Local: Residência designada, região de Etyakt
— Podemos comer o bolo, pai?
— Eu estava esperando Eugene chegar…
[Ele não vem. Não está se sentindo muito bem.]
De novo? Bom, sobra mais bolo para nós! Sinto muito não ter encontrado velinhas. Catorze anos! Só quero dizer o quanto fico feliz em ter passado esses últimos quatro anos com você, ainda que preferisse tê-los passado na Terra. Ver você crescendo, se tornando uma adolescente rebelde, foi… pura tortura. Fico feliz de verdade que não haja roupas pretas aqui neste planeta, ou com certeza você teria vindo com essa história de ser gótica para cima de mim. Ah, e
um grande obrigado ao Itit, do mercado, que finalmente conseguiu recarregar as baterias dos nossos gravadores.
— Eu não sou rebelde.
— Bom, você sai sozinha de casa, fala com outras pessoas. Isso já é ser rebelde. Esok disse que você passa bastante tempo com um aprendiz de guarda. Qual é o nome dele?
— Ekim. E nós somos apenas amigos!
— É, bom, espero que sim. Ele tem, tipo, uns vinte anos.
— Eles envelhecem superdevagar! Ele é mais novo que eu!
— Então é jovem demais para você. Espera… Não foi isso que eu quis dizer.
— O que, então, você quer dizer?
— Quero dizer que… Quero dizer que você deveria ficar aqui.
Nunca sair de casa, ou fazer… qualquer coisa. E, não importa o que aconteça, nunca, nunca apareça aqui com um namorado.
[Eu quero conhecê-lo! Traga ele aqui, um dia! ]
Obrigado, Rose… E isso foi sarcasmo, diga-se de passagem. Já basta você ter me convencido a deixar Eva arrumar um emprego.
Prefiro deixar essa coisa de namorado quieta por enquanto. SR.
YOTYOT! Saia já da mesa!
[Ela está ajudando as pessoas, Vincent, dando comida. Você deveria se orgulhar.]
— Será que vocês dois poderiam parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui?
— Ei, você viu a Eva? Sabe, aquela esquisitinha?
— Muito engraçado, pai. E olha só quem fala: eu vi bem o jeito que você olha para a Esok.
— Eu uso os meus olhos. É assim que eu olho para a Esok. Se não fosse com os olhos, eu não olharia.
— Tudo bem, pai! Ela gosta de você. Eu e ela somos amigas. É perfeito.
— Por que não falamos de outra coisa? Liga a parede, por favor.
Não dá para enxergar nada, aqui.
[Você acabou de pedir para “ligar a parede”?]
— É, ele pediu. É assim que ele fala há quatro anos. Nunca percebeu? Diminui a parede. Desliga a parede.
— Tá vendo o que eu tenho que aguentar, Rose? Somos as únicas pessoas neste planeta inteiro que falam a nossa língua, e, ainda assim, minha própria filha debocha do meu jeito de falar. Como você fala desse negócio da parede, Rose?
[Deixa mais luz entrar?]
Ah, você é tão esperta. Vamos comer aquele bolo!
[Eva, me conta como é na cozinha do posto de distribuição de sopa.
O que eles mandam você fazer por lá?]
— Não tem muita coisa para contar. É uma cozinha para fazer sopa.
Eu mexo as panelas, distribuo umas tigelas de sopa.
— Quantas pessoas recebem comida por dia?
— Não sei. Centenas. Mil. Um monte.
[Como é que pode? Todos recebem a mesma porção de comida.
Você viu quanto dão para a gente. Dá para comer o dobro e ainda assim sobraria um pouco.]
Onde você esteve nos últimos quatro anos, Rose? Metade dessas pessoas nem sequer existe. Elas não recebem nada. Os filhos delas não recebem nada. Seus netos não vão receber nada. E isso só vai piorar, a não ser que deem um jeito de se livrar daquele Conselho idiota.
— Eva. Alguém pode escutar você.
— Eles são do mal, pai! Todo mundo aqui odeia o Conselho.
— Estou falando sério, Eva.
— Não passam de um bando de racistas de merda.
— São os únicos que podem nos ajudar.
— Você disse que eles não decidiram ainda. Já se passaram quatro anos, e eles não conseguem chegar a um consenso! Não vão fazer nada, nunca.
— Vão, sim. Vão mandar a gente de volta para casa. São os únicos que podem fazer isso. Você quer ir para casa, não quer?
— …
— Eva?
— Sim, quero. Mas o jeito que eles tratam as pessoas, as que não são cem por cento Ekt, é errado. Alguém precisa acabar com isso.
— Sei que você não gosta deles, Eva. Só estou pedindo que você tome cuidado com o que diz em público. A última coisa que
queremos é arranjar ainda mais problema do que já temos. Eles já colocam a culpa dos protestos em nós.
— Você sabia que o povo de Esok está morrendo?
— Eu não sabia que ela ainda tinha família.
— E não tem. No planeta de onde ela vem. Eles estão morrendo.
Todos eles.
— Esok nasceu aqui.
— Larga de ser babaca, pai. Eles poderiam curá-los, sabia?
Poderiam. É, tipo, megafácil, aparentemente. Mas o Conselho não vai fazer nada. Vão deixar um planeta inteiro morrer.
[Existe uma lei impedindo que eles interfiram, Eva.]
— Rose, acho que você não vai querer entrar nessa discussão. Eva tem… uma opinião bem forte a respeito desses grandes princípios dos Ekt. Não quero brigas no dia do aniversário dela. Além do mais, tudo isso é mais ou menos sua culpa.
[Minha culpa?]
De onde você acha que ela tirou essas ideias todas? Com certeza não foi de mim.
[Você acha que eu…]
Não, não acho. Você adora o Conselho. Foi você que…
[Eu não…]
Ainda não terminei. Foi você que me convenceu a deixar Eva trabalhar na cozinha do posto de distribuição de sopa. Aquele lugar está repleto de alienígenas morrendo de fome, a maioria com um
monte de filhos ilegais para alimentar. Não é lá uma grande concentração de aliados do Conselho.
[Não pensei nisso. Sinto muito.]
Ei, não é você que diz a eles quantos filhos podem ou não ter.
[Os Ekt não têm muitos filhos. Estão tentando manter um equilíbrio entre…]
— Estão tentando erradicar essas pessoas!
[Isso não é…]
Ah, fala sério, Rose!
— Sinto dizer que Eva pegou você nessa, Rose. Não é uma questão de opinião política, mas de matemática. Uma criança por pessoa. Se eles se reproduzirem como nós, humanos, o número de crianças cai pela metade a cada geração. Essas pessoas não estariam mais aqui, se tivessem seguido as regras.
— Por que você continua defendendo o Conselho, Rose?
[Eu não estou defen… Talvez eu esteja. Só acho que não é tão simples quanto parece. Eles não tiraram simplesmente esses princípios da cartola. Há toda uma história por trás disso, há uma razão. Concordo que pode até haver consequências…]
“Pode até”?
[Certo, concordo que há consequências, mas os Ekt são muito mais que essa política de não interferência. O que eles têm aqui é o mais próximo de uma estrita democracia que eu já vi. Decidem tudo no voto, desde a cor dos postes de luz até as prioridades das
pesquisas médicas. Essas pessoas têm mais controle sobre a própria vida do que nós jamais tivemos na Terra.]
— Certo, Rose, já chega.
[Eu só…]
Eu sei, eu sei. Vamos mudar de assunto.
— Chega para mim. Vejo vocês mais tarde.
[O quê? Por quê?]
— Eva, por favor! É seu aniversário!
— Guarda um pouco de bolo para mim, tá?
— Eva! Volta já para dentro!
[Vincent, eu sinto muito. Não sei nem o que dizer.]
Tudo bem, Rose. Ela é… Ela é…
[Ela é o quê?]
Ela é uma adolescente sem a mãe. Está tentando entender como funciona o mundo ao redor. O problema é que esse não é o mundo dela. É… E ela tem razão, sabia?
[Razão sobre o quê?]
Parece mesmo que fizeram uma lavagem cerebral em você. “Estrita democracia”?
[Eu disse “o mais próximo de”.]
Certo, então você entende de física. Se morássemos aqui, oficialmente, você poderia votar em tudo que tivesse a ver com física. Se fosse uma perita em insetos, votaria nas coisas de
insetos. Poderia, além disso, votar nos assuntos mais cotidianos, esses que não exigem nenhum conhecimento muito específico. No entanto, você precisaria saber do que está falando, caso fosse votar nas coisas realmente importantes.
[Não vejo como isso pode ser ruim.]
Mas quem decide se você sabe ou não do que está falando?
[Existem comitês, que distribuem as credenciais.]
E quem escolhe os participantes desse comitê?
[Os próprios comitês escolhem seus membros. Eles…]
Agora você está começando a entender. Se você vive em Osk e sua pele não tem o tom considerado adequado, seu único direito a voto é para escolher um local para plantar árvores. As pessoas aqui até podem entrar nos comitês, e tal, mas as políticas que de fato afetam a vida da população, qualquer coisa que tenha a ver com os descendentes de alienígenas, bom, nada disso é decidido localmente. Acha mesmo que há alguém com a aparência da Esok no Grande Conselho de Akitast? Acha que haverá, um dia?
[Você está me dizendo que o sistema é manipulado contra eles.]
Não, eles mesmos é que estão dizendo que o sistema é manipulado contra eles. Eu estou dizendo que eles nem sequer fazem parte do sistema, pelo menos não de forma relevante. Venderam uma ilusão de democracia. E eles compraram. Não querem se livrar do sistema, querem apenas mais representatividade. Não percebem que a coisa toda é construída para deixá-los de fora, de propósito. Os Ekt basicamente abriram mão de um império inteiro, do controle sobre milhares de planetas, apenas para se livrarem de todos os
alienígenas que vivem aqui. O plano não previa os meio alienígenas. Eles são apenas uma concessão, como bicicletas em uma cidade sem ciclovias. Nada aqui foi pensado para eles.
[Não acho que a decisão de tirar o poder do imperador tenha a ver com questões de raça.]
Não acha? Me contaram a história. O imperador fez uma coisa idiota, foi chutado do trono, e quiseram garantir que isso jamais acontecesse novamente. Mas existe uma enorme diferença entre não se meter com outros mundos e se livrar de todo mundo que tenha uma aparência diferente. Isso é, sem tirar nem pôr, uma questão racial. As pessoas aqui ficaram com medo. Se compararmos, foi um trauma ainda pior que o 11 de Setembro.
Passaram a temer tudo e todos que não fossem Ekt. Isso é populismo, só que com esteroides. As pessoas embarcaram com tudo. Se livraram de quem dava medo, da elite política. Inferno, se livraram do governo central por inteiro.