2. A MEMÓRIA E O PATRIMÔNIO DA FERROVIA NO RAMAL DO
2.2. A MEMÓRIA FERROVIÁRIA
2.2.2. Entre o individual e o coletivo: acontecimentos e pessoas
Neste trabalho, a metodologia utilizada para se chegar até essas memórias, àquilo que o sujeito quer lembrar e trazer a tona é através da valorização das narrativas produzidas através da história oral, que conforme Pollak (1992) se dá no âmbito das histórias de vida.
Petuba (2005, p. 6) resume o papel da memória enquanto objeto de análise:
(...) uma vez que a memória é um campo minado por lutas que colocam em perspectiva justamente o direito de lembrar e de contar a história de outras formas, a partir de outros lugares e outras vivências muitas vezes segregadas e ou silenciadas no duplo movimento de ocultação e clarificação realizado pela memória.
Alberti (2004) destaca que as fontes orais produzem narrativas que são resultados de um processo seletivo e organizado de acontecimentos do passado. “A
memória é seletiva. Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado” (Pollak, 1992,
p. 04). Essa organização e seleção devem partir exclusivamente do entrevistado, pois o papel do pesquisador da história oral deve ser criterioso, cuidadoso, sem julgamentos ou interferências durante o processo de coleta de dados (ALBERTI, 2004).
Pollak (1992) ao refletir sobre a relação entre a memória individual e coletiva destaca sua característica flutuante, mutável. Sabe-se que ela é um fenômeno social e coletivo, conforme discutido, expressando elementos representativos para aquele grupo social. Porém, os estudos sobre a memória indicam que nas amostras coletadas é possível verificar que alguns padrões são repetidos, como “marcos ou pontos relativamente invariantes, imutáveis” (POLLAK, 1992, p. 202).
A esse respeito, observou-se que no decorrer de algumas das entrevistas realizadas, existia sempre um ponto que era sempre retomado como se houvesse um esforço em cristalizá-lo, evitando-se assim que aquele momento se perdesse completamente no passado. Um exemplo, o entrevistado nº 49, durante vários momentos da conversa voltava nas lembranças que tinha do pai enquanto trabalhador da ferrovia em Jaguariaíva. Conforme ele ia avançando em sua narrativa do passado às condições presentes daquele espaço (a Estação Cidadã), era perceptível o movimento de esforço da memória em reforçar a condição do pai que
tinha começado na rede ferroviária pelo trabalho braçal e conseguido fazer carreira na Rede, aposentando em um cargo administrativo.
Essa fonte trouxe elementos do passado e produziu memórias que não eram só dele, mas as percepções compartilhadas pelo pai em vários pontos do passado. Isso pode ser relacionado àquilo que Pollak (1992) explica sobre os aspectos da constituição da memória, que pode ser dar através dos acontecimentos (aqueles vividos diretamente por uma pessoa ou “por tabela”), das pessoas, os personagens e dos lugares (lugares de memória, de comemoração).
As memórias compartilhadas durante a investigação apresentam claramente esses elementos destacados por Pollak (1992). São narrativas que tratam de acontecimentos diversos, de pessoas e dos lugares. Alguns acontecimentos aparecem cristalizados na memória coletiva, outros surgem em detalhes nas memórias individuais. Porém, Halbwachs (2003) ressalta que os indivíduos têm memórias individuais e coletivas, e que suas atitudes diante delas dependem dos seus interesses em relação à evocação de uma memória. Uma se apoia à outra, dependendo da situação:
(...) para conformar algumas de suas lembranças, para torná-las mais exatas, e até mesmo para preencher algumas de suas lacunas, pode-se apoiar na memória coletiva (...). Para evocar seu próprio passado, em geral a pessoa precisa recorrer às lembranças de outras (...) o funcionamento da memória individual não é possível sem esses instrumentos que são as palavras e as ideias, que o indivíduo não inventou, mas toma emprestado de seu ambiente (HALBWACHS, 2003, p. 71-2).
Os fatos mais citados durante as entrevistas foram: viagens de trem; passeios à estação; brincadeiras de crianças próximas aos trilhos; passeio comemorativo da Maria Fumaça em 1991; acidentes de trabalho ferroviário. Essas memórias apresentam singularidades, mas foi possível observar também a reconstituição de memórias individuais.
Entre as memórias individuais, alguns fatos se destacam na área urbana, como por exemplo:
(...) eu vi uma cena ali que nunca vi na vida... ela (a estação de Arapoti) era de parede dupla né? Que era uma estratégia da Rede. Antigamente o pessoal fazia muito isso, porque tinha madeira sobrando. E porque que faziam isso, porque no verão o calor não entrava, e no inverno o calor de dentro não saia, então era uma estratégia legal. Então, mas entre essas
duplas tábuas, tinha um vão de mais ou menos uns 3 cm, e daí a gente tava voltando da escola, o pessoal disse que tava tendo muita abelha ali. E quando batia o sino, irritava elas, elas atacavam, daí o pessoal falou, vamos ter que tomar uma providência, vamos ter que tirar essas abelhas, daí começaram a tirar as tábuas. Tinha favo do pé até o alto, e favo dessa grossura assim, mais ou menos dessa parede assim (3 metros), assim, e foi um espetáculo mais lindo que eu já vi na área de apicultura e acho que nunca mais vou ver na vida, pela área de extensão que era. Tipo assim, acho que a cidade inteira foi lá pegar um pedaço de favo aquele dia lá. Isso acho que foi em 1975, que eles tiveram que tirar as abelhas por conta disso, delas estarem atacando, parece que as abelhas não gostam de ferro, de atrito de ferro, irrita muito elas, daí elas atacam. Porque quando chegava o trem eles batiam o sino, e aí elas atacavam (ENTREVISTADO 28, 2018).
E na área rural:
(...) a gente ia andar no turno de noite, e no carro noturno ia cheio de gente sabe? Ia preso, tudo! Naquele tempo não tinha condição. Ia preso. Então, o soldado ia no banco, ia algemado o preso. No meio do povo ia! Uma vez vinha de Wenceslau pra cá (Calógeras), vinha conversando com um criminoso sabe? Mas um criminoso barbudo, mas bom de conversa o homem. Porque de Wenceslau aqui demorava muito e dava pra conversar bastante. O trem andava devagarzinho, 20 por hora, aí ele falou que tinha matado a mulher. Olha! Aquele tempo já! Matado por traição (...). E uma mulher bonita, ele mostrou o retrato pra nós: “Olha, essa mulher eu matei. Matei o homem que tava junto com ela também”. Ia indo preso! Ia indo pra penitenciária em Curitiba. Ele era do Norte do Paraná. Já pensou ia vindo preso lá de Apucarana, lá de Cianorte, a linha era de Cianorte pra cá (ENTREVISTADO 14, 2017).
O segundo elemento citado por Pollak (1992) refere-se às lembranças sobre as pessoas (ou personagens). Os ferroviários são citados em número expressivo na constituição das memórias, assim como amigos que eram de família de trabalhadores da ferrovia. Em relação à referência de pessoas na memória foram organizados alguns trechos das entrevistas realizadas por esta pesquisa, demonstrando que a partir de uma lembrança da ferrovia existe uma infinidade de pontes entre o passado e o presente. São lembranças felizes ou tristes, cujos sentidos podem ser diversos, mas que retratam a função social que a memória pode representar na produção de conhecimento.
Quadro 3: A memória das pessoas
Localidade Trecho do relato
Entrevistado nº 1
Wenceslau Braz
“Ele trabalhava direitinho, trabalhou com o Nhô Bastos, com uma porção de gente (…) o falecido seu Benjamim”.
Entrevistado nº 6
Wenceslau Braz
“Ah, a minha avó morava ali pertinho, do lado de baixo e eu me lembro que eu e minha irmã, a gente brincava muito ali. Minha avó morava ali perto do matadouro”.
Entrevistado Nº 9
Calógeras “Eu ouvi falar que teve um engenheiro que veio
fazer uma obra aqui na linha do trem e daí ele teria falecido aqui e por isso homenagearam ele, porque antigamente aqui chamava São José do
Paranapanema”.
Entrevista nº 14
Calógeras “(…) mas dava muito desastre também. Sabe por quê? O guarda freio vinha em cima do trem. Pra frear, e com chuva e frio, às vezes vinha chovendo e na descida tinha que frear, escorregava, caía e morria”.
Entrevista nº 21
Wenceslau Braz
“Com 15 anos vim (de trem) com pai pro Paraná, lembro que meu pai, ele era alcoólatra; teve uma vez que em Carlópolis, um cavaleiro ajudou o pai a encontrar o primo. Cirilo era o nome do cavaleiro e era o patrão do primo Antenor”.
Entrevista nº 28
Arapoti “Aí deu problema também, porque tinha Cachoeirinha no Rio Grande do Sul, e daí ia parar lá (as correspondências). ‘Vamos ter que mudar!’, e parece que na época eles tinham uma estratégia na ferrovia, quando eles tinham um nome de um eminente na rede, eles colocavam o nome dele na estação, por exemplo, Calógeras, o Pandiá Calógeras”.
Entrevista nº 41
Jaguariaíva “Quando criança meu pai cultivava as proximidades
da ferrovia. Era tão bom ver os trens, me lembro eu e minha irmã não víamos a hora de ajudar nosso pai só para ficar olhando os trens. Com aquela quantidade de vagões”.
Entrevista nº 42
Jaguariaíva “Quando ia trabalhar junto com o meu pai na
estação! Meu pai manobrava os vagões que seguiriam viagem para Curitiba, lembro também quando a Maria fumaça passou a ser a diesel e toda a tecnologia que veio com essa mudança”.
Fonte: Dados coletados pela autora, 2017-2018. Organização: A autora, 2018.
Conforme pode ser verificado no quadro 3, são situações diversas como experiências de infância em lugares próximos aos trilhos; de relacionamentos entre
familiares de ex-ferroviários e suas antigas amizades ou companheiros de trabalho; de situações presenciadas ou contadas pelos pais sobre o cotidiano ferroviário. Em todas essas lembranças vêm à tona pessoas que no processo de reconstrução da memória são privilegiados na narrativa produtiva.