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Entrevista comentada: Guilherme Rossi - Projetos e

No documento São Paulo (páginas 59-70)

1. CAMINHOS DA PESQUISA

1.4 CINCO ARTISTAS-ARTESÃOS E SUAS EXPERIÊNCIAS

1.4.3 Entrevista comentada: Guilherme Rossi - Projetos e

A entrada do atelier de Guilherme Rossi passa por uma marcenaria de bairro,

despertando atenção apenas pela limpeza e organização do local. Situada em uma

rua tranquila no bairro da Pompéia, a localização satisfaz completamente seu

proprietário, que está cercado de muitos outros artistas e artesãos. Após conhecer

todo o espaço, a entrevista foi realizada na sala onde o profissional realiza seus

projetos gráficos. Em certo momento, Guilherme Rossi mostra um vídeo no Youtube

sobre o artesão japonês Masaaki Hiroi, quarta geração de fabricantes de piões:

Amo fazer coisas! [...] Estou sempre pensando em como fazer meus piões girarem um segundo mais. [...] Conquistar o equilíbrio do pião é difícil (...) é preciso ajustar muitas pequenas partes [...] passo dias e dias tentando e não desisto, acordo no meio da noite pensando nisso. [..] O tempo passa tão rápido, gostaria de poder viver duzentos anos, trabalhar mais e fazer um bom trabalho. (Masaaki Hiroi)21

Guilherme Rossi usa o vídeo para afirmar seus planos futuros:

É, esse japonês tá fazendo um por um assim, Gepeto mesmo. Eu falo assim, Leo, quando a gente ficar velho eu fico aqui com a oficina, eu fico com essa, eu abro aqui um guichezinho e você faz o que você quiser, eu vou fazer isso falei pra ele assim, eu vou ficar aqui velho barbudo fazendo brinquedo aqui pra rua, sei lá [...] É, usando os recursos todos [...] Esse é meu desejo, de chegar a ser isso aí, pronto. (Notas de entrevista, p. 64).

O atelier de Guilherme Rossi é composto por duas salas de trabalho, uma ao

lado da outra, além de uma área de armazenamento de material, ferramentas e

máquinas em um andar acima. Na primeira delas o parceiro de Guilherme Rossi, Leo,

trabalhava na montagem de uma grande estrutura, encomenda de um artista, para a

21 Entrevista com Masaaki Hiroi. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=W_-GuJSF8iU, acesso em 01/12/2018.

Bienal. A mesa de trabalho e parte do piso estavam tomados por uma única obra. No

chão, restos de madeira tão cuidadosamente arranjados que quase se pensava ser

uma outra obra.

Figura 21- Atelier de Guilherme Rossi

Fonte: Imagem realizada durante a entrevista

Figura 22- Obra para Bienal/2018 em execução

Na segunda sala, muitos equipamentos. Na bancada de trabalho, um painel

para mesa de som, inteiro em madeira, encomenda de uma casa de shows em Nova

Iorque.

Figura 23- Mesa de som executada por Guilherme Rossi

Fonte: Imagem realizada durante a entrevista

Parte do espaço foi fechado para isolamento do ruído das máquinas e ali

Guilherme Rossi dispôs os computadores para uso de softwares para projetos em 3D.

Essa é uma das principais características da sua forma de trabalhar: em seu atelier a

serra tico-tico convive perfeitamente bem com a máquina de corte de madeira a laser,

uma bem moderna. Serras manuais, lixadeiras e todas as típicas ferramentas de

marceneiro, algumas de ferreiro, outras de ourives, lado a lado com impressora 3D e

softwares para projetos.

Figura 24- Utilização de software de design gráfico por Guilherme Rossi

Fonte: Imagem realizada durante a entrevista

Guilherme Rossi mostrou muito cedo gosto pela criação e execução. A família

não tem relação com as artes, mas localiza um avô ourives. Lembra do pai de um

amigo, com quem gostava de conversar, artista plástico, considerando-o uma

referência. Estudante do Colégio Santa Cruz, ele e um grupo de amigos fundaram,

ainda pequenos, o Centro de Invenções Inúteis. Em uma feira da escola, Guilherme

Rossi apresentou, feita por suas próprias mãos, uma caveira em gesso, que falava,

movida a controle remoto. Aprendeu muito sobre construções com o aeromodelismo

e aproveitava os motores para novas criações. Foi aluno do atelier de tecnologia para

crianças Tempo e Espaço

22

e da Escola de Marcenaria Cose di Legno

23

. Gostava

também do teatro e conta que sempre demonstrou um perfil empreendedor. Na

adolescência comprou uma aparelhagem de som, que alugava para festas. Cursou os

três primeiros anos de Engenharia, mas desistiu. Ainda cursando, fez estágio em uma

fábrica de produtos em ferro, que ainda estava iniciando. Conta que aproveitou muito

do estágio enquanto tudo era novo: “Aí ela (a fábrica) estava em fase de construção

e tinha que inventar muita coisa. Quando entrou pro padrão, pro dia-a-dia, eu espanei

completamente de tudo. Falei: Nossa, não é isso que eu quero fazer!” (Notas de

entrevista, p. 53).Por volta dos 20 anos começou a criar cenários para teatros. Muitos

dos projetos dos quais participou ganharam projeção na mídia e foram premiados. Em

22 Tempo e Espaço atelier de tecnologia. Disponível em http://atelietempoespaco.com.br/, acesso em 02/12/2018 às 12h32

23 Atelier de marcenaria Cose di Legno. Disponível em http://cosedilegno.com.br/, acesso em 02/12/2018 às 12h34.

viagem para Portugal, ao longo de um ano e meio colaborou na realização de

exposições. Iniciou o curso de Arquitetura, mas trabalhando com a cenografia e

viajando com muita frequência, encontrou dificuldades em prosseguir. Conheceu

vários países e ressalta a influência da cultura japonesa na construção de sua

identidade profissional.

O trabalho em cenografia veio ao encontro de uma necessidade pessoal:

Guilherme Rossi não gosta da repetição, seu prazer está em tentar algo novo até a

finalização da obra. Afirma que o desafio da criação é o primeiro motor do processo.

Não gosta de fazer duas vezes a mesma coisa, é movido pela novidade.

O que a gente faz assim, sofre muito, mas tem uma satisfação quando tá pronto, porque tudo é uma peça única, e nunca se repete né? Eu nunca repeti um trabalho na vida. Eu nunca, assim, a não ser assim, faz três iguais, mas de resto eu nunca repeti um trabalho. (Notas de entrevista, p. 54).

“Hoje eu ainda não sei exatamente o que a gente faz, sabe? Se tem um nome

para o que eu faço”, diz (Notas de entrevista, p. 53). Acha que suas produções

transitam entre os saberes do arquiteto e os do engenheiro: “O engenheiro, ele vai

fazer parrudo, sabe? O arquiteto vai fazer mais o miolo, a mecânica falta, então essa

junção de fazer a coisa super estreita funcionar sem barulho”. (Notas de entrevista, p.

54).

Figura 25- Guilherme Rossi e obra em execução

Fonte: Google – site do artista24

O material escolhido para a execução vai se adequar ao projeto idealizado.

Dessa forma, apesar de boa parte das ferramentas e equipamentos do local serem

apropriados para o trabalho em madeira, ele transita entre a resina e o metal, se o

projeto assim pedir. É importante que o resultado final seja o melhor possível e o

material utilizado deve se adequar a isso. Seu parceiro, o Leo, trabalha unicamente

com a madeira e comumente ocupa a primeira sala, adequada para a técnica.

Leo é organizadíssimo com a limpeza e cuidado das ferramentas, Guilherme

Rossi não se sente tão organizado: “Depois eu te mostro o lixo que está saindo de lá,

ele organiza numa coluna direitinho, tipo assim, aquele lixo meio psicológico sabe, eu

te mostro lá, fica bem legal.” (Notas de entrevista, p. 59).

Figura 26- O “lixo psicológico” de Leo

Fonte: Imagem realizada durante a entrevista

Os dois compartilham as mesmas ferramentas e cuidam igualmente da limpeza

e conservação dessas.

Figura 27- Organização das ferramentas no atelier de Guilherme Rossi

Fonte: Imagem realizada durante a entrevista

Guilherme Rossi conta que houve uma grande mudança em sua dinâmica de

trabalho nos últimos anos. Acostumado a procrastinar e varar algumas noites para

finalização dos trabalhos no prazo combinado com os clientes, atualmente o

planejamento resulta em um fluxo mais contínuo, com horários regulares. Apesar

disso, não é incomum passar pelo atelier aos finais de semana, realizando projetos

pessoais.

Para organizar os pedidos de clientes criou juntamente com seu parceiro um

sistema semelhante ao das cozinhas de restaurante. Os pedidos ficam organizados

em pranchetas que ficam penduradas na bancada de forma bem visível. Isso porque

pode ser necessário coordenar até cinco trabalhos ao mesmo tempo.

Não sente ser melhor trabalhar em um horário ou em outro, tanto criação quanto

execução cabem bem em qualquer hora do dia. Mas explica que a execução segue

fluxos: o envolvimento acontece com o corpo inteiro, intercalando dias com maior ou

menor disposição para o trabalho.Também não tem preferência pela criação ou pela

execução, importa-lhe ser desafiado e chegar até a finalização.

Guilherme Rossi conta com uma rede de parceiros: além do Leo, seu sócio com

quem divide a execução dos trabalhos, lembra do fornecedor de madeira, do torneiro

mecânico, do fornecedor de maquinário, não deixando de dizer que aprende muito

com eles. Prefere sempre o pequeno fornecedor, com quem consegue formar uma

rede. Estabelece laços de amizade com seus fornecedores e gosta de indicá-los a

outros: “Eu tento sempre encaixar o pequeno, sempre é assim, as pessoas precisam

me manter vivo, assim você cria um fluxo, um rio.” (Notas de entrevista, p. 64).

Atualmente toda a criação e produção de Guilherme Rossi acontece por

encomenda. Já possui uma carteira de clientes e novos clientes surgem a partir de

indicações. Ficou conhecido entre cenógrafos e artistas como aquele que soluciona

problemas difíceis.

Nesse sentido, há algo a ser modificado para o futuro: ele gostaria de dedicar

mais tempo a suas próprias criações. Entre seus vários planos está a criação e

produção de brinquedos: piões, carrinhos, karaokês, estão na sua mira. Por que

brinquedos? “Ah, é a fantástica fábrica de chocolates, é encantador assim... “ (Notas

de entrevista, p. 63).

Além disso, pai de uma criança pequena, avalia que as crianças

estão sendo muito mal atendidas em suas necessidades.

Figura 28- Brinquedo realizado por Guilherme Rossi

Fonte: Imagem realizada durante a entrevista

Guilherme Rossi aponta para a uma questão que considera mal resolvida no

mundo da arte: a coautoria. Há uma dedicação imensa em, ao receber uma

encomenda, entender aquilo que o artista deseja fazer para tornar-se seu próprio

braço e executar exatamente o que foi idealizado: “A gente aqui quando vai fazer esse

tipo de coisa eu incorporo o cover, então você vai tocar uma música que não é sua,

mas você toma ela pra você [...] eu aposto no vínculo, sabe?” (Notas de entrevista, p.

58 e 59). Há prazer em fazer a correta leitura de uma criação. Às vezes a execução

exata de uma peça, tal qual idealizada, não é possível e cabe-lhe propor soluções

alternativas. Essa forma de trabalhar transforma-o em coautor daquilo que executa.

Muitos artistas reconhecem isso e lhe dão créditos de coautoria, outros não.

Guilherme Rossi ressalta como isso é um problema muito mal resolvido dentro do

mundo da criação artística, especialmente no Brasil.

Convidado a relembrar o processo de criação de uma peça, da concepção até

o resultado final, Guilherme Rossi não demorou nada para fazer sua escolha. Ele

conta que uma empresa do ramo farmacêutico japonesa solicitou a ele a execução de

uma escultura em estrutura vazada de um tsuru

25

. O cliente deixou-lhe a liberdade de

escolha do material, definindo apenas o tamanho da obra e o local onde esta ficaria.

A primeira ação de Guilherme Rossi foi almoçar no seu restaurante japonês

favorito, pedindo a uma das proprietárias que lhe fizesse um tsuru. Com o tsuru em

25 Tsuru: considerada uma ave sagrada no Japão, símbolo de longevidade. Podem ser elaborados com a técnica de dobradura de papel e oferecidos, desejando longevidade àquele que a recebe.

mãos e com a ajuda de um software de desenho, Guilherme Rossi projetou a escultura

vazada nas medidas solicitadas pelo cliente. Os vários triângulos que compunham as

partes do tsuru foram transformadas em gabaritos, no tamanho desejado. Guilherme

Rossi optou pela confecção em metal tubular. Com o projeto pronto, em apenas uma

manhã de trabalho soldou as peças, primeiramente compondo separadamente todos

os planos do tsuru com a ajuda dos gabaritos para finalmente unir todos estes na peça

final.

Guilherme Rossi escolheu descrever essa obra por alguns motivos: apesar de

ser uma encomenda bem específica, sentiu que havia liberdade na criação. Gostou

muito da ideia de ter o primeiro modelo feito por pessoas por quem tem afeto. O papel

moldado por uma amiga transformou-se em um modelo sofisticado feito com

tecnologia de ponta:

Teve essa questão do analógico e do tecnológico [...] Aí então teve essa questão de eu ir buscar uma referência real né, nesse lugar que eu gosto muito, e aí eu passei pro 3D, a parte mais moderna [...] mas teve essa questão de usar a ourivesaria, usei soldas de ourivesaria mesmo, a parte mais antiga, e ir no restaurante, pegar a referência...(Notas de entrevista, p. 65, 66).

A montagem foi desafiante, exigiu bom planejamento e pôde executar a peça

toda com suas próprias mãos. O cliente ficou muito satisfeito, a obra era exatamente

o que havia sido imaginado, tanto por ele quanto pelo seu autor.

Figura 29- Projeto do tsuru realizado por Guilherme Rossi

Figura 30- Projeto realizado por Guilherme Rossi

Fonte: Imagem cedida pelo artista

Figura 31- Projeto realizado por Guilherme Rossi

Figura 32- Projeto realizado por Guilherme Rossi

Fonte: Imagem cedida pelo artista

No documento São Paulo (páginas 59-70)