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VNOS-C PRIMEIRA

3.3 Entrevista semiestruturada com professores

Juntamente com o Questionário Sociocultural e de Opinião Sobre a Importância da NdC, as entrevistas semiestruturadas com os professores foram realizadas como parte da triangulação e a partir delas observamos que os professores entrevistados declararam que suas disciplinas se preocuparam em trabalhar questões sobre a ciência, seja de forma implícita ou explícita. Essa influência pode ter sido provocada por professores, envolvidos nas disciplinas, que são envolvidos ou tem contato com pesquisas em ensino de ciências ou com filosofia das ciências. Dentre os professores que não foram entrevistados, mas que foram lembrados nas entrevistas estão: a professora Dra. Sônia Godoy Bueno Carvalho Lopes, da disciplina Diversidade Biológica e Filogenia e o professor Dr. José Mariano Amabis, que participou do planejamento inicial da disciplina de Genética e ainda ministra a aula inicial da disciplina. A professora

50 Mariana Oliveira ao falar sobre uma aula da professora Sônia Lopes, declarou a preocupação em apresentar a ciência de forma historicamente construída e a ciência como um conhecimento provisório e em constante desenvolvimento (Turno A6):

A Sônia dá uma aula que vai desde Aristóteles, passa por todo... como que o conhecimento da diversidade era organizado, passa por toda aquela história da criação dos reinos, todos os modelos que foram feitos e como eles evoluíram até os cinco reinos e depois a gente introduz o que a gente está usando como uma classificação atual. Que é baseada em árvore filogenética, então como eles veem, a grande maioria deles, ainda vem da escola... a gente dá esse assunto no início do primeiro semestre. Ainda vem da escola com esse negócio de reino muito arraigado, né, reino vegetal, reino animal. A gente, para não chocá-lo já fala: olha tudo isso aqui você quer, e nós vamos usar isso aqui, a gente põe todo um contexto histórico. Então tem uma aula que acho que é uma das primeiras aulas que a gente coloca esse contexto histórico.

Já o professor Luis Netto destacou a influência que teve o professor Mariano Amabis na elaboração da disciplina Genética em se preocupar em transmitir como o conhecimento científico foi gerado (Turno B24):

Acho que essa ideia de mostrar como o conceito é gerado, como aqueles conceitos, que hoje a gente assume, no momento atual é aceito, como é que eles foram gerados, num dado momento, num dado contexto. Eu acho isso importantíssimo. Que mostra de novo que não existe uma verdade absoluta, que isso pode ser mudado... Eu acho que a disciplina de genética... muito por influência do professor Mariano e essa preocupação de mostrar um pouco como que o conhecimento é gerado.

Ainda com relação à preocupação das disciplinas em trabalhar a construção de conhecimento científico de forma historicamente construída, o professor Luis Netto também destacou (Turno B10):

Se a gente pegar na biologia, na genética, a quantidade de informação que é gerada é monumental. Então é muito difícil você querer acompanhar, né. O mais importante é querer entender um pouco como o conhecimento é gerado, o contexto, o momento histórico que é gerado... Acho que tem toda

51 uma ideia de estudar um pouco a genética num contexto histórico que é dado na disciplina... Todos os conceitos que a gente vai abordar: padrão de herança, dominância e recessividade... a gente está abordando de uma forma histórica que traz como o conhecimento é gerado.

O interesse da disciplina Genética em trabalhar o conhecimento historicamente construído já era conhecido por nós devido a utilização do livro do John Moore, Science as a Way of Knowing. O professor Carlos Vilela também relatou essa preocupação (Turno D4):

O principio norteador da nossa disciplina é a construção do conhecimento científico né, que é o projeto do Moore, Science as a Way of

Knowing, agente analisa a parte de genética é literalmente aquele texto

traduzido... Então a nossa ideia é essa, mostrar para os alunos a evolução do conhecimento científico.

A disciplina Diversidade Biológica e Filogenia também destacou a preocupação de apresentar que o conhecimento anterior não era errado, apenas que era o aceito na época e que se desenvolveu ao longo da história. Com relação aos aspectos da NdC relacionados por Lederman, diríamos que seria uma forma de apresentar aos alunos que o conhecimento científico é provisório e em constante desenvolvimento. Sobre isso a professora Mariana Oliveira diz (Turno A6 e Turno A10):

A gente sempre tenta colocar no contexto histórico de que a ferramenta que eles tinham naquela época permitiu eles chegarem até aquele ponto. Então isso é uma coisa que a gente sempre trabalhou muito no curso... Como todo esse processo de classificação mais atual ainda tá muito fluido, ainda tá mudando, a gente sempre coloca que ele deve avaliar tudo muito criticamente. O fato de estar no livro não significa que daqui dois meses não vá estar tudo diferente. Então que eles têm que ter uma postura muito crítica em relação à bibliografia e poder ficar atentos a essa questão de mudança do conhecimento.

Sobre a definição de leis e teorias científicas o professor Rui Murieta relatou a dificuldade que os alunos apresentam, dizendo (Turno E20):

52 A distinção de leis e teorias a... o conceito de teoria, principalmente é pensado e é utilizado de uma forma absolutamente vulgar né, que você utiliza no cotidiano. As pessoas confundem hipótese com teoria e especulação com teoria. Elas não entendem que a teoria já é um momento avançado do processo metodológico científico.

Também observamos uma preocupação em trabalhar questões sobre a ciência de forma explícita. Como exemplo, o professor Rui Murieta discute, em sala de aula questões sobre empirismo e racionalismo (Turno E6):

É uma discussão que é bem orientada para isso. Principalmente a primeira parte... a segunda parte também, mas a primeira parte onde você da um... faz uma tomada geral do... cenário, principalmente pré-moderno... e moderno, falando de empirismo e racionalismo.

Trabalhar o contexto científico de forma explícita, de forma a envolver o aluno em uma cultura científica e apresentar a influência social, cultural e histórica também é um dos objetivos da disciplina Fauna, Flora e Ambiente, e pôde ser observado na declaração do professor Paulo Sano (Turno C2):

A disciplina... tem essa intenção, é uma questão de intencionalidade mesmo, de prover essa introdução ao universo da cultura científica, vamos chamar assim... alguns elementos que agente procura trabalhar, primeiro, a ciência ela é produzida, uma produção humana. Como produção humana ela tá sujeita a um contexto social, cultural e histórico.

Como podemos observar, os professores declararam ter trabalhado, em sala de aula, alguns dos aspectos da NdC investigados. Dentre as questões sobre a ciência lembrados pelos professores destaco: a ciência como uma forma de conhecimento historicamente construído; a ciência como um conhecimento provisório e em constante desenvolvimento; a ciência imersa em um contexto sociocultural; e a definição de leis e teorias científicas.

A declaração dos professores está de acordo com o apresentado na seção anterior (3.2 Opinião dos alunos sobre as questões da pesquisa). Nessa seção, apresentamos que diversos alunos lembraram, ao longo do semestre, de questões como: distinção entre leis e teorias e a influência sociocultural na ciência. As questões que surgem são: Porque será que os alunos não

53 percebam ou lembraram de outros aspectos da NdC que os professores disseram ter trabalhado em sala de aula? Será que os alunos incorporaram, de alguma forma, esses e outros aspectos da NdC, mesmo sem perceberem isso? A segunda questão foi uma das preocupações levantas pelos próprios professores. A professora Mariana Oliveira mostrou se preocupar com a dificuldade em saber o quanto os alunos assimilaram os conteúdos trabalhados (Turno A48):

A gente sabe que a gente trabalha, mas a gente não sabe o quanto isso passa para os alunos, né? O que realmente eles percebem disso aqui! A gente fala muito! A gente fala claramente todas estas questões, uma coisa explícita mesmo, não é uma coisa que está implícita. A gente realmente fala estas questões e tudo. Questões da avaliação crítica do conhecimento... que tem interpretação... para a gente seria interessante saber se realmente está passando para eles, se eles tem esta percepção. Minha curiosidade maior seria essa.

Outra preocupação, desta vez levantada pelo professor Luis Netto foi a de trabalhar o ensino de forma intuitiva, sem uma base científica, e o interesse em trabalhar cientificamente o ensino. No turno B57 da entrevista ele diz:

A gente não tem certeza se está fazendo certo ou não tá, o que tem que melhorar. Acho importante esse tipo de... na área... a gente faz muitas coisas intuitivamente né, a verdade é essa... Trabalhar do modo científico também a parte de ensino. Não ficar tanto no eu acho. A gente faz muito isso.

Essas preocupações devem ser levadas em conta quando nos preocupamos em investir no Ensino de Ciências. As ferramentas de investigação sobre a NdC podem servir como recursos a serem utilizados para os professores elaborarem disciplinas que se preocupem com um ensino contextualizado, obtendo informações sobre os conhecimentos científicos prévios dos alunos e sobre os conhecimentos adquiridos pelos alunos após as disciplinas.

Com relação à preocupação de estar transmitindo o conhecimento de forma contextualizada e que traga aspectos da NdC, acreditamos que a

54 presença de professores envolvidos com pesquisas e metodologias de Ensino de Ciências,como nas diversas disciplinas investigadas, auxilie nessa questão.

Apresentamos, na seção seguinte, as respostas dos alunos aos questionários VNOS-C e VOSE, procurando estabelecer algumas relações entre as entrevistas com os professores e as mudanças das respostas dos alunos.

3.4 Investigação das respostas dos alunos

– questionários