I.2 Lo móvil e o imóvel
I.2.3 A melancolia e a prisão
Em Los móviles mostra-se outra possível reação quando não se encontra uma maneira de retornar: a introspecção que leva à imobilidade. É o caso de Ivan: a partir do verbo volver (que pode ser traduzido ao português como voltar) ele mostra uma das particulares formas em que o autor coloca a experiência do exílio. Isso pode ser observado já no seu solilóquio que, além da função dramatúrgica de dar informações ao público, traz um propósito no ato mesmo da enunciação: se,
como lembra o crítico francês Jean-Jaques Ryngaert, toda fala no teatro busca seu destinatário81, essa procura pressupõe precisamente a existência daquele a quem se fala. No caso de Ivan, esse monólogo pode ser interpretado como a inútil tentativa de dar presença a alguém:
SÔNIA.- (...) (Pega um roupão que está pendurado na parede entra no banheiro. Ouve-se a água do chuveiro).
IVAN- Incrível! (Vai até a janela). Tão reles assim é a nossa história? Tão barata e repetida? (Contempla o céu cada vez mais escuro). Vai chover.
(Suspira). Sinto tanto a sua falta, Verônica, que ando como sonâmbulo.
Percebo, mais uma vez, que meu erro foi tremendo. Devia ter ficado e encarado a situação. As duas situações, pois você e o Chile, para mim…
(Passeia-se). Estou como os loucos falando sozinho (Toca no móbile grande que gira). E te sinto. (Fecha os olhos). E te vejo. Não posso te tirar daqui! (Bate na testa e depois se olha num espelho). Que cara tão ridículo! Se comportando como adolescente. Como o pior dos decadentes… que só quer é… É, caralho, isso: voltar! Quero voltar..! (Vá novamente até a janela). Voltar a passear contigo pelo Parque Forestal.
Voltar a subir o morro San Cristóbal, até chegar no Jardín del Edén, se lembra? Nosso Jardín del Edén. Voltar a caminhar sob a chuva… E depois entrar no botequinho para comer sopaipillas ou picarones82… (Vá até o móbile grande e o faz girar). É que isso é frívolo demais após o desastre? Só devemos pensar em lutar e em morrer? (Do banheiro sai Sônia, de roupão. Escuta perplexa a Ivan que não percebe a sua presença). E é, acaso, que aquilo que foi nosso, Verônica, não serve já para mais? É coisa velha, passada, que não vale mais a pena? Por que não me escreve? Quantas cartas já te enviei…e nem uma palavra tua!83
Ivan estaria falando para Verônica (em lugar de pensar nela) e mediante esse ato, ele a está trazendo para si. A cena assim apresentada por Arrau deixa em evidência que este exilado não consegue viver no tempo presente o lugar em que se encontra. Verônica vem a ser, também, a terra longínqua a que se sonha retornar. Ivan evoca Verônica, pois não se sente capaz de retornar à cidade que precisou deixar. Para ele, aquela mulher e o Chile, mais precisamente a cidade de Santiago, estão tão
81 RYNGAERT, Jean-Jaques. Introdução à análise do teatro. Martins Fontes, São Paulo:1996. O teatrólogo francês aponta que a fala no teatro tem como destinatário final ao público. Mas, na cena da peça Los móviles, de Arrau, o solilóquio está endereçado a outra personagem, a si próprio ou, como no caso de Iván, a um interlocutor ausente.
82 Ambas são comidas fritas tradicionais e muito simples feitas com farinha de milho e polpa de abóbora. A primeira é mais consistente e tem forma de tortilha; a segunda tem forma de anel, é mais leve por conter mais fermento e se serve com mel de rapadura.
83 “SONIA.- (...) (Coge una bata que está colgada en la pared y entra al baño. Se oye correr el agua de la ducha). IVÁN.- ¡Increíble! (Va hacia la ventana). ¿Tan vulgar resulta nuestra historia? ¿Tan barata y repetida?
(Contempla el cielo cada vez más oscuro). Va a llover. (Suspira). Te echo tanto de menos, Verónica, que ando como sonámbulo. Me doy cuenta una vez más de que cometí un tremendo error. Debí haberme quedado y enfrentar la situación. Las dos situaciones, puesto que tú y Chile, para mí… (Se pasea). Estoy como los locos hablando solo. (Toca el móvil grande que gira). Y te siento. (Cierra los ojos). Y te veo. ¡No te puedo sacar de aquí! (Se golpea la frente y luego se mira en un espejo). ¡Qué tipo más ridículo! Portándose como quinceañero. Como el peor decadente… que lo único que quiere es… ¡Sí, carajo, eso: volver! ¡Quiero volver..! (Se dirige nuevamente a la ventana). Volver a pasear contigo por el Parque Forestal. Volver a subir el cerro San Cristóbal, hasta llegar al Jardín del Edén, ¿te acuerdas?
Nuestro Jardín del Edén. Volver a caminar bajo la lluvia… Y después entrar al bolichito a comer sopaipillas o picarones… (Va al móvil grande y lo hace girar). ¿Es esto demasiado frívolo después del desastre? ¿Sólo debemos pensar en luchar y en morir? (Del baño sale Sonia, en bata. Escucha perpleja a Iván quien no se da cuenta de su presencia). ¿Y es que entonces lo nuestro, Verónica, ya no sirve para nada? ¿Es algo añejo, del pasado, que no vale la pena? ¿Por qué no me escribes? ¡Cuántas cartas te he enviado…y ni una palabra tuya!” ARRAU, op. cit.
associadas que uma só faz sentido em relação à outra. Por isso ele tampouco espera que ela chegasse à sua procura.
Porém, mesmo que a evocação produza uma forma de presença, esta é tão efêmera quanto a cena teatral propriamente dita, e quando esta termina tanto a personagem quanto o cenário se esvaecem.
E se consideramos também o fato de que tanto as pessoas quanto a terra deixada por causa do exílio não deixam de se transformar e se diferenciar da imagem fixada na lembrança, a única alternativa que restaria a Ivan seria a de voltar. Voltar ao Chile e à Verônica é não só combater os sentimentos que o seu exílio provoca, mas impedir essa espécie de perda que acontece quando os entes e objetos amados têm como única existência possível a recordação.
Endereçado à Verônica, um amor que Ivan parece ter deixado no Chile por circunstâncias que o golpe militar84 terminou de complicar, esse breve monólogo também trata do retorno. Além de ser repetido cinco vezes durante um curto trecho, o verbo volver marca também o ritmo da fala mencionada. Porém, esse desejo só é proclamado, pois é uma alternativa que para Ivan não existe.
A reiteração da palavra volver torna-se um recurso para enfatizar que, para Ivan, o exílio não só é doloroso mas, principalmente, imobilizante. Ele não busca uma solução mediante a ação, seja para esquecer (aceitar a perda e continuar a viver), seja para retornar. Ele é precisamente quem emprega o termo ―exilados‖ para se referir a eles próprios: IVAN- (...) O mesmo da maioria dos exilados, seja pela força ou voluntariamente: tentar sobreviver. 85 Para ele, todos os desterrados só se contentariam com a própria sobrevivência, independentemente das razões que os tenham levado a sair dos respectivos países. A fala citada pertence a um diálogo com Sônia nas primeiras cenas da peça, o que evidencia que ele não experimenta nenhuma mudança significativa ao longo da ação dramática. Não manifesta possuir nem projetos, nem expectativas, nem planos para o futuro. Desta maneira, a nostalgia pela terra distante a qual se é impedido de voltar provoca inércia e paralisia nesta personagem.
Ivan só manifesta interesse em preservar a lembrança da mulher amada que deixou no Chile:
SÔNIA.- (Com certa ternura, olhando fixamente a Ivan). Mestre, de lembranças não se vive.
IVAN- Pois, eu te diria que sim. A lembrança vive e faz viver. Ainda que
84 11 de setembro de 1973.
85 ―IVÁN.- ¿Mi gran problema? El mismo de la mayoría de los exiliados, ya sea a la fuerza o voluntariamente:
tratar de sobrevivir.‖ ARRAU, op. cit.
o corpo envelheça, a lembrança permanece sempre jovem. (Antônio ri).86
Manter-se na imobilidade diz respeito ao desejo de impedir transformação e movimento. A sua afirmação é respondida violentamente por Antônio que, inclusive, relaciona a seu interlocutor com a morte por causa da sua inutilidade.
ANTÔNIO- Torne-se roteirista de telenovelas, melhor. A causa necessita gente com os pés bem assentados na terra. Não sonhadores apáticos que anseiam o maravilhoso. Pro diabo com eles! Melhor que se deem um tiro.
Ou se enforquem no chuveiro, que sai mais barato.
IVAN- (Estourando). Sim, está cheio da maldita razão! Não luto, é verdade… Aliás, nem sei se tenho qualquer objetivo mais. (Bebe do que Pedro lhe oferece).
(...)
IVAN- (A Irene, apontando aos móbile). Tentou me ensinar a fazer. Foi inútil. Quiçá porque sou como eles: móbil, instável… Mas, sem cor…
Não como esses, tão belos…
IRENE.- Tem cores que não aparecem, porque estão no interior.
IVAN- Como eles, me mexo sem sentido, com as circunstâncias, esperando… (Vai até o banheiro e tranca a porta)87
A relação entre móvil que dá título à peça e o imóvel Ivan não seria dicotômica, mas paradoxal:
após recusar tanto a ação de voltar quanto a afirmação no novo lugar - e condenado à inércia por não conseguir determinar um objetivo que o dinamize - Ivan termina por construir um outro âmbito no qual residir e que se assemelha à prisão. Esta, não teria sido criada pelas forças que o desterraram do Chile, e sim por sua decisão de não se movimentar. A imagem que dá título à peça pressupõe movimento ao capricho do vento e, ao mesmo tempo, vínculo seguro em um lugar. Ivan não opta, não escolhe, não deseja nem um, nem outro, e decide se encerrar.
I.2.4 Um refúgio ou um lar...
Como outra possibilidade estaria a de ―se sentir em casa‖, o que significa uma atitude de abertura para encontrar novos sentidos a partir da experiência presente, dissociando as expectativas de
86 “SONIA.- (Con cierta ternura, mirando fijamente a Iván). Maestro, de recuerdos no se vive./IVÁN.- Pues yo te diría que sí. El recuerdo vive y hace vivir. Aunque el cuerpo envejezca, el recuerdo permanece siempre joven. (Antonio ríe)”. ARRAU, op. cit.
87 “ANTONIO.- Métase a libretista de telenovelas, mejor. La causa necesita gente con los pies bien puestos sobre la tierra. No soñadores apáticos que anhelan lo maravilloso. ¡Al diablo con ellos! Mejor se pegan un tiro. O se cuelgan de la ducha, que es más barato./IVÁN.- (Estallando). ¡Sí, tienes toda la maldita razón! No lucho, es cierto…
Por último, no sé si tengo algún objetivo ya. (Toma un trago que le ofrece Pedro)./(...)/IVÁN.- (A Irene, señalando los móviles). Intentaste enseñarme a hacerlos. Fue inútil. Tal vez porque soy como ellos: móvil, inestable… Pero sin color… No como éstos, tan bellos…/IRENE.- Hay colores que no se ven, porque están en el interior./IVÁN.- Al igual que ellos, me muevo sin sentido, según las circunstancias, esperando… (Se dirige al baño y cierra la puerta)”.
ARRAU, Ibidem.
felicidade ao (saudosista) retorno à terra ausente. Tal atitude na condição de exílio se começaria com a aceitação do fato de não se estar no próprio país e de não poder a ele voltar. Isso possibilitaria à personagem uma outra construção de si, a partir da relação com as novas circunstâncias.
A primeira a decidir por isto é Sônia que, quando seu marido lhe anuncia que retornará com ela ao Chile, responde:
SÔNIA.- Correremos? Com quem você vai, hein?
ANTÔNIO- Como com quem!
SÔNIA.- Comigo? (Ri). Enlouqueceu? Nem amarrada volto ao Chile…
por enquanto! O que está se achando? Que sou una mala que se carrega assim?
JORGE.- Sim, deixe-a aqui. Se arrisque sozinho.
ANTÔNIO-. Melhor calar a boca, tá? Ela tem muito mais coragem do que você acha.
JORGE.- Não duvido, mas…
ANTÔNIO- (A Sônia). Me perdoe, ñata, por todas as desgraças que te fiz passar comigo. Juro que as coisas vão mudar.
SÔNIA.- Claro que vão mudar. E tanto! (A todos). Olha, hein? que sigo estando mais lúcida que nunca. Sabe, meu querido, qual é a verdade da coisa? Cansei de brincar de bandido. Eu estou bem aqui. Sem problema nenhum. Se quiser posso ter visto pro resto da vida e viver como deusa.
Sem colchões no chão. Nem batatas. Nem móbiles. Nem rodeada de tristes… (A Pedro). Como é que chamou a esses caras da Índia? Querem que lhes conte a vera?
ANTÔNIO- Que, anda de puta por aí?
SÔNIA.- Nada disso, filhinho. Totalmente formal, como menina de papai que sou. Tenho o turco bem agarrado à minha saia.
ANTÔNIO- Qual turco?
SÔNIA.- Cansei bem cansada da inútil vida…revolucionária. Eca! (Faz como que vomita).
(...)
(Vai até o banheiro e bate na porta). Ivan, foi demais com você.
Desculpe. É um cara ótimo. Acredite: sigo invejando à Verônica (Vai até a porta de saída). Sorte, Pedro, seja na Costa Rica ou em Madagascar.
ANTÔNIO- Escute, estúpida!
SÔNIA.- (A Irene e Jorge). Igual a vocês, aqui ou na quebrada do aí.
ANTÔNIO- Estou falando com você!
SÔNIA.- Ah, era você! Ciao, Antônio, passe bem. Grata por nada. E mande fruta, se puder. (Sai. Há um silêncio. Todos se olham surpresos).88
88 “SONIA.- ¿Correremos? ¿Con quién te vas, oye?/ANTONIO.- ¡Con quién va a ser!/SONIA.- ¿Conmigo?
(Ríe). ¿Se te corrieron las fonolas? ¡Ni amarrada vuelvo a Chile… por ahora! ¿Qué te has creído? ¿Qué soy una maleta que se lleva así no más?/JORGE.- Sí, dejala. Jugátela solo./ANTONIO.-. Mejor te callas, ¿quieres? Ella tiene mucho más valor del que supones./JORGE.- No lo dudo, pero…/ANTONIO.- (A Sonia). Perdóname, ñata, por las mataperradas que te hago pasar. Te juro que las cosas van a cambiar./SONIA.- Claro que van a cambiar. ¡Y en qué forma! (A todos). Ojo, ¿eh?, que sigo estando más lúcida que nunca. ¿Sabes, querido, cuál es la verdad de la milanesa?
Me cansé de jugar a los bandidos. Yo estoy bien acá. Sin problemas de ninguna especie. Si me da la gana puedo tener visa para toda la vida y vivir como los propios dioses. Sin colchones en el suelo. Ni papas. Ni móviles. Ni rodeada de tristes… (A Pedro). ¿Cómo llamaste a esos tipos de la India? ¿Quieren que les cuente la firme?/ANTONIO.- ¿Qué andas puteando por ahí?/SONIA.- Nada de eso, mi hijito. Totalmente formal, como niña bien que soy. Tengo al turco bien agarrado de un coco./ANTONIO.- ¿A qué turco?/SONIA.- Me cabrié bien cabreada de la inútil vida…revolucionaria. ¡Puaj! (Hace como que vomita).(...) (Va hacia el baño y golpea la puerta). Iván, se me pasó el tejo contigo. Disculpa. Eres un buen tipo. Créeme que sigo envidiando a la Verónica. (Se dirige a la puerta de salida).
Suerte, Pedro, ya sea en Costa Rica o en Madagascar./ANTONIO.- ¡Oye, estúpida!/SONIA.- (A Irene y Jorge). Lo mismo digo a Uds., aquí o en la quebrada del ají./ANTONIO.- ¡Te estoy hablando!/SONIA.- ¡Ah, eras tú! Chao, Antonio, que te vaya bien. Gracias por nada. Y manda fruta, si puedes. (Sale. Hay un silencio. Todos se miran
A jovem abandona o marido, pois não considera que o lugar de origem seja seguro para voltar. Parecera que o maior vínculo com o Chile era Antônio e depois de ter a certeza de que não o quer mais como companheiro, é capaz de ficar no país de acolhida e iniciar um outro processo. Ela também parece ter descoberto as possibilidades de se criar a si nessa terra estranha e aproveitar as oportunidades que esta lhe oferece.
Porém, o comentário suspicaz sobre a facilidade com que poderia obter um visto de trabalho faz pensar que não deixa de se sentir uma estrangeira, nem desistiu de retornar, mas sem a urgência para fazê-lo. É evidente que não lhe assusta um possível contraste entre as lembranças do seu país e o Chile que encontrará ao voltar. A força da personagem está na sua capacidade para enfrentar o desconhecido, mesmo que isso se dê no seu lugar de origem. É também o que deseja aos moradores que preza. E o expressa na sua despedida: que sejam felizes no lugar em que estiverem. Se disso exclui Ivan, é porque já percebera que ele não vai realizar ação nenhuma.
Já no caso de Irene a possibilidade de ficar no lugar de acolhida é bastante diferente: ―IRENE.- (Olhando em direção da janela). Está chovendo de novo. (A Jorge). Te adiantaram algo? (Ele nega).
Tomara que amanhã possa vender um móbile. Ivan, bota música. (Ele se levanta e liga o reprodutor de fitas cassete). Clássico, não, por favor. Prefiro um bom tango. (Ivan coloca o tango ―Volver‖)”.
Esse trecho estabelece uma clara oposição dramática no desfecho da peça. Enquanto Ivan não pode nem mencionar mais a palavra volver (só pode colocar uma fita cassete que parece falar por ele, o tango89), Irene, mesmo recebendo a notícia de que não pagaram ao seu marido, compartilha sua confiança no dia seguinte.
A referida cena acontece depois que Ivan sai do banheiro liberando aos seus vizinhos do medo que sentiam perante a possibilidade dele ter se suicidado.
IRENE.- Não se terá..? (Corre até a porta do banheiro e bate). Ivan!
JORGE.- Deixa o cara cagar tranqüilo, gorda.
IRENE.- (Batendo a porta). Ivan! Contesta! (Bate de novo. Espera).
Jorge, algo deu no Ivan!
PEDRO.- Estava muito deprimido.
IRENE.- Não quero nem pensar. Ajudem a abrir a porta. Temos que arrombá-la.
JORGE.- Epa! Nada de estrago. O que íamos dizer ao dono?
IRENE.- Na cozinha tem uma chave de fenda. (Pedro corre até a cozinha). Depressa!
sorprendidos)”. Ibidem.
89 ―Volver‖, tango composto em 1935 por Alfredo Le Pera e Carlos Gardel.
JORGE.- Era só o que nos faltava! (Volta Pedro).
IRENE.- Tira os parafusos da fechadura. Rápido!
JORGE.- (Com o ouvido na porta). Esperá! (Ouve-se a água da privada e depois aparece Ivan, com inequívocos sinais de ter chorado).
IRENE.- Ivan, por Deus…! No ouviu que chamávamos?
JORGE.- Por que não respondeu?
PEDRO.- Quase derrubamos a porta.
IVAN- Desculpem-me.
JORGE.- (Chateado). ¡Desculpem-me! É só isso que tem para dizer?
IVAN- Acharam que tinha me suicidado? Não, amigos. Outra vez, não.
JORGE.- Como ―outra vez‖?
PEDRO.- Já tentou antes?
IVAN- Como se houvesse me suicidado quando deixei a… (Vacila).
JORGE.- Sua terra? Poxa, homem, já voltará!
IVAN- Talvez.90
Ivan não consegue se libertar do que carrega. Jorge pensa que ele deve estar evacuando e isso pode, da forma mais escatológica, anunciar a esperança oculta de que o amigo se livre do que já deveria ter sido expulso. Que elimine de si os detritos de algo que alimentou a sua vida, mas que já deixou de ter sentido. Porém, o professor chileno só derrama lágrimas que não o ajudam a libertar-se do peso da melancolia. Ivan, prisioneiro dela, não se movimenta. O tango que colocou pouco antes fala por ele, porém, mais do só um fundo para a fala de Irene, é o contraponto à descoberta dela e enfatiza sua função protagônica na peça.
IRENE.- Apesar deles, de aduanas, vistos e a divisão absurda de fronteiras. De que te obrigam a ficar só por tempo limitado. Mas, mesmo havendo tanto em contra, não se pode impedir que apareça um sentimento de identidade…que te faz sentir que está em casa, sem importar que não seja a sua pátria verdadeira. (…)91
É o espaço de liberdade conquistado por quem elegeu ficar no lugar de acolhida para construir uma outra pátria. E isso, mediante o estabelecimento de relações com o espaço em que se está, no tempo presente, e pela ação libertária de problematizar as próprias certezas. Eis a diferença em relação à atitude de Sônia, que se sente estimulada a ficar para aproveitar uma ocasião favorável e não por sentir o lugar como próprio.
90 “ IRENE.- ¿No se habrá..? (Corre a la puerta del baño y la golpea). ¡Iván! / JORGE.- Dejalo cagar tranquilo, gorda. / IRENE.- (Golpeando la puerta). ¡Iván! ¡Contestá! (Vuelve a golpear. Espera). ¡Jorge, a Iván le ha pasado algo! /PEDRO.- Estaba muy deprimido./ IRENE.- No quiero ni pensarlo. Ayúdenme a abrir la puerta. Hay que echarla abajo. / JORGE.- ¡Epa! Nada de estropicios. ¿Qué le diríamos al dueño? \IRENE.- En la cocina hay un destornillador. (Pedro corre a la cocina). ¡Apurate! /JORGE.- ¡Sería lo único que nos faltaba! (Vuelve Pedro).
/IRENE.- Saca los tornillos de la chapa. ¡Rápido! / JORGE.- (Aplica un oído a la puerta). ¡Esperá! (Se oye correr el agua del water y luego aparece Iván, con inequívocas huellas de haber llorado). / IRENE.- ¡Iván, por Dios…! ¿No oías que te llamábamos? / JORGE.- ¿Por qué no contestabas? / PEDRO.- Estuvimos a punto de botar la puerta. / IVÁN.- Discúlpenme. / JORGE.- (Enojado). ¡Disculpenmé! ¿Es todo lo que se te ocurre decir? / IVÁN.- ¿Creyeron que me había suicidado? No, amigos. Otra vez, no. / JORGE.- ¿Cómo que otra vez? /PEDRO.- ¿Ya lo habías intentado?
/IVÁN.- Es como si me hubiera suicidado cuando dejé a… (Vacila). / JORGE.- ¿Tu tierra? ¡Vamos, hombre! Ya regresarás. / IVÁN.- Tal vez.” ARRAU, op.cit.
91 “IRENE.- Pese a ellos y aduanas, visas y la parcelación absurda de fronteras. A te obligan quedarte por un tiempo limitado. Pero teniendo tanto en contra, no pueden impedir que aparezca un sentimiento de identidad…que te hace sentirte en lo tuyo, aunque no sea tu patria verdadera. (…)” Ibidem.
Na peça, Jorge e, principalmente, Irene, afirmam-se a partir dessa ação. São eles que, tendo sofrido o exílio, continuam a viver livres da frustração pelo retorno logrado justamente por serem capazes de pensar e sentir a América Latina como um lugar diverso, mas não alheio.
Não haveria, pois, nenhum elemento preexistente na afirmação de uma latinoamericaneidad‖.
Porém, como se verá ao longo do texto, a descoberta é mais do que uma revelação, a constatação de que pode ser construída uma narrativa do presente de maneira afirmativa e consciente, criando vínculos entre os indivíduos, sociedades e países. Mas, como podemos observar pela diferença nas
Porém, como se verá ao longo do texto, a descoberta é mais do que uma revelação, a constatação de que pode ser construída uma narrativa do presente de maneira afirmativa e consciente, criando vínculos entre os indivíduos, sociedades e países. Mas, como podemos observar pela diferença nas