Local: Residência designada, região de Etyakt
— Podemos ser rápidos com isso, Rose? Eva quer dar uma volta, e prefiro que ela não vá lá fora sozinha.
— Não vai demorar. Só quero manter um registro desse nosso tempo aqui, caso a gente vá embora logo. Você se importa?
— Não, tudo bem. Vai! Vai! Vamos conversar.
— Então… O que você pode nos dizer a respeito deste lugar?
— Enatast me disse que essa é uma zona residencial, na região de Etyakt. Não sei para que servem essas casas, mas, segundo ele, podemos ficar aqui enquanto estivermos no planeta. É um lugar bonito, cheio de árvores. Árvores esquisitas, alienígenas.
— Não são tão esquisitas assim. Na verdade, até me surpreende que as coisas não sejam tão estranhas por aqui. Digo, claro, é tudo diferente, mas ao mesmo tempo parece…
— Não diferente?
— Há casas, para início de conversa, e ruas, bairros. Eles têm um governo. Parte disso tudo faz sentido. Esses alienígenas passaram alguns milhares de anos na Terra, bem perto do que era o epicentro de nossa civilização. É possível que a influência deles sobre nós seja maior que imaginamos… Não diga a eles que eu admiti isso.
Mas há algumas coisas aqui que eu realmente não esperava encontrar. Veja só como a vegetação deles é parecida com a nossa.
— Rose, eu vi com meus próprios olhos. Você conhecia alguma árvore com o caule multicolorido?
— Sim. O eucalipto-arco-íris, acho que é esse o nome. A casca é exatamente assim. Agora, se você quer saber, acho a rua bem mais estranha. Aquela areia preta, parece algo vulcânico. Eu me pergunto se todas as ruas são assim.
— Você pode dar uma volta por aí, sabe? Não queria conhecer mais desse lugar? Pois aí está a sua chance.
— Sabemos se é seguro?
— Duvido que eles nos colocariam bem no meio de uma zona de guerra, Rose. Não há guardas na porta.
— Eu vi uma passando aqui em frente hoje mais cedo. O uniforme era diferente, mas ela estava armada.
— Governo diferente. Sei que eles chamam de “regiões”… Bom, na verdade eu chamo de “regiões”, eles chamam de etyeks. Significa
“parte de alguma coisa”, mas é basicamente como um país, pelo que eu consegui entender. Regras diferentes… tudo diferente.
Estávamos na região de Osk antes, e essa fica mais ao sul. E, quando eu digo “sul”, digo a parte mais baixa no mapa que Enatast me mostrou. Não sei se existe mesmo um sul.
— Vincent, esse Ena…
— O nome dele é Enatast.
— Esse Enatast explicou por que estamos aqui?
— Ele disse que estaríamos mais confortáveis aqui.
— E mencionou quando vamos embora?
— Disse que não sabe.
— Você acredita nele? Nós deveríamos ter ido embora logo no começo, e já estamos aqui há dias.
— Se acredito que ele não sabe quando vamos embora? Sim, acredito. Tenho certeza de que ele sabe o motivo de tanta demora, mas isso ele não quer me dizer.
— Tenho a sensação de que vamos continuar aqui por um bom tempo.
— Por quê?
— Eles nos deram um lugar para morar, Vincent. Parece bastante trabalho para quem quer nos hospedar só por mais algumas noites.
Poderíamos ter ficado no complexo onde estávamos presos antes.
— Não sei. Enatast diz que vamos embora logo. Ele certamente está me escondendo um monte de coisas, em parte porque não entendo nem metade do que ele diz. No entanto, não acho que ele tenha motivos para mentir para nós. Ele tem se saído bem, até. Já consegue pronunciar os dês direitinho, bem, quase, e os erres também. Ele grunhe os dois. Continua enchendo tudo de vogais, mas cada vez ficam mais sutis.
— Ele tem razão sobre uma coisa: aqui é mesmo bem mais confortável.
— Você gostou, não é?
— Só disse que é mais confortável.
— Não estou falando só da casa. Você gostou daqui, deste planeta.
— É um pouco assustador, mas, sim, gostei. É um mundo completamente diferente. Você não está nem um pouquinho animado?
— Parece muito com Havana, para mim. Sem as janelas.
— Nunca estive em Cuba.
— Desculpa, esqueci que vocês antes não podiam viajar para lá.
Passei algumas férias em Cuba. Por quinhentos dólares, dava para pegar um resort com tudo incluído, até bebida. De qualquer forma, parece com isso aqui. Arquitetura espanhola, ornamentos, cores fortes. A diferença é que Havana está caindo aos pedaços. Olhando da rua, é tudo lindo. Mas de um terraço, parece Beirute. Buracos vazios por toda a parte. Este lugar aqui está em ótimo estado.
— E vazio.
— Não precisamos esquentar com os vizinhos.
— Não é apenas no nosso quarteirão, Vincent. Eugene e eu fomos lá fora. Não vimos ninguém, em lugar nenhum.
— Parece que tem um mercado para aquele lado, a uns vinte minutos de caminhada. Enatast disse que há pessoas vivendo do outro lado.
— Certo, mas não acha estranho que haja tantas casas vazias assim, por quilômetros a fio? Além disso, não há… carros, veículos.
— Também não havia onde nos colocaram antes. Percebi isso quando saímos de lá. Talvez eles… se teletransportem de um lugar para outro, sempre que não conseguem ir a pé. E, sim, claro que é estranho. Tudo aqui é estranho. Já experimentou usar o banheiro?
— Já.
— Você conseguiu apoiar as pernas no chão?
— Não, elas ficaram suspensas. Mas entendi a ideia. As pernas deles dobram mais embaixo também, e eles têm essas juntas extras. Assim, o povo daqui consegue colocar os pés no chão.
— E você…
— Vincent, a gente não precisa falar de banheiro…
— Eu sei, mas o meu…
— Eu sei. Eu sei. Por que não pergunta a respeito de todas essas casas vazias na próxima vez que falar com ele?
— Claro. Mas, sério, Rose: que diferença faz, se vamos para casa?
— Só estou curiosa.
— E? Vamos lá, eu sei que você está com alguma outra coisa na cabeça.
— Eu…
— O quê? Pode falar.
— Eu acho que a gente não vai voltar para casa.
— Ah, mas vamos, sim, Rose. Não me importa se você prefere ficar aqui. Nós vamos para casa.
— Eu não disse que não quero ir embora. Só acho que eles não vão mandar a gente de volta.
— Mas, se eles forem mandar, você prefere ficar mais um pouquinho antes de ir. Não é?
— E isso é tão ruim assim? Estamos em outro planeta, Vincent.
Outro planeta!
— Bom, me desculpe, mas espero de todo coração que você não consiga o que está querendo.
— Compreendo. Mas imagine só por um minuto que tenhamos mesmo que ficar mais um tempo aqui. Não vai querer aproveitar ao máximo?
— Rose, não quero que me entenda mal, mas pretendo deixar isso bem claro para você. Não me importa o que vai acontecer comigo, com Eugene… ou com você. Não estou nem aí se vamos sobreviver ou não. Sinto muito em dizer isso… Vou levar minha filha para casa.
— Eu sei que você quer protegê-la.
— Não é só isso. Vou levar Eva de volta para a Terra.
— Ela poderia ser feliz aqui, sabe?
— Você poderia ser feliz aqui.
— Estou surpresa, Vincent. Achava que sua parte cientista ficaria mais animada com isso tudo. Somos os primeiros seres humanos a colocar os pés em outro planeta. Isso é uma oportunidade… que a palavra “única” não chega nem perto de descrever. É algo que vale uma vida inteira. Podemos aprender tanto com essas pessoas, aproveitar nosso tempo aqui para compreender como essa sociedade funciona.
— E de que adianta, se não pudermos contar a ninguém?
— Você pensa mesmo assim, Vincent? Parece outra pessoa falando.
— Talvez eu esteja ficando velho.
— Vincent, nós temos a mesma idade.
— Temos, não é? Sempre acho que você é mais velha que eu, porque… Bom, porque você era mesmo mais velha que eu antes.
Mas tem razão, eu deveria estar superanimado com isso tudo. Só que não estou.
— Você deveria tentar fazer…
— Nunca comprei roupas para ela.
— O quê?
— Eva. Nunca comprei roupas para ela. Nunca comprei um brinquedo, um chiclete. Nunca fui comer panquecas com ela em um domingo de manhã, nunca a ajudei com o dever de casa.
— Essas são coisas que você nunca fez. Tem certeza de que isso diz respeito a Eva?
— Talvez você tenha razão. Talvez eu esteja sendo egoísta. Quero que ela tenha… Quero dar a ela algo que pelo menos pareça normal. Quero deixar esse legado para ela. Acho que Eva merece isso. Além do mais, você fala como se ficar aqui fosse uma opção, como se mudar para a França, algo assim. Acontece que não é. Eva não vai ter um baile de formatura com as coleguinhas alienígenas.
Aqui não é um lugar seguro, Rose. Nem para nós, nem para ela.
Você está agindo como um cientista olhando dentro da cratera de um vulcão ativo. É bem legal, e tal, mas não pretendo criar minha filha assim tão perto da lava só para satisfazer sua curiosidade científica.