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SOBRE ARTE E ARTESANATO, SOBRE OBRA E TRABALHO

No documento São Paulo (páginas 103-110)

Mesmo se toda uma civilização estiver morta duas testemunhas subsistirão para atestar a qualidade e os valores da vida que um dia houve: a arte e a técnica. (LEROI-GOURHAN, 1943, p. 7).

A definição adotada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a

Ciência e a Cultura, UNESCO, exposta no International Symposium on Crafts and

International Markets, em 1997, define como artesanato:

Produtos artesanais são aqueles confeccionados por artesãos, seja totalmente à mão, com uso de ferramentas ou até mesmo por meios eletrônicos, desde que a contribuição direta manual do artesão permaneça como componente mais substancial do produto acabado. Essas peças são produzidas sem restrição em termo de quantidade e com uso de matérias-primas de recursos sustentáveis. A natureza especial dos produtos artesanais deriva de suas características distintas, que podem ser utilitárias, estéticas, artísticas, criativas, de caráter cultural e simbólicas e significativas do ponto de vista social. (UNESCO apud HELD, 2016)

A palavra artesão é de origem latina e tem a mesma raiz da palavra arte, ars.

No seu significado original, ars significou habilidade técnica, ou habilidade natural ou

adquirida, ou capacidade de fazer alguma coisa. Posteriormente, ganhou a

significação de Arte como a compreendemos hoje. O substantivo italiano Artigiano

origem a artesão, aquele que exerce atividades mecânicas ou decorativas. Vê-se, na

origem da palavra, a direta associação entre o artesão e uma técnica, mas também

entre artesão e arte, usados indistintamente.

O artesanato é o produto do trabalho, a obra em si, união da técnica, da ação

do homem e dos meios – matéria-prima e utensílio. Na origem da palavra temos Ars

+ ato, ou a arte levada ao ato.

Por sua vez, as palavras tecnologia e técnica vem do grego téchne, que

significa arte e técnica, indistintamente, ou também um conjunto de procedimentos

que têm por objetivo obter um resultado. O grego clássico diferenciava téchne, práxis

e episteme. A práxis estaria associada aos saberes cotidianos e usuais e episteme,

associada aos saberes da ciência. Textos gregos pré-aristotélicos faziam uso das

palavras téchne e episteme como sinônimos. Apenas a partir de Aristóteles a distinção

foi feita, utilizando téchne para saberes de aplicação prática bem definidos e episteme

para saberes que levam a aplicações menos pragmáticas. (PUENTES, SD, p. 130).

Também foi Aristóteles que em Metafísica marcou uma nova forma de

denominar o artesão, em relação ao período arcaico grego

28

. Antes chamados

demiurgos – sendo demios = público e ergos = produtivos – em alusão a uma

produção que carrega valores e funções eminentemente sociais, passa-se a

denominá-los simplesmente cheirotechnon – trabalhador manual. (SENNETT, 2013,

p. 33).

Na língua inglesa, a palavra craft é utilizada em mais de um contexto. Além de

significar artesanato, ou mesmo arte, como verbo ela significa executar ou fazer.

Surge ainda no sentido de projetar, elaborar ou arquitetar

29

. Curiosamente, também

aparece para denominar embarcação ou nave espacial

30

, talvez por serem ambos

artefatos construídos pelo homem, ou, quem sabe, porque assim se associa a palavra

craft a um meio para se atravessar de um lugar a outro.

31

Em alemão, para a palavra artesanato utiliza-se a palavra handwerk, sendo

hand para mão e werk para obra. Na tradução, obra feita pela mão. O artesão é o

handwerker, ou obreiro, aquele que produz a obra com as mãos

32

.

Apesar do radical das palavras arte e artesanato terem origens comuns,

distinções de diversas ordens têm sido feitas, sendo o artesanato muito mais

associado à produção de peças com utilidade específica e, a arte, associada ao

processo criativo e à exclusividade da obra produzida. Tal distinção absolutamente

não acontecia nas primeiras culturas da humanidade, quando as peças produzidas

para uso cotidiano carregavam em si belos adornos que, inclusive, identificavam a

cultura daquele que as fez. Nas sociedades que precederam a atual, beleza e

utilidade, criação e execução, andavam de mãos dadas.

28 Período arcaico grego: de VIII a VI a.C. Período clássico grego: de V a.C a IV a.C.

29 The manager crafted a plan: O gerente elaborou (ou arquitetou) um plano.

The employees will craft and implement: Os empregados vão projetar e implementar.

30 The craft is crossing the river: A embarcação está atravessando o rio.

The crew boarded the small aircraft: A tripulação embarcou na pequena aeronave.

31 Fonte: The American Heritage Dictionary of the English language.

32 Fonte: Google Tradutor:

https://www.google.com.br/search?q=tradutor&oq=tradu&aqs=chrome.0.0j69i60j69i57j0l3.4583j0j7&sourcei d=chrome&ie=UTF-8

Mário de Andrade

33

, em O Baile das quatro artes dedica um capítulo para

discutir as relações entre o artista e o artesão. Para ele, todo bom artista é também

um artesão:

Artista que não seja ao mesmo tempo artesão, ou seja, artista que não conheça perfeitamente os processos, as exigências, os segredos do material que vai mover, não é que não possa ser artista (psicologicamente pode), mas não pode fazer obras de arte dignas desse nome. Artista que não seja bom artesão, não é que não possa ser artista: simplesmente ele não é artista bom. E desde que vá se tornando verdadeiramente artista, é porque concomitantemente está se tornando artesão. (ANDRADE, 2005, p. 12).

A definição de Andrade aproxima-se bastante da própria definição original da

palavra artesanato: arte + ato. Ele enxerga no conhecimento da matéria e da técnica

um pré-requisito para a boa criação.

O trabalho artesão remete frequentemente às corporações de ofício da idade

média, onde toda uma equipe estava reunida em função da execução de peças que

exigem técnica e material específicos. À execução de uma obra está associada uma

intenção, no projeto e na realização. No projeto vislumbra-se um objeto ainda

inexistente, em um ato de contemplação. Na execução, cada ponto da costureira no

tecido, cada martelada do marceneiro na madeira objetiva obter uma centelha daquilo

que foi vislumbrado.

O historiador de arte francês Henri Focillon (1881-1943), em seu livro Vida das

formas, ergue toda a estrutura de seu pensamento sobre os fazeres do homem em

cima da ideia de que a criação é ato de dar forma a algo. Mais tarde, a artista plástica

brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001) ratificará esse conceito:

“Criar corresponde a um formar, um dar forma a alguma coisa. Sejam quais forem os

modos e os meios, ao se criar algo, sempre se ordena e se configura”. (OSTROWER,

2014, p. 5).

Focillon defende que as formas que vivem no espaço e na matéria, vivem antes

no espírito, sendo que aquilo que se manifesta externamente é apenas o vestígio do

processo interno (FOCILLON, 1983, p. 87). No entanto, para este autor o que define

o artista não é necessariamente o fato dele possuir um mundo imaginativo farto.

Também não são aqueles que contam com uma memória prodigiosa para resgatar

lembranças e experiências que lhes sirvam à criação. Muitos são os indivíduos com

enorme capacidade imaginativa e memória invejável, mas em grande parte dos casos

são imaginações que se contentam com os devaneios e memórias que ficam imersas

no crepúsculo da consciência. Pode haver até uma ideia de técnica contida nesta

imaginação, mas ela surgirá como uma medida em si mesmo, poderosa apenas em

sonho. A forma do espírito que caracteriza o universo do artista, para Focillon, é

justamente aquela que quer dirigir-se à ação, quer ser externalizada: sonhadores,

idealizadores, muitos são, mas no artista a forma ultrapassa o domínio do espírito para

a vida no espaço (FOCILLON, 1983, p. 91). A partir dessa linha de pensamento, o

historiador da arte poetiza ao cogitar que talvez todos sejamos artistas sem mãos,

mas que “através delas o homem entra em contato com a solidez de seu pensamento.

Elas a liberam. Impõem-lhe uma forma, um contorno. (FOCILLON, 1983, p. 126).

Elvira Schuartz transforma essa mesma ideia em metáfora: “Criar é colocar nuvens

dentro de caixas”. (SCHUARTZ, 2006, p. 86).

Importante resgatar na frase acima que Focillon fala do objeto criado como

“vestígio do processo interno”. No mesmo livro ele afirma que no momento da

concepção o artista estará embebido de vida” (FOCILLON, 1983, p. 93). Parece haver

na concepção do historiador algo da ideia platônica, afirmando a vitalidade dos

processos enquanto ainda não materializados. No entanto, o mesmo autor pede ao

leitor que não se engane ao observar a massa característica da matéria,

imaginando-a inerte ou sem vidimaginando-a. Em todimaginando-a mimaginando-atériimaginando-a, imaginando-afirmimaginando-a ele, há vidimaginando-a e movimento, estruturimaginando-a e

ação que lhe são inerentes (FOCILLON, 1983, p. 67). A aproximação de Focillon com

as concepções gregas é apenas inicial. Não há desprezo pelos fazeres, mas ao

contrário, uma valorização da capacidade de trazer do mundo do espírito para a

matéria.

O objetivo final do artista e do artesão é sempre transformador, produzindo algo

que perdura no tempo e que deixa rastros para a história que se escreve.

Foi levando em consideração a ideia da durabilidade das criações humanas e

sua materialidade que a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) no livro A condição

humana (Cf. 2015), lançado em 1958, segmentou as ações humanas – que ela

chamou de vida activa – em três diferentes categorias: trabalho, obra e ação.

Denominou trabalho todas as atividades voltadas para a sobrevivência, a produção

para garantia da própria existência. São produtos de vida curta - ou serão consumidos

pelo homem, ou perecerão por si só, retornando à natureza. Eles atendem aos

processos vitais humanos – que se organizam em ciclos – e têm, eles próprios, esse

caráter cíclico – são produzidos, consumidos, retornam à natureza e assim o processo

recomeça – o contínuo devir dos processos circulatórios. O trabalho executado pelo

homem atesta um tanto mais sobre a sua inteligência, em relação aos outros reinos

da natureza, mas não necessariamente o diferencia do animal, que luta igualmente

pela garantia de sua existência diariamente. O processo cíclico nos associa ao mundo,

à natureza, e faz do homem parte da grande estrutura natural. O que se produz traz,

em si, movimento e vida, mas não objetividade. Com esse tipo de produção o homem

não deixa legado.

A obra, na perspectiva de Arendt (Cf. 2015), nasceu na humanidade com as

primeiras ferramentas, os primeiros objetos que não são consumidos, mas que

perduram. Esses objetos criam o mundo dos homens, transformando o homo laborans

em homo faber. Essa produção o redime de sua categoria animal, definindo um

espaço de diferenciação. A obra traça a história do homem, e por si só diz sobre o que

as culturas quiseram, tiveram recursos ou foram capazes de fazer.” A obra e seu

produto, o artefato humano, conferem uma medida de permanência e durabilidade à

futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do tempo humano” (ARENDT, 2015,

p.11). Enquanto o trabalho traz ao homem o eterno movimento e manutenção da

ordem do mundo natural, a obra objetiva, traz concretude, cria história.

A obra também se diferencia na sua forma de consecução. Tanto Aristóteles

(Cf. 1995) quanto Arendt lembram da diferença entre o fazer antecedido pela atividade

intencional e o fazer automático. O fazer intencional é característico do homo faber e

sua atividade envolve a contemplação clara de um produto final, assim como o silêncio

em partes importantes de sua feitura. No trabalho artesão, em algum momento é

necessário estar a sós com a ideia. Não é à toa que o economista alemão Karl Bucher

(1847-1930), um dos fundadores da economia não mercantil, aponta que há cantos

de trabalho, mas não cantos de obra. A filosofia grega clássica, mesmo em seu

desprezo pelo trabalho artesão, conseguiu perceber que ela carrega em si a vida

contemplativa – a obra surge ao artesão antes que ele a execute. No entanto, para

esse grego seria preferível que a visão tivesse quedado apenas na ideia original. Sua

transposição para o mundo material liquida a verdadeira criação, faz varrer a

verdadeira obra. Para Platão, o olho interno que visualiza a obra não está criando,

mas apenas recebendo algo que lhe é dado. Esta idealização estará sujeita à

deterioração logo que se materializar. Em ideia, é eterna. Deixar a obra sem execução

seria participar de sua eternidade, viva nos olhos da mente. Mais tarde, na Idade

Média, um tanto da mesma concepção platônica vigorou:

Pelo que lemos de fontes medievais sobre as alegrias e deleites da contemplação, parece que os filósofos queriam assegurar que o homo

faber lhes ouvisse o apelo e arriasse os braços, percebendo afinal que

o seu maior desejo, o desejo de permanência e imortalidade, não pode ser satisfeito por seus feitos, mas somente quando se compreende que o belo e o eterno não podem ser fabricados. (ARENDT, 2015, p. 376).

Há ainda a ideia de vida no mundo do pensamento, que se perde com a

materialização da obra. Em pensamento, estão presentes movimento e vitalidade. No

olhar grego, uma vez materializado, morto está.

O terceiro elemento da vida activa seria a ação. Na concepção de Hannah

Arendt (Cf. 2015) a ação é basicamente atividade sem uso da matéria, como a

linguagem falada, por exemplo. Trata-se de pura vida, puro espírito que elabora, puro

movimento interno. Se quisermos que a palavra se transforme em obra, temos que,

com a mão, escrever, documentar. E então teremos palavra morta. A ação também

se caracteriza pela sua incontrolabilidade. Temos liberdade para falar e agir, mas não

conhecemos as verdadeiras consequências de nossas ações, nem podemos

remediá-las uma vez executadas. Na ação existe liberdade, mas não soberania.

A grande discussão de Arendt em A condição humana (Cf. 2015) acontece com

a constatação de que esse caráter efêmero do trabalho e o duradouro da obra se

confundem quando o homem se torna consumidor voraz de obras, transformando obra

em trabalho. Arendt fala, portanto, da vitória do homo laborans sobre o homo faber.

Temos que consumir, devorar, por assim dizer, nossas casas, nossa mobília, nossos carros, como se esses fossem as “coisas boas” da natureza que se deteriorariam inaproveitadas se não fossem arrastadas rapidamente para o ciclo interminável do metabolismo do homem com a natureza. É como se houvéssemos rompido à força as fronteiras distintivas que protegiam o mundo, o artifício humano, da natureza, tanto o processo biológico que procede dentro dele quanto os processos naturais cíclicos que o rodeiam [...] Os ideais do homo

faber, fabricante do mundo, que são a permanência, a estabilidade e

a durabilidade foram sacrificadas à abundância, o ideal do animal

A Revolução Industrial com suas necessidades de economia de escala

transformou, para Arendt, toda a obra em trabalho, cujo destino deixa de ser o uso, e

sim, o consumo. E o trabalho diferenciado do artesão, aquele que contemplou a obra

em ideia para trazê-la ao mundo, passa a ser, então, necessário apenas na construção

dos protótipos, antes de ingressarem na produção em massa.

Para Arendt (Cf. 2015), a partir dessa massificação a única peça feita pelas

mãos humanas valorizada pela sociedade é a obra de arte, que se caracteriza

justamente pela não necessidade de utilidade. O artista assumiu para si a nobreza do

processo criativo e o artesão foi reduzido a operário, produtor em série.

Voltando à definição original da palavra artesanato, arte, artesão e artista,

percebe-se nas discussões acerca das definições de arte feitas nas últimas décadas,

a gradativa cisão que distancia técnica e arte, razão e sensibilidade, que promoveu

igual distinção entre a atividade produtiva e o prazer.

Ao longo da história, muros muito bem erguidos apartam de um lado o ofício,

do outro a satisfação, como inconciliáveis. Em lados diferentes também foram

dispostas as atividades criativas e as atividades executoras, a primeira vinculada ao

mais nobre do ser humano, a segunda associada ao fardo, o que remete à concepção

de trabalho como castigo, à “queda do Paraíso”:

Ao homem ele disse:

“Porque escutaste a voz de tua mulher

e comeste da árvore que eu te proibira comer, maldito é o solo por causa de ti!

Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida.

Ele produzirá para ti espinhos e cardos, e comerás a erva dos campos.

Com o suor do teu rosto comerás teu pão

até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó

e ao pó retornarás.” (GÊNESIS, 3, 17-19)

O olhar mais apurado certamente questionará se tais muros são reais ou

imaginários, dogmas da cultura. Pergunta-se, em consequência, que atividades

carregam em si a possibilidade da liberdade de criação? Pode-se estabelecer uma

relação tão direta entre uma atividade e prazer ou desprazer? São as atividades que

carregam essa possibilidade ou a disposição interna que a carrega?

No documento São Paulo (páginas 103-110)