3 RONDAS, BEBIDAS E BRIGAS: O COTIDIANO E AS RELAÇÕES POLICIAIS
3.3 Agentes da lei em discórdia: conflitos entre membros das diferentes
3.3.2 Entre rondas e algumas doses: o problema da embriaguez
Nem só nos becos e ruas da cidade ocorriam os confrontos entre os agentes da lei. Nos bares, tabernas, hotéis, armazéns ou botequins era bastante comum que
63 De acordo com o regulamento da Força Policial de 1888, as penas para os desertores variavam de 15 dias a 6 meses de prisão, dependendo dos agravantes e da reincidência de deserções. Embora os casos aqui citados sejam de Guardas Municipais, certamente as penas para estas indisciplinas e infrações dos praças, não variavam muito entre as diferentes instituições. Códice de Legislação número 614. Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS).
o clima de sociabilidade do local acabasse resultando em violentas brigas. Como já comentado neste capítulo, não era raro o uso de bebida alcóolica entre soldados e policiais, hábito que podia facilitar o desencadeamento de violência entre estes homens.
No relatório de ronda escrito pelo oficial da Guarda Municipal João Correa do Amaral ao seu comandante, em 12 de janeiro de 1893, ele expõe a agressão sofrida pelos guardas que patrulhavam a região da Azenha e da Várzea por um grupo do Batalhão de Engenheiros. Sobre este conflito, de onde vários policiais saíram feridos, foi intimado pelo Chefe de Polícia o dono de uma taberna, acusado de ser cúmplice nos fatos, uma vez que os agressores pareciam ser frequentadores recorrentes de sua casa de negócios:
A patrulha da ponte do Menino Deus foi agredida por um grupo de doze a dezesseis praças do 11 regimento de cavallaria, que armados de cacetes, adagas e navalhas, feriram gravemente com diversas cacetadas e outras armas cortantes a referida patrulha pertencente a esta Guarda Municipal.
A patrulha da Azenha e Varzea do 1º. quarto, também foi agredida por um outro grupo de 25 a 30 praças do 2º. Batalhão de Engenheiros do 11 regimento de cavallaria e outros, resultando dahi haver ferimentos leves de parte a parte, isto atrás da Escola Militar. Foi intimado a comparecer perante o cidadão Dr. Chefe de Polícia hoje ao meio dia, o indivíduo Ferraz, estabelecido com taberna nas immediações da Escola Militar, afim de dar esclarecimentos sobre estes factos, pois que é possível que este homem tenha cumplicidade nos referidos factos, pois que sua casa ainda se achava aberta a uma hora da manhã e com grande número dos praças agressores, sendo esta casa um foco de desordens.64
A taberna de Ferraz, estrategicamente localizada nas imediações da Escola Militar, certamente era um ponto de encontro habitual dos praças que ali se encontravam para socializar e distrair. Como o uso de álcool era recorrente entre os policiais - não só os militares, mas também os guardas municipais -, o dono da taberna, que “facilitava” este consumo de bebidas que levava a desordens, acabou sendo também responsabilizado pelas agitações ocasionadas nas proximidades de seu estabelecimento.
Nos diversos relatórios de ronda escritos pelos oficiais da Guarda Municipal são bastante comuns os relatos de patrulhas inteiras que, ao invés de estarem em seus postos cuidando da segurança da cidade e zelando pela tranquilidade pública,
foram encontradas em estado de embriaguez. Em 29 de novembro de 1892, por exemplo, o oficial José da Fontoura escreveu ao seu superior:
Communico-vos que com as formalidades legaes, rondei o 1º. e 2º. Quarto de patrulhas a noite próxima passada, as quais encontrei nos respectivos postos e em boa ordem, com excepção porém, da patrulha do 1º. Quarto que fazia o serviço da Varzea e Azenha, a qual achava-se em completo estado de embriaguez e fora do seu posto, o que prendi e fiz recolher ao Quartel. A illuminação publica conserva-se boa, não havendo pois, novidade alguma na dita noite.65 Os recorrentes episódios de brigas, embriaguez e desordens que ocorriam entre os policiais não correspondiam a imagem de trabalhadores disciplinados, morigerados e ordeiros que a administração pública buscava. Rosemberg (2008, p. 257-258) salienta que as elites e governantes, ansiosos pelo progresso da nação, reprovavam fortemente hábitos e costumes da população pobre, de onde vinham estes policiais. As práticas culturais populares, segundo o autor, eram associadas “a um estilo de vida desidioso e arcaico, incompatível com os novos parâmetros do trabalho sistemático e da ‘civilização’”.
Nesse sentido, numa tentativa de controlar, disciplinar e moralizar estes populares que deveriam ser responsáveis pela manutenção da ordem e da tranquilidade pública, as autoridades procuravam punir este tipo de comportamento policial considerado inadequado. Segundo Rosemberg (2008, p. 258):
[...] aparece com muita nitidez na documentação escrutinada a reprovação de um comportamento considerado inadequado pela administração da polícia [...], que punia os policiais que relutavam a obedecer aos mandados institucionais, insistindo em perpetuar, mesmo sob a farda, hábitos a serem proscritos – a embriaguez, o jogo, o consórcio ilícito com mulheres [...].
Os guardas municipais encontrados em completo estado de embriaguez na noite de 28 de novembro de 1892, enquanto deveriam estar patrulhando as ruas da capital, sofreram punições devido a seu comportamento desregrado. Logo no dia seguinte ao ocorrido, o comandante José Ignácio dos Santos escreveu ao Chefe de Polícia de Porto Alegre prestando conta das medidas tomadas a respeito do fato:
Em resposta ao vosso offício datado de hoje, devo diser-vos que os praças de que se compunha a patrulha a que vos referiu, que pelo
adjunto que fasia a ronda foram encontrados em estado de embriaguez, se achão presos desde hontem as 9 ½ horas da noite, e estão sendo severamente punidos, a bem da disciplina da guarda sob meu commando, que empregarei o maior esforço e toda actividade afim de evitar que se reproduzão faltas como as que hontem foram cometidas pela aludida patrulha.66
Nota-se a preocupação do comandante em demonstrar seu esforço em punir de forma severa os policiais embriagados para o bem da disciplina da corporação. Entretanto não aparece no ofício escrito por ele o tipo de punição a que estes praças seriam submetidos. Mauch (2016, p. 194) comenta que, entre as infrações cometidas pelos policiais, eram frequentes as relacionadas ao abandono do serviço, ao consumo em excesso de bebidas alcoólicas, a presença desses indivíduos em tabernas e o seu envolvimento em desordens e imoralidades. Ela destaca, entretanto, que as punições aplicadas no caso destas infrações ocorriam de forma discricionária, dependendo da posição e ralações sociais que estes sujeitos mantinham com seus superiores e colegas:
As discrepâncias nos critérios de aplicação de punições passam certamente pelas relações sociais e de poder que alguns desses homens que trabalhavam no policiamento de Porto Alegre na Primeira República entretinham com seus chefes, colegas, compadres, padrinhos ou protetores de condição social superior ou inferior às suas, e que podiam ser acionadas em momentos de dificuldade, cuja eficácia provavelmente era maior que a aplicação das regras escritas. (MAUCH, 2016, p. 199).
Nesse sentido, por mais que cada instituição possuísse regulamentos que regessem as punições, normas e funções, as relações, posições e condição de cada policial faziam com que as aplicações (ou a não aplicação) destas normas fossem diferentes para cada um deles67. E por mais que os superiores se esforçassem em manter os praças sob disciplina, muitas das punições aplicadas certamente não surtiam efeito, já que episódios de embriaguez, desordens e brigas entre os policiais, continuavam a ocorrer seguidamente pelas ruas da capital. Desta forma, apesar dos esforços das autoridades em disciplinar, ordenar e moralizar suas tropas e patrulhas,
66 AHRS, Fundo Polícia – Maço 150 – Relatórios de Ronda da Guarda Municipal.
67 O regulamento da Força Policial de 1888 previa as seguintes penas para os casos de embriaguez: Artigo 97º - Todo aquelle que se embriagar será punido: § 1º Se fôr praça de pret com prisão por 5 dias, sem prejuízo do serviço que lhe competir por escala; elevada a pena ao dobro no caso de ser a embriaguez verificada em acto de serviço. § 2º Se fôr inferior ou cabo, além da pena estabelecida no § antecedente, será rebaixado do posto. § 3º Se fôr oficial será demitido do serviço da Força Policial. Códice de Legislação número 614. Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS).
era praticamente impossível mantê-las dentro do padrão desejado. Estes populares fardados, durante o cotidiano, compartilhavam dos hábitos, prazeres e dificuldades da vida comum:
[...] os policiais eram partícipes assíduos do dia-a-dia da província. Estavam presentes não só quando chamados a intervir, mas nos momentos de ‘calmaria’, por assim dizer. Nas brechas do dever, interagiam e, ao interagir, legaram uma marca própria, expunham uma personalidade forjada, não só nos domínios da instituição, mas construídas a partir da confluência de influencias muito mais complexas, dentre as quais sua origem social, sua biografia e o contato íntimo com a população administrada. (ROSEMBERG, 2008, p. 257).
Ao conviver com os “policiados” – muitas vezes conhecidos -, para muitos destes “homens da lei” era bastante difícil, em seu dia-a-dia, desvincular as relações pessoais das laborais. Dessa forma, era bastante comum que estes indivíduos, mesmo durante suas jornadas de trabalho, se envolvessem em situações e hábitos considerados inadequados, imorais e desordeiros.