Local: Mercado de Aptakt, região de Etyakt
— O seu vê o mundo em apenas duas dimensões. Estes aqui nasceram e já estão disponíveis para adoção.
— Eva?
— Que foi?
— Por que você está lendo isso para mim? Fui eu que escrevi a pista. Já sei o que é.
— Só estou pensando alto, pai. Não consigo entender. É difícil.
— Se fosse fácil, não seria “caça” ao tesouro, e sim “passeio atrás do tesouro”, ou coisa do tipo.
— Você ainda não disse o que tem naquele pote.
— Direi quando você descobrir o que significa essa pista.
— O que tem no pote?
— Sério, Eva?
— Quero saber!
— Umas mechas de cabelo.
— Do seu cabelo?
— Claro, do meu. Ou você acha que eu sairia por aí cortando o cabelo dos outros assim, do nada?
— Não sei! … Preciso mesmo perguntar?
— Perguntar o quê?
— Pai! Por que você colocou seu cabelo em um pote?
— Ah, sim. Você vai ver.
— Isso não tem graça nenhuma, pai. Fala logo!
— Você vai descobrir assim que desvendar essa pista. É a última.
— Eu não sei o que significa! O meu vê o mundo em duas dimensões. O meu o quê?
— Por que você enxerga as coisas em 3D?
— Eu… Porque meus olhos estão virados para a frente?
— Quantos olhos?
— Dois olhos.
— Então…
— O que é meu e não tem dois olhos?… Eu não tenho nada!
— Não aqui. Em casa.
— … A marmotinha que era da Kara!
— Isso!
— Tá, vamos lá. Esses aqui nasceram e já estão disponíveis para…
Aqueles bichinhos peludos perto da barraquinha de frutas?
— Sim! E ele são yotyot, aliás.
— Isso quer dizer que…
— Quer dizer isso mesmo. Você vai ganhar um yotyot! Você disse que gostava deles, e é o mais perto de um gato que consegui achar por aqui.
— Obrigada! Obrigada! Obrigada!
— Ei, é seu aniversário. Pelo menos eu acho. O cara disse que eles comem qualquer coisa, e que não crescem mais que isso. Só fazem xixi na água, aparentemente.
— Podemos ir lá buscar agora?
— Daqui a pouco. Parece que tem algum tipo de briga aconte…
Merda! EVA! CUIDADO!
— AHHH!
— Eva, você está bem?
— Sim, eu… Ele trombou feio em mim.
— SIM, EU… ELE TROMBOU FEIO EM MIM. UM TIPO DE BRIG…
— PAI! Eu estou bem.
— Tem certeza? Tem um aprendiz de guarda vindo agora mesmo.
Aquele merdinha pode ir preso se…
— Já disse que estou bem.
[Eps eyiskeks akt?]
Ops. Eyesunt.
[Ast eyet Ekim.]
Eyet Eva.
[Eps eyesat Eteyat akt? Eps ast eyyetsek onyosk ant ot.]
At, at. Aks eyek ant asteks onsoks.
[Ast eyyekt. Ast eyapat yetsek eps epokt, Evat.]
Anyoks! Aks eyyekt eket ops. Tchau!
— O que ele queria?
— Pai! Só queria saber se eu tinha me machucado.
— Por que ele perguntou o seu nome? Aliás, como você ficou tão fluente na língua deles?
— Ele não perguntou. Só me disse que o nome dele era Ekim. E eu respondi dizendo o meu. Não sabia que era segredo. E você me ensinou, pai.
— Eu não te ensinei tudo isso! O que significa “onsoks”, aliás?
“Vazio”?
— Sim. Não sei, pai. Eu só…
— Não precisa pedir desculpa por aprender mais rápido que eu. Só tenha cuidado com estranhos, o.k.? E pare de dizer às pessoas que
nós não conhecemos ninguém, combinado?
— Ele só estava sendo gentil, pai.
— Ele é um aprendiz da guarda imperial.
— E daí?
— E daí nada. Você tem razão. Nós não conhecemos esse rapaz.
Só isso.
— …
— Você acha ele bonitinho, não acha?
— Pai!
— Que foi?
— Podemos pegar o meu yotyot agora?
— Sim, vamos lá. Está bem ali… Eva, sem correr!
…
Eu disse sem…
— Posso pegar?
— Deixa eu recuperar o fôlego, só um instante.
— Posso pegar esse?
— Eva, pode pegar o que quiser, são todos iguais.
— Esse aqui parece triste.
— Você pode escolher qualquer um e vai pegar justo o mais tristinho?
— Talvez ele fique mais feliz se vier morar com a gente.
— Isso é… bem legal da sua parte, Eva. Parabéns pelo seu 12o aniversário! Consegue carregá-lo? Eu não trouxe nada onde colocar o bichinho.
— Claro. Vem aqui, rapazinho!
— Eyesunt.
— O que você acabou de fazer?
— Agradeci ao moço. Paguei e agradeci.
— Você deu o pote a ele!
— Sim, eu dei.
— Com seu cabelo dentro!
— Isso. Era o que ele queria.
— Mas… Não se sente estranho?
— Por que eu me sentiria estranho?
— Você pagou com cabelo, pai!
— Bom, o cabelo foi só algo que eu joguei no final, para fechar o negócio. Ontem eu já tinha dado o meu cinto a ele, mas não foi suficiente. Ah, e o meu cartão do metrô de Nova York. Basicamente, troquei um cinto de trinta dólares por uma iguaria. Se alguém saiu prejudi…
— Não é uma iguaria! É um bichinho de estimação!
— Para ele, não é. É carne! Você sabe que algumas pessoas comem essas coisas, não sabe?
— O quê? Nããão!
— Sim, os… Não sei como eles se chamam. Aqueles… caras altos, carecas e magricelas.
— Todos aqui são meio carecas, pai.
— Os pelados.
— Ah, eles.
— É. Eles comem esse bicho. Por isso é que os yotyot estão à venda aqui.
— Isso é horrível! Eles são tão bonitinhos!
— Tipo os coelhinhos?
— Sim!
— Bom…
— Não dê ouvidos a ele. Ninguém vai comer você, sr. Yotyot.
— Esse vai ser o nome dele?
— O que tem de errado com sr. Yotyot?
— Nada. Seria como dar o nome de sr. Gato a um gato.
— Eu gosto de sr. Gato!
— Então vai ser sr. Yotyot. Bem-vindo à família. Como você sabe que é um menino?
— …
— Ah, entendi. Antes de levarmos o sr. Yotyot para casa… Você sabe que devemos ir embora em breve, certo? Para a Terra? Não sei quanto tempo ainda vamos ficar por aqui. Certamente não achava que permaneceríamos em Esat Ekt por dezoito meses. E
imagino que não deveríamos… Acho que não poderemos levar o sr.
Yotyot conosco, quando chegar a hora.
— Eu gosto daqui, pai.
— Que bom. Só não quero que você se afeiçoe demais a ele, caso tenhamos que ir embora logo. Nem sei quanto tempo esse bicho vive. Se bobear, o sr. Yotyot já tem cem anos. Ah, antes que eu me esqueça: vamos todos jantar na casa da Rose hoje à noite.
— Você disse que passaríamos o dia juntos.
— E vamos. Estaremos juntos, com Rose e Eugene.
— Mas é o meu aniversário!
— Eu sei! Exatamente por isso! Rose até encontrou algo que lembra um bolo.
— Pensei que a gente fosse… curtir um pouco, só você e eu.
— O que me diz, então, de jantarmos com Rose e Eugene e depois vamos para casa e… “curtimos” o tanto que você quiser… Acho que estou velho demais para usar essa expressão.