• Nenhum resultado encontrado

Sob a perspectiva da apropriação do sujeito

2. A MEMÓRIA E O PATRIMÔNIO DA FERROVIA NO RAMAL DO

2.3. FERROVIA: TERRITÓRIO E PATRIMÔNIO

2.3.2. Sob a perspectiva da apropriação do sujeito

62

Tal afirmação se faz a partir da análise de entrevistas realizadas com ex-funcionários da ferrovia que pertenceram tanto ao quadro de funcionários da extinta RFFSA e à concessionária ALL, empresa que determinou o fechamento das atividades do ramal do Paranapanema.

Um olhar contemplativo e compreensivo sobre a preservação de um aspecto da cultura pode representar uma fuga diante das rápidas transformações desencadeadas e que pode se refletir nas identidades dos grupos sociais. Choay (2001) afirma que a cada adição de novas frações de um tempo distante ou próximo são provocados olhares introspectivos, denominado pela autora de figura narcísica, instigando nas pessoas um autoconhecimento sobre si e sobre o seu papel naquela sociedade, acalmando as incertezas e angústias do presente. De acordo com Choay (2001), o grande nó do enigma é considerar o patrimônio histórico como um espelho no qual a humanidade teria a possibilidade de contemplar a sua imagem.

Warnier (2000, p. 98) afirma que “a transmissão das tradições culturais se apoia no patrimônio herdado do passado. Para conservar sua identidade, os grupos e as nações devem manter, cultivar, renovar seu patrimônio”. É importante refletir na ligação desse processo às distintas formas de produção e transmissão dos conhecimentos das gerações anteriores, de forma a estabelecer ligações entre a sociedade e suas tradições.

Claval (2007, p. 14) indica, diante de uma abordagem do território, o ponto de partida para um estudo do patrimônio ferroviário do ramal do Paranapanema entre Jaguariaíva a Wenceslau Braz. O embasamento se dá a partir da Geografia Cultural, que considera a dimensão simbólica, as realidades e signos compartilhados pelas sociedades e o sentimento de compartilhamento que os espaços podem despertar e representar. Pois, conforme “a lembrança das ações coletivas funde-se aos caprichos da topografia, às arquiteturas admiráveis ou aos monumentos criados para sustentar a memória de todos, o espaço torna-se território” (CLAVAL, 2007, p. 14).

A discussão aqui proposta envolve apropriação, reconhecimento, algo entre os limites da razão e da emoção, que não soe como um discurso apelativo, mas que traceje o reconhecimento sobre um patrimônio industrial. A partir de uma potencialidade de geração de renda à região, mas que prioritariamente pode ser entendido pela sua importância para a compreensão da história e da organização espacial dos municípios estudados. Que representa ainda, um exercício de abstração e reflexão sobre outras tantas localidades brasileiras que atualmente podem ser categorizadas pela mesma situação, pois um dia ali os trens se instalaram e atualmente só se expressam em vestígios materiais e imateriais.

Choay63 (2001) explica que o conceito de patrimônio, originalmente, está atrelado à ideia de “estruturas familiares, econômicas e jurídicas de uma sociedade estável, enraizada no espaço e no tempo”, que ao ser requalificado permite entender patrimônio histórico como uma expressão que “designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação continua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum” (CHOAY, 2001, p. 11).

Não se trata apenas de construções antigas, mas de uma série de aspectos a serem considerados. Ou seja, um patrimônio cultural compõe-se “pelo conjunto das edificações tombadas, a composição da paisagem urbana, as relações sociais deste espaço e as significações do patrimônio e da memória social” (BURDA; MONASTIRSKY, 2011, p. 118).

Portanto, coletividade e patrimônio são ideias associadas. Funari e Pelegrini (2006, p. 9) afirmam que o conceito de patrimônio ao evoluir do individual para o coletivo nos leva a considerar que “a coletividade não é uma simples soma de indivíduos, assim como o todo não é uma mera junção das partes 64”. Essa coletividade seria resultado de um processo de constituição de “grupos diversos, em constante mutação, com interesses diversos e, não raro, conflitantes” (FUNARI; PELEGRINI, 2006, p. 10). Nessa concepção existiria uma relação entre a apropriação coletiva dos espaços, em suas múltiplas territorialidades, e a instituição, a partir de interesses diversos daquilo que se caracteriza como patrimônio ou não.

O desenvolvimento e o interesse por práticas patrimoniais se deram em razão da “mundialização dos valores e das referências ocidentais”, cujo símbolo

63 O trabalho de Choay (2001), “A alegoria do patrimônio”, apresenta muitos aspectos interessantes à

compreensão da constituição da ideia de patrimônio cultural no mundo moderno. A autora, sob uma leitura objetiva, traça parâmetros para a compreensão da temática, discutindo elementos que são ao mesmo tempo importantes à formação teórica sobre o assunto, quanto para um despertar crítico e consciente que um pesquisador patrimonial deve ter ao defender o seu objeto de estudo. Não se trata apenas de uma visão idealista da preservação de lugares, mas de se considerar os interesses diversos que constituem a exploração de patrimônios culturais.

64

A concepção de pertencimento dos bens públicos aos cidadãos de uma nação teria surgido com a Revolução Francesa que passou a “administrar” e “proteger” o destino dos objetos de valor, mobiliários e construções herdadas da cultura romana, medieval e também do período absolutista na França (CAMARGO, 2002).

estaria representado pela Conferência Geral da Unesco realizada em 1972 (CHOAY, 2001, p. 207).

Choay (2001, p. 212) destaca ainda que o conceito de patrimônio histórico e cultural pauta-se na ideia de reconhecimento de algo como de “mais-valia de interesse, de encanto, de beleza, mas também da capacidade de atrair, cujas conotações econômicas nem é preciso salientar”. Ressalta-se assim, aspectos antagônicos numa sociedade capitalista entre o retorno econômico que os lugares preservados podem representar. O que nos leva a refletir sobre de que maneira esses espaços da ferrovia, nas atuais formas em que se apresentam, poderiam adquirir funções que as manteriam dentro da lógica capitalista.

Uma das formas de se analisar esses fatores e sua relação com o social é a partir da Geografia Cultural. Claval (2007) defende que os estudos da Geografia Cultural são relevantes ao atual contexto histórico em que vivemos, fazendo-se necessário uma discussão sobre a mundialização da cultura e suas consequências, refletindo-se sobre um contexto em que “as técnicas tornaram-se demasiadamente uniformes para deter a atenção; são as representações, negligenciadas até então, que merecem ser estudadas” (CLAVAL, 2007, p. 50).

Monastirsky (2006) ressalta que como os espaços são historicamente construídos, passíveis de serem entendidos a partir de suas funcionalidades e das significâncias encontradas nos patrimônios culturais, os quais carregam intrinsecamente pontos de vista que associam tanto o passado quanto o presente. O acesso ao passado (memórias) e ao presente (percepções) empreendido por esta pesquisa permitiu identificar nos sujeitos o sentido de patrimônio. O reconhecimento a partir do sujeito aparece em muitos dos relatos obtidos por esta pesquisa, em alguns casos de forma discreta, outras em verdadeiras campanhas pró preservação dos bens e da memória ferroviária.

Nos três municípios investigados foi observado a referência a seu valor cultural, revelando-se assim sentidos que podem embasar uma afirmação de que existe reconhecimento patrimonial da parte dos moradores dessas localidades. Essas pessoas, ora produzem críticas às instâncias de poder dos órgãos administrativos, ora reconhecem que algumas ações realizadas nos espaços ferroviários configuram-se em funcionalidades voltadas ao bem estar e à cidadania.

É importante frisar o papel da memória no processo de patrimonialização mesmo nos espaços em que não são identificados intervenção nos amparos da lei,

em que os simples vestígios e os lugares ocupados no passado pelos trens despertam o sentimento de identificação e de pertencimento. Exemplos de referências ao reconhecimento cultural da ferrovia nos municípios abordados são apresentados no quadro 6.

Quadro 6: Referências ao reconhecimento do patrimônio ferroviário

Localidade Trecho do relato

Entrevistado nº 1

Wenceslau Braz

“(...) antes era um patrimônio muito bem cuidado, minha filha, de primeiro, mas agora! Não tem nem comparação”.

Entrevistado

nº 14 Calógeras

“Que judiação você viu? Arrancarem aquelas pedras tudo dali, e coisa e tal”.

Entrevistado nº 17

Wenceslau Braz

“O primeiro ponto de partida seria retomar o prédio da 8ª Residência. Nós não temos mais a estação, a gente tinha que tombar aquilo ali como patrimônio histórico, fazer um acervo, um museu ali. E ali contar a história do município”.

Entrevistado nº 22

Wenceslau Braz

“Nossa, quando acabou, não passou mais trem. Logo fechou, a estação ficou tempo daí. Faz pouco tempo que foi demolida, ficou ali! Esse armazém que eu tô falando, também demorou, mas fechou depois. Foi fechando, foi acabando tudo. Foi muito triste aqui!”

Entrevistado

nº 28 Arapoti

“O acervo que tinha nela foi tirado e levado pra essa outra casa que eu falei, que era a sede da fazenda Capão Bonito, que também tá correndo o risco de acontecer a mesma coisa”.

Entrevistado

nº 29 Arapoti

“O espaço foi queimado. Uma pena, pois se tratava de um patrimônio histórico importante para nossa cidade”.

Entrevistado

nº 37 Arapoti

“O ponto positivo são as lembranças em que as pessoas que vivenciaram essa época, também por serem pontos turísticos e históricos que enriquecem a cultura da cidade”.

Entrevistado

nº 49 Jaguariaíva

E que nada mais justo, quando a gente pensou em resguardar naquele espaço uma sala para a memória ferroviária. Nada melhor que contar isso! Porque o prédio por si só é a maior peça a ser admirado, é o maior patrimônio, é um monumento!

Fonte: Dados coletados pela autora, 2017-2018. Organização: A autora, 2018.

Dessa forma, as falas expressam esse reconhecimento do sujeito e do grupo em torno da ferrovia. Os sujeitos percebem as transformações ocorridas, as ações de abandono, ou necessidades de ações preservacionistas ou ainda as

configurações antigas que faziam parte dos espaços ferroviários. Da mesma forma são citados eventos catastróficos (como o incêndio em Arapoti) ou ainda os reflexos das relações de poder que recaíram diretamente em espaços vivenciados pelo cotidiano dessas pessoas.

Um patrimônio que se configura sim nas materialidades amparadas pela proteção da lei em Jaguariaíva, o que não significa que seja uma condição permanente. Pois são fenômenos que expressam as relações conflitantes sobre os territórios da ferrovia. No entanto, mesmo nos lugares em que ficaram apenas vestígios, esse “restos” colocam-se também enquanto lugares de memória (NORA, 1993). Em Jaguariaiva (em vagões abandonados na periferia da cidade e nas construções residenciais demolidas), em Wenceslau Braz (na estação demolida, nas casas da rede, no clube ferroviário, nos trechos desbarrancados e soterrados pela terra), em Arapoti na (estação abandonada e incendiada, nos vagões enferrujados), em Calógeras (na estação demolida) e nos bairros rurais Cerrado das Cinzas, Km 32, Quarenta e Quatro, Turma Nove (trilhos encobertos pelo mato e terra) foi possível verificar, tanto na fala dos sujeitos quanto na pesquisa in loco referência e coerência entre os discursos e os atuais elementos da paisagem.

Halbwachs (2003, p.189) afirma que

(...) para lembrar, é preciso que nos transportemos em pensamento fora do espaço, pois ao contrário, é justamente a imagem do espaço que, em função de sua estabilidade, nos dá a ilusão de não mudar pelo tempo afora e encontrar o passado no presente (...).

A partir do material, do suporte físico (MONASTIRSKY, 2006), a ferrovia é também um patrimônio imaterial, representado pelos ex-ferroviários (CALISKEVSTZ, 2011; NETREBKA RAMOS; JOHANSEN; ROSAS, 2017), por significados produzidos no cotidiano e nos símbolos produzidos pelo ofício de seu labor e pelas manifestações culturais estabelecidas no passado (MONASTIRSKY, 2006; PETUBA, 2011), mas também pelo trabalho da propagação da memória ferroviária. Camargo (2002, p. 13) afirma que “dos monumentos se produzem relíquias e lembranças”, portanto, é imprescindível que se analise um patrimônio considerando-se esse par relacional: o patrimônio (material e imaterial) e a memória.

CAPÍTULO III

3. AS TERRITORIALIDADES: ENTRE “FATOS”, “RUGOSIDADES” E