1. A DINÂMICA DO TERRITÓRIO E DO PATRIMÔNIO DO RAMAL DO
1.3. A RELAÇÃO CAMPO E CIDADE: SOBRE JAGUARIAÍVA, ARAPOTI E
1.3.1. Reflexões sobre a dicotomia campo e cidade
A proposta de uma superação dicotômica em um estudo sobre o patrimônio produzido pela ferrovia em seus processos territoriais remete a reflexões sobre aspectos da produção de conhecimento. Em diferentes metodologias, mesmo aquelas que muitas vezes se propõem dialéticas é sempre um desafio encontrar elementos relacionais que destaquem e discutam as contradições no pensamento científico.
Para Paulino (2015) trata-se de uma superação, apesar de as dissidências provocadas no meio científico serem algo que perpassa todas as “ciências da sociedade e ciências da natureza, entre tempo e espaço, entre outras tão pronunciadas na tradição cristã ocidental a ponto de o próprio Marx, após conhecer escritos identificados como marxistas, ter se declarado antimarxista” (SHANIN, 2012 apud PAULINO, 2015, p. 62).
Sobre a relação campo e cidade e a rede ferroviária, Furtado (2015) trata da proposta sedutora da modernidade como um ideal de libertação dos sujeitos do campo à exploração e às dificuldades do processo produtivo.
O conceito de modernidade assimilado pelo senso comum daquelas sociedades rurais na sua relação com a ferrovia é de algo que oferece mais do que aquilo que já se tem. Assim foi quando da instalação do aparato industrial no século XIX que libertou sociedades da dura exploração e cativeiro rural, criando um estilo de vida mais urbano, com um forte sentido comunitário. No entanto, a superação desta primeira industrialização nas cidades do interior por outras modernidades não trouxe nada mais que o abandono de antigas estruturas arquitetônicas e sociológicas. Refiro-me aqui, tanto à falta de políticas públicas viáveis e bem planejadas que assimilassem o impacto de novos modos de produção, quanto à reestruturação produtiva e precarização do trabalho que desde os anos
1980 vem contribuindo para a desvalorização do trabalhador. As “obsoletas” estruturas fabris são abandonadas, entregues às ruínas do tempo e, por estarem geralmente em lugares valorizados, passam a ser cobiçadas por empreendimento imobiliários. Agora o campo das disputas ganha o espaço da memória, história e patrimonialização, em confronto com aqueles que veem aqueles imóveis apenas como valor mercadológico (FURTADO, 2015, p. 52)
Um patrimônio industrial produzido a partir da proposta de modernidade representada pela ferrovia não escapa ao movimento do tempo e das relações de poder, conforme afirma Furtado (2015). Warnier (2000, p. 67) afirma que “a revolução industrial transformou radicalmente as economias tradicionais e deu origem às indústrias da cultura”.
Patrimônios industriais foram produzidos na dinâmica territorial da ferrovia, patrimônios estes que vão se constituindo desde o momento das suas instalações porque foram adquirindo significados culturais apropriados pelas pessoas que a vivenciavam. O que significa que o romantismo da belle èpoque e daquelas imagens cinematográficas das despedidas e reencontros nas estações, ou das paisagens do campo atravessadas pelas Marias Fumaças, podem também ser analisadas no sentido da saudade que o próprio termo “romantismo” sugere. No entanto, não há como evitar que o romantismo “permeie todas as considerações que envolvem o patrimônio, o lazer e o turismo” (CAMARGO, 2002, p. 10), mesmo essas palavras representando categorias de sociedades industriais.
Ou seja, sair do campo rumo à modernidade da cidade em busca de uma liberdade que é provisória, e que no decorrer do tempo vai assumindo novas formas de prisão, gerou contradições nessa relação campo e cidade. Sobre essa atração sedutora pela modernidade que os trens representariam:
As sociedades ruralizadas, ao se colocarem diante da sedução industrializante, trataram de incorporar aquilo que lhes pareceu, naquele momento, melhor para si mesmas. Assim, a modernização funciona como um elemento de transformação das culturas locais, permitindo a elas moverem-se na temporalidade histórica. Nas sociedades ruralizadas onde o trabalho mantém o homem preso ao local, os meios de transporte mais rápidos libertam o indivíduo de sua prisão sertaneja. A escolarização, prerrogativa da industrialização, se torna uma necessidade além de ser outro instrumento de liberdade. A indústria e o crescimento do urbano constituem ponto de fuga e de relativa independência. A despeito de toda crítica que se tem feito ao fenômeno da industrialização, o olhar dos historiadores brasileiros se concentram, até agora, em sua maioria, nos grandes centros e em suas estruturas (FURTADO, 2015, p. 51).
O sentido mais apropriado seria de uma desruralização, considerando-se situações em que muitas dessas pessoas nos centros urbanos vivem em condições marginais, de miséria e submissão econômica, e não ao contrário, o que sugere uma condição de urbanização, pois são constatadas a falta de moradia digna, educação, saneamento básico, emprego, etc. (ROSAS, 2015).
Percorrer os significados deixados pelas paisagens produzidas, e que refletem o resultado de processos territorializantes no local, corrobora para a reflexão sobre os significados que se lançam sobre definições que quantificam e qualificam os espaços urbanos como modos de vida predominantes no Brasil. Ferreira (2005) trata dessa problemática e do processo de qualificação dessas esferas (urbano e rural), e ainda, da trajetória de avanço das cidades sobre o campo.
Ferreira (2005) define que a partir da modernização do campo na década de 1960, e das mudanças que se deram no processo produtivo no modelo agropecuário brasileiro, intensificaram também as relações entre o meio rural e urbano. Nesse sentido
Em termos gerais, se comumente compreendíamos o campo como o espaço típico em que o modo de vida rural se desenvolvia, e a cidade como o espaço típico do modo de vida urbano, atualmente polarizar ou pensar que estas formas de organização estão muito distante torna-se tão arriscado, quanto afirmarmos que houve a eliminação do rural pelo urbano (FERREIRA, 2005, p. 12).
A produção das estruturas territoriais é, segundo Raffestin (2009, p. 19), “uma simbiose entre o mundo agrícola e o meio urbano”. No entanto, “o urbano formou-se a partir do rural, e criou tal separação, dicotomia e função, devido ao espaço que cada lugar é capaz de abranger” (ROSAS, 2015, p. 128).
Uma rápida revisão histórica desde os tempos antigos pode justificar essa afirmação, pois com o domínio das técnicas de produção de alimentos pela agricultura e superando-se a necessidade da subsistência com os excedentes vão surgir novas funções denominadas de urbanas, com o desenvolvimento da ideia de comércio e outras atividades especializadas. Assim, os territórios produzidos tanto no campo como na cidade “constituem espelhos das transformações dos espaços” (RAFFESTIN, 2009, p. 22-3).
Por outro lado, analisando-se fontes históricas produzidas no início do século XX, verificou-se que no contexto da instalação da ferrovia no ramal do Paranapanema a situação era inversa, se for considerado o processo produtivo do setor primário nas cidades paranaenses. Através desse material, observados durante a pesquisa bibliográfica sobre a relação da ferrovia na região do Norte Velho (ou Pioneiro) e nos Campos Gerais do estado, foi possível identificar agrupamentos de povoamento que iriam originar vilas e posteriormente alguns municípios (TRINDADE, 1927). Rosas (2015) afirma que essas vilas já seriam um princípio de forma urbana e ainda, que a organização desses adensamentos demográficos estão relacionados “aos fatores de ordem econômica, formando uma frente pioneira intencional, gerando comércios e atividades relacionadas a diversos ciclos, de acordo com a ocupação do espaço” (ROSAS, 2015, p. 126).
O exercício realizado ao se analisar fotografias do Álbum do Paraná (TRINDADE, 2017) pretende não reforçar um olhar dual, mas demonstrar o dinamismo das forças territorializantes. Para Rosas (2015), ao se pretender compreender a relação entre o campo e a cidade sob um enfoque que prioriza a dinâmica territorial material e imaterial é preciso entender que
Os municípios, como unidades políticas/administrativas, passaram a ter autonomia a partir da Constituição Federal de 1946, que se refere a todo espaço construído a partir das zonas rurais dicotomizando o rural e o urbano para fins administrativos e de acumulação de capitais. (...) A criação de espaços urbanizados e aglomerações, além da inserção de novas tecnologias, ampliaram, aos poucos a dicotomia entre o rural e o urbano. (...) Essa dicotomia teve inicio com a divisão social e territorial do trabalho, que trouxe indicativos de produção específicos de cada espaço. Porém, as cidades, frutos dessa divisão, surgiram a partir de espaços rurais (ROSAS, 2015, p. 126).
Para Fernandes (2005) trata-se de um processo de produção de fragmentação, dicotomização e conflitualização dos espaços a partir das relações sociais diante de intencionalidades que determinam uma representação, uma forma de poder, que se sustenta na receptividade dessa leitura fragmentada do espaço. Os discursos produtores da dicotomização entre o rural e o urbano podem ser debatidos a partir do processo de modernização do campo na década de 1960 e na intensificação das relações entre o meio urbano e rural (FERREIRA, 2005).
Ferreira (2005) afirma que a heterogeneidade produzida envolvem atividades econômicas e relações sociais que vão se estabelecendo, tanto nos
espaços urbanos quanto rurais, de forma que apesar de serem produzidos discursos que engrossavam a ideia de que o “desenvolvimento” estava na cidade, é extremamente perigoso polarizar ou se afirmar um processo de “eliminação do rural pelo urbano” (FERREIRA, 2005, p. 12).
Saquet (2006) afirma que existe um “movimento do real e do pensamento”, e relacionalmente falando-se, esta abordagem territorial representa “um dos caminhos que permite uma compreensão coerente do rural e do urbano e de suas relações ou tramas territoriais” (SAQUET, 2006, p. 61). Até porque este trabalho trata de um recorte em que a linha entre ruralidades e urbanidades é muito tênue, já que são municípios com populações pequenas e uma forte expressividade às tradições, diferentemente talvez das análises que consideram a relação campo e cidade em regiões metropolitanas.
O conceito de espaço geográfico é muito rico para essas discussões e reter dicotomicamente rural e urbano não dá suporte para o entendimento dessa complexidade da melhor forma. Limitar a análise de um ponto de vista metropolitano é muito pobre para entender a realidade de lugares remotos e pouco influenciados pelas regiões metropolitanas, nesses lugares o rural determina o ritmo de vida da população rural e urbana, além de manter as questões culturais e de identidade territorial presentes independente do grau de urbanização (ALVES; VALE, 2013, p. 39).
Sendo assim, relacionando-se tempo e espaço, cidade e campo e território e suas redes, faz-se uma reflexão sobre elementos, se não totalizantes, mas relevantes sobre o processo de territorialização da rede ferroviária no ramal do Paranapanema.