (UNAM) Gardy Augusto Bolívar Espinoza e Óscar Cuellar Saavedra, a Patria Grande pode ser também entendida como uma representação do tipo político que serviria para sintetizar a imaginação social e cultural de um suposto povo latino-americano. Uma representação política, afirmam, pode permanecer muito tempo na consciência coletiva, de modo que pode servir de constante referencial em situações problemáticas. Todavia, requer um ou mais ―mitos fundadores‖, em outras palavras, explicações ou narrativas que, partindo de sucessos relevantes, instiguem animicamente a uma coletividade para a ação44. Neste ponto, a noção de Mito do francês Roland Barthes45 revela-se particularmente oportuna: para o estudioso, o mito seria, principalmente, um sistema de comunicação, um sistema semiológico, uma mensagem. Assim, não haveria mitos eternos e, mesmo sendo duradouros, é a História que transforma o real em discurso: o mito não surgiria da ―natureza das coisas‖, mas seria uma forma de significação com capacidade e propósito imobilizante, uma narração escolhida pela História e que só pode ter um fundamento histórico.

42 Por outro lado, é importante mencionar que Rodó estabelece no seu livro Ariel (1900) uma diferença essencial entre o europeu-saxônico e o hispano-americano a partir do contraste de duas personagens da peça The tempest, de William Shakespeare: Ariel e Calibão. A primeira, delicada e sensível, seria o correspondente a um suposto temperamento latino-americano e o seu elevado interesse pelos assuntos do espírito. Já o segundo, cujo voraz apetite pelas satisfações materiais o fariam prisioneiro destes, encarnaria o modo de ser anglo-saxão. Esta contradição revela uma lógica dicotômica que coloca a matéria e a sensibilidade como opostos absolutos e serviu de estímulo para uma aproximação do autóctone na primeira metade do século XX, do que é exemplo o movimento indigenista. O exposto é um claro exemplo de processo de construção de significado que se ajusta ao conceito de Mito elaborado por Roland Barthes em Mitologias. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007.

43 “Gran garrote‖, elaboração retórica que justificava a anexação do Texas pelos Estados Unidos, em 1847, e a

guerra contra a Espanha, em 1898, para penetrar em Cuba. Em resposta ao expansionismo norte-americano e como ação de resistência, elaboraram-se valores diferenciados e um ideal de sociedade. Por exemplo, a configuração da etiqueta social na América hispânica consagra o catolicismo, o uso da língua castelhana e o amor à pátria.

44 BOLIVAR, Gardy Augusto e Óscar CUELLAR. Hacia la idea de la “Patria Grande”. Un ensayo para el análisis de las representaciones políticas. Polis [on-line], 18| 2007. Visitado em: 10 de dezembro de 2012.

http://polis.revues.org/4028 DOI:10.4000/polis.4028

45 BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007.

A partir do exposto, pode-se pensar na Patria Grande como uma representação social instrumental e como mito: elaboração de significado, mutável e contingente, configurado em função dos interesses dos seus enunciadores.

Uma América Latina pensada a partir do sonho de unidade aparece também em outra das peças que Sergio Arrau escreve naqueles anos. No seu monólogo A Libertadora do Libertador (1982) a personagem de Manuelita Sáenz lembra-se do seu desaparecido amante Simón Bolivar como o forjador de uma Patria Grande lograda:

Morreu meu Simón na quente Santa Marta, e a mim deram 30 dias para sair da Colômbia. O que lhes parece? Dessa Gran Colombia criada por ele. Equador, Colômbia e Venezuela... o início da integração em América Latina!, que agora, sem ele, caía estrepitosamente... quem sabe se pra sempre.

Me recusei a partir. Trinta dias de prazo a mim, à mulher do Libertador?

Tenho direito a ficar o tempo que quiser, sim senhor. Mesmo que goste de Bogotá menos ainda do que de Lima. Tenho direito a ficar porque é minha terra. Como são também Quito, La Paz, Caracas...46

Na situação do trecho, a protagonista se refere a uma integração continental a partir do projeto geopolítico da Gran Colombia criado por Bolívar e que fracassou pouco depois dele morrer. A incompreensão da personagem estaria baseada precisamente no fato de ela não poder compreender que o programa integrador teve uma duração muito curta porque precisava de muito mais do que de um caudilho. Com o império espanhol aparentemente derrotado, a necessidade de unidade política e militar cedeu perante as ambições regionais.

Embora se saiba que o termo Patria Grande foi empregado já na década de 1820, só adquiriu forma literária nos finais do século XIX. Arrau coloca também na sua Manuela Sáenz o argumento da

―terra‖ como um direito prévio às fronteiras e com isso deixa datada aquela idéia supranacional de pertença. Porém, e como um claro posicionamento do seu contexto histórico, o dramaturgo emprega a preposição ―na‖ e não ―de‖ ao se referir à integração e assim, esta não seria anterior à América Latina, mas posterior e não inevitável: a integração ―na‖ América Latina pressuporia a ação da vontade para acontecer.

Já na opinião dos mencionados pesquisadores da UNAM, como ideologia política, a representação social americana para a sua libertação corresponde ao tipo das representações sociais constituintes:

concepções de mundo, referenciais, ideologias ou utopias que canalizam indivíduos e sociedades no

46 ARRAU, Sergio. Teatro escogido. Fondo editorial UPIGV, Lima: 2006.

seu decurso histórico. É aquele sentido de uma pátria que aspira a ser grande o que se configura como utopia, em oposição à legitimação do poder absoluto que a impede de ser. Por esse motivo, ela necessitaria de diversas formas de ideologia para a ação.

A partir desta afirmação é compreensível o repetido emprego desta expressão (Patria Grande) em diversos contextos e com diferentes significações. Porém, e seguindo a linha de pensamento dos referidos sociólogos, teria sido a ausência de ação programática no longo prazo que poderia consolidar este anseio em termos ideológicos, geopolíticos, econômicos e sociais o que a manteve na dimensão de utopia, de lugar inexistente: empregada menos para configurar um programa do que para criar uma expectativa sobre possibilidades, tornou-se também instrumental, utilitária e não programática. Todavia, a sua teleologia característica faz com que ela persista como ponto de chegada num futuro sem data. A Patria Grande pode, assim, se manter, precisamente devido à sua ambigüidade e inconsistência.

Neste ponto volta a ser pertinente o estudo de Bolívar e Cuellar, em que se aponta para o fato de a utopia ter sido o assunto de historiadores e escritores – enquanto a ideologia tê-lo-ia sido para os cientistas políticos. O seu poder desestabilizador reside em que pode ser revisitada e recontextualizada em cenários diferentes: teria o poder da variação imaginativa da ordem.47 A utopia se projeta ao futuro e pode ser utilizada como elemento de reflexão para outras pessoas, em outros lugares e em outros tempos. Ela surge da insatisfação em relação ao presente e o ―outro lugar‖ aparece como reação mais imediata à frustração pela impossibilidade de mudar o presente.

Assim, poder-se-ia afirmar que não seria a utopia da Patria Grande, mas os mitos em volta desta o que estaria sendo problematizado em Los móviles, a partir do espanto que a diferença cultural provocou nesses migrantes involuntários, o qual mostra que o diferente pode ser percebido como alheio - tanto a respeito do país de acolhida quanto dos colegas de moradia. É significativo que essa Patria Grande seja desmontada precisamente por pueris afirmações regionalistas destes exilados, revolucionários de uma esquerda confrontadora, cuja oratória denota, em alguns mais do que em outros, o ranço da lógica da luta de classes. Mas, isso não vai além do plano retórico, pois seus

47 ―...cuando consideramos la historia de las ideas reconocemos que las grandes obras de la literatura y de otras disciplinas no son meras expresiones de sus épocas. Lo que las hace grandes es la posibilidad de ser descontextualizadas y recontextualizadas en nuevos escenarios. La diferencia entre algo que es puramente una ideología que refleja una determinada época y algo que se abre a nuevos tiempos, es el hecho de que este último algo no refleja meramente lo que existe.‖ BOLIVAR E. Augusto e Oscar CUELLAR S. Hacia la idea de la “Patria Grande”. Un ensayo para el análisis de las representaciones políticas. Polis online, 18 Ano| 2007. Visitado em 23 julho de 2012 . Disponível em: http://polis.revues.org/4028 Visitado em abril de 2013.

sentimentos de auto-afirmação se relacionam com suas nacionalidades e às lembranças relacionadas com os sentidos, entre eles, o do ato primário de se alimentar.

SÔNIA- Quer saber? Morro de vontade de comer uns locos em salsa podem dizer de um pernil de porco com uma tigela de chicha baya?

JORGE- Em Las Tejas?

IRENE- Melhor em “El chancho con chaleco”. (Riem com muito entusiasmo).

JORGE- Modestamente, bem que eu comeria um sanduíche de lingüiça na Costanera, com um copo de vinho mendocino. (…)

SÔNIA- E o senhor, maestro, não tem nenhuma vontade?

IVAN- Pois não! Um bem simplesinho: Saborear uma empada no Estádio vendo um jogo de futebol. Melhor ainda si for Colo Colo vs. la Chile.

ANTÔNIO- O que? Mas, se as empadas que vendem nos estádios são nojentas. Tem sabor de sovaco apimentado.

PEDRO- Eu te entendo, Ivan. Vendo um jogo emocionante tudo adquire outra dimensão (…) Quer futebol comendo um sanduíche no Centenario?

Jiménez passa para Quevedo, mordida; Quevedo dribla um, dois homens, mordida e mordida, lança pro centro e gol de Morena, engasgada de sanduíche… Gol de Peñarol.48

A cena permite verificar como nestes exilados a identificação a partir das suas idéias políticas passa a um plano secundário. São os afetos que adquirem uma enorme significação, não só pela nostalgia da distância, mas porque é a partir deles que as personagens conseguem dar conta de si. E é, também, mediante a expressão dos sentimentos, que esses exilados podem reforçar seu vínculo com a terra que deixaram.

Porém, há no trecho citado um emprego do diálogo teatral que permite um encontro que poderia ser descrito como uma outra refeição em comum, paralela à que está acontecendo. Mediante a palavra, esses vizinhos eventuais dão forma aos pratos que, por sua vez, estão fortemente relacionados com mendocino./(…)/SONIA.- ¿Y Ud., maestro, no tiene ningún antojo?/IVÁN.- ¡Cómo no! Uno modestito: Saborear una empanada en el Estadio mirando jugar un partido de fútbol. Mejor si es Colo-Colo la Chile./ANTONIO.- ¿Qué? Pero si las empanadas que venden en las canchas son asquerosas. Tienen gusto a sobaco con ají./PEDRO.- Yo te entiendo, Iván. Viendo un partido emocionante todo adquiere otra dimensión (…) ¿Querés fútbol comiéndote un sánguche en el Centenario? Jiménez pasa a Quevedo, masticada; Quevedo driblea a uno, dos hombres, masticada y masticada, lanza al centro y gol de Morena, atragantada de sánguche… ¡Gol de Peñarol.”ARRAU, Sergio. Los Móviles. Inédito.1981.

lugares específicos nos seus países de origem. No ato de falar eles presentificam esses alimentos caros, ricos em sentidos, prazerosamente nomeados e, já naquela mesa, orgulhosamente compartilhados.

Irene é a única que não acompanha essa ação, embora mencione um lugar de grata lembrança. Na cena citada ela tem duas intervenções e nenhuma tem a ver com o seu país de origem. Observe-se que na primeira, ela quer acalmar o seu hóspede uruguaio que sente falta de um prato muito popular - tanto no seu país quanto no dela. Mas, com o seu comentário ela não se propõe consolá-lo, e sim trazê-lo ao tempo presente mediante a valorização daquilo que existe no país de acolhida.

Na segunda, Irene também agirá para reforçar as relações com o tempo presente. Antônio sabe que o casal Jorge-Irene moraram no seu país após saírem da repressão na Argentina de Isabel Perón e de López Rega. Ele traz a lembrança de uma comida típica e demanda a aprovação do casal. Na sua resposta a Antônio, Irene vai se referir ao seu passado em Santiago de Chile, a cidade do seu interlocutor. Porém, quando ela menciona o tradicionalíssimo restaurante “El chancho com chaleco”, no populoso bairro de Maipú, está demonstrando conhecer aquele lugar não só como espaço físico, mas também e principalmente como portador de significações. Prova disto é que, como indica a rubrica, a sua citação é comemorada com uma gargalhada geral.

Com tal ação, Irene consegue se aproximar de Antônio e de Sônia e também mostrar que no Chile ela não simplesmente permaneceu, e sim se permitiu criar relações de afeto com uma terra estrangeira que a recebeu junto com seu marido. Assim, ela estende um convite para que seus companheiros no exílio façam algo semelhante no momento e lugar nos quais se encontram. Esse ato se torna uma resistência às vontades de se diferenciarem. Com isso busca evitar que a nostalgia pelo lar distante acabe por fortalecer sentimentos de alheamento e rejeição a respeito do país que os acolhe, como também dos eventuais companheiros de exílio. Essa personagem pode criar vínculos com os países que a acolhem. Não é por acaso que Arrau deixou nela a administração deste albergue: Irene conseguiu fazer um lar nesse outro país porque não permite que a saudade supere seu desejo de viver no tempo presente.

Segundo Mônica Mora Palma, pesquisadora da Universidad Autónoma de México e investigadora sobre os exilados do chamado cone sul no seu país durante as ditaduras latino-americanas da década de setenta, nos sujeitos que fizeram parte do seu objeto de pesquisa aconteceu algo semelhante. No seu estudo, cita o depoimento em que uma exilada uruguaia no México, na década de 1970, fala dos seus companheiros de exílio e conterrâneos, que serve como exemplo:

Muitos deles não tinham ido nunca além das fronteiras do seu europeizado país. Nunca tinham visto a América Latina, região da qual o Cone sul do continente não se sentia o bastante herdeiro naquelas épocas.

O primeiro impacto foi forte: todos se surpreenderam quando viram as dimensões de uma cidade que tem prédios com andares para guardar carros, do seu colorido, em comparação com o cinza neoclássico do extremo sul da América. Acostumados com sociedades mais astutas e enganadoras para esconder as diferenças sociais, estas lhes impressionaram no México49.

As atitudes descritas na entrevista realizada por Palma são muito semelhantes às que se manifestam em Los móviles. Em ambos os casos se pode observar que se privilegia a diferença. Na peça de Arrau isso se torna argumento para organizar os sentimentos de rejeição e nostalgia em forma de oratória. Mediante a supervalorização dos próprios referenciais identificatórios se pretende atenuar a dor do desterro e o medo ao desconhecido. Assim, seria preciso evitar qualquer transformação no lugar estranho, e isso, além de ser impossível, traria o alto custo da inércia.

JORGE.- Se eles avançassem com os trâmites direito, acabaríamos com

JORGE.- Não dá para negar que há acolhimento. Com desconfiança, mas há.

ANTÔNIO- Temem é que apareça a sua mediocridade. Por dar um exemplo, qualquer operário chileno, até o mais ruinzinho, é melhor trabalhador e sabe mais do que muitos dirigentes daqui.

IVAN- (Tirando a rolha de uma garrafa de vinho). Começaram a cueca e a samba da super valoração. Epa!

(…)

SÔNIA.- Até os milicos são melhores, ainda não percebeu?

ANTÔNIO- Isso, sem a menor dúvida. Assassinos mais refinados não se pode achar.

IVAN- E olha que com isso da super valoração não estou me referindo só aos arrogantes do Río de la Plata.

JORGE.- Ó,para, para por aí!

PEDRO.- Está a fim de sair voando pela janela?

IVAN- Todo mundo os acha metidos e antipáticos. Já de nós chilenos como eles gostam. Simpáticos e engraçados. Muito amigáveis. Humildezinhos, os ñatos50. Mas, no fundo, igual nos achamos o máximo, última chupada

49 ―Muchos de ellos no habían abandonado nunca las fronteras de su europeizado país. Nunca habían visto América Latina, región de la que el Cono sur del continente, no se sentía demasiado heredero en aquellas épocas. El primer impacto fue fuerte: todos se sorprendieron al ver las dimensiones de una ciudad que tiene edificios de pisos para albergar autos, de su colorido, frente a la grisura neoclásica del extremo sur de América. Acostumbrados a sociedades más astutas y engañosas para camuflar las diferencias sociales, éstas les impactaron en México‖ (BURIANO, Ana. El exilio uruguayo en la ciudad de México en PALMA, Mónica y ANA Buriano. Latinoamericanos en la ciudad de México. México, Instituto de Cultura de la Ciudad de México. 1999. p.24. Citado em: Mónica Palma Mora. « Destierro y Encuentro. Aproximaciones al exilio latinoamericano en México 1954-1980», Amérique Latine Histoire et Mémoire.

Les Cahiers ALHIM 7, 2003. (4 février 2005). Disponível em: http://alhim.revues.org/index363.html. Visitado em 27 de dezembro de 2012.

50 Ñato é uma palavra de origem quéchua. Serve para se referir a uma pessoa de nariz pequeno. Em alguns países

do mate…

SÔNIA.- O buraco do bolo.51

Observa-se como o dramaturgo expõe, além das disputas territoriais que se arrastam desde o século XIX, imagens generalizantes elaboradas pelo senso comum, a respeito dos diferentes países da América do Sul. Não há restos dos valores unificadores afirmados pelos pensadores da nascente Patria Grande. Chega-se até o desprezo, como se observa nas menções à educação no país de acolhida, cujos nacionais são vistos como estranhos e alheios. Inclusive, e como paradoxo, o dramaturgo elabora personagens que se orgulham de terem como superiores as próprias forças armadas, as mesmas que se voltaram contra eles.

Os diálogos citados pertencem à cena do almoço, que acontece com as personagens sentadas em assentos diversos e em volta de uma mesa rudimentar, segundo o indicado na rubrica inicial. Esse é o momento em que acontece a briga entre os moradores que provocará o interrogatório iniciado por Antônio. O conflito se produz quando o ―nós os do Cone sul‖ dividem-se em ―nós‖ os chilenos,

―nós‖ os uruguaios e ―nós‖ os argentinos. Aqui o ―nós‖ se relaciona a uma questão que, para Said, está associada essencialmente ao exílio: o nacionalismo. Este seria a afirmação de uma pátria criada

―nós‖ os uruguaios e ―nós‖ os argentinos. Aqui o ―nós‖ se relaciona a uma questão que, para Said, está associada essencialmente ao exílio: o nacionalismo. Este seria a afirmação de uma pátria criada

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 33-47)