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3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.2 ESTUDO DE CASO

3.4.4 Entrevista semiestruturada

A entrevista é entendida como uma forma de interação social e caracterizada pela sua flexibilidade em conduzir uma investigação, possibilitando a obtenção de informações a respeito do ponto de vista das pessoas acerca dos fatos, situações ou fenômenos (GIL, 2011). De acordo com Marconi e Lakatos (2011), uma das vantagens da técnica de entrevistas é a oportunidade de acesso a dados não documentados e flexibilidade no esclarecimento das perguntas.

A presente tese utilizou entrevista aberta com o auxílio de roteiro semiestruturado. Na entrevista aberta com roteiro semiestruturado, o entrevistador pergunta questões em uma ordem predeterminada, mas possibilita liberdade ao entrevistado. Durante a entrevista, podem surgir questões complementares e interessantes que não, necessariamente, estão previstas. Um roteiro semiestruturado parte de questionamentos básicos, apoiados na literatura que interessa à pesquisa, que oferece um amplo campo de interrogativas, frutos de novas hipóteses que surgem à medida que se recebe as respostas do entrevistado (TRIVIÑOS, 2011). O pesquisador segue um conjunto de questões previamente definidas num contexto muito semelhante ao de uma conversa informal. Possibilita que o entrevistado manifeste suas opiniões, pontos de vista e argumentos, permitindo ao pesquisador compreender os significados atribuídos às questões e situações relativas ao tema de interesse (GODOY, 2006).

Ao elaborar um roteiro de perguntas para a história oral, Freitas (2002) sugere um instrumento geral/temático, amplo e abrangente. Sua aplicação não deve ser rígida e deve respeitar a dinâmica de cada entrevista, pois muitas respostas poderão emergir naturalmente da narrativa do entrevistado. No entanto, o roteiro deve ser planejado e capaz de guiar o pesquisador às questões consideradas importantes e que devem ser efetivamente abordadas. Segundo Alberti (2013), a elaboração do roteiro para história oral apresenta uma oportunidade de reunir e estruturar os pontos relevantes levantados até então, e articulá-los com questões que impulsionem a pesquisa. A entrevista na história oral, segundo Ichikawa e Santos (2006), é capaz de orientar e sistematizar a busca de respostas aos problemas de pesquisa definidos a partir de um referencial teórico.

Nesse contexto, a partir do quadro conceitual preliminar da tese, Quadro 12, dos objetivos da pesquisa e, buscando adotar a história oral temárica como uma técnica de pesquisa, foi elaborado o roteiro de entrevista. Com o propósito de verificar a clareza e consistência das perguntas, o tempo aproximado necessário de conversação e resposta, e a possibilidade de inadequação de algumas questões, foi realizado um pré-teste do roteiro de perguntas envolvendo experts da área (dois professores doutores com experiência e atuação nas esferas institucionais da universidade, do governo e de parque científico e tecnológico), e uma pesquisa exploratória com profissionais da área que atuam em um ambiente de inovação.

O pré-teste do roteiro de perguntas com profissionais da área fez parte de uma pesquisa exploratória que buscou identificar os fatores que determinaram a constituição de um ambiente de inovação e o papel desempenhado pelos atores da TH, universidade, governo e empresa, na consolidação da Incubadora Tecnológica de Luzerna, localizada na Região Oeste de Santa Catarina. Visando coletar informações que permitissem maior compreensão sobre o processo de constituição de ambientes de inovação, o estudo exploratório envolveu 6 entrevistas realizadas na cidade de Luzerna (SC), em dezembro de 2015 com representantes do poder público municipal, universidade, empresa e gestor da incubadora, com uma duração total de 4 horas.

Após algumas adequações realizadas, inclusive, durante o processo de coleta de dados da tese, foi possível definir o roteiro de entrevista disponível no Apêndice B. O roteiro apresenta questões abrangentes em seu enunciado principal, do tipo “como”, “porque”, “quem” e “quando”, e questões adicionais em forma de tópicos que foram introduzidas, quando necessário, de forma natural, à medida que se estabelecia o diálogo entre o entrevistado e pesquisador. O mesmo roteiro de entrevista foi aplicado aos representantes do parque científico e tecnológico, universidade, governo e empresa.

Em relação à quantidade de entrevistados necessária para o desenvolvimento do estudo à aplicação da história oral temática há a preocupação de realizar entrevistas que sejam capazes o suficiente de fornecer as informações necessárias ao pesquisador, ou seja, a qualidade das informações prestadas torna-se prioridade frente à quantidade de entrevistas previamente estabelecidas. Conforme Alberti (2013), cabe ao pesquisador avaliar se o grau de informações obtidas é suficiente para construir uma interpretação bem fundamentada sobre o tema de estudo:

É somente durante o trabalho de produção das entrevistas que o número de entrevistados necessários começa e se descortinar com maior clareza, pois é conhecendo e produzindo as fontes de investigação que os pesquisadores adquirem experiência e capacidade para avaliar o grau de adequação do material já obtido aos objetivos do estudo. [...] é o pesquisador, conhecendo progressivamente seu objeto de estudo, quem pode avaliar quando o resultado de seu trabalho junto às fontes já fornece material suficiente para que possa construir uma interpretação bem fundamentada. (ALBERTI, 2013, p. 46).

Nesse contexto, a escolha dos entrevistados se caracterizou por ser intencional e não probabilística. De acordo com Gil (2011) a amostragem intencional se caracteriza por selecionar um subgrupo que pode ser representativo de toda a população estudada. Na amostragem não probabilística do tipo intencional, segundo Marconi e Lakatos (2011), o pesquisador seleciona os elementos representativos que exercem funções de líderes de opinião nas comunidades às quais pertencem, seja pelo cargo que ocupam, seja pelo prestígio social. Esse tipo de seleção mostra-se apropriada, conforme Cooper e Schindler (2003), em estudos exploratórios, onde o pesquisador seleciona os sujeitos que se relacionam diretamente com o objeto em estudo.

A escolha dos entrevistados em uma pesquisa qualitativa orientada pela estratégia de pesquisa de história oral temática, segundo Alberti (2013), deve priorizar aqueles que participaram, viveram, presenciaram ou testemunharam ocorrências ou situações ligadas ao tema e que possam fornecer depoimentos significativos, ou seja, o processo de seleção deve ocorrer em razão da relação do entrevistado com o tema estudado.

Em um primeiro momento, foi elaborada uma lista de entrevistados segundo as sugestões dos especialistas consultados. O critério utilizado para escolha dos entrevistados foi o de ter participado de forma efetiva no processo de constituição do parque. Buscou-se também a seleção de, pelo menos, um entrevistado, quando possível, vinculado a cada esfera institucional da TH, universidade, governo e empresas, dos 6 ambientes parques. Para o início das entrevistas foram priorizadas as pessoas diretamente ligadas à gestão do parque e, a partir

delas, novos nomes foram incluídos na lista, somando-se ou substituindo aqueles inicialmente sugeridos pelos especialistas.

Em razão da importância atribuída pelos entrevistados ao Programa Porto Alegre Tecnópole no processo de constituição de ambientes de inovação no Estado do Rio Grande do Sul, foi necessário recorrer a duas pessoas que vivenciaram o processo para maiores informações e que foram capazes de esclarecer algumas lacunas existentes no referencial bibliográfico e documental disponível e consultado.

Ao todo, foram realizadas 25 entrevistas distribuídas nas cidades de Porto Alegre, Novo Hamburgo, Campo Bom, São Leopoldo, Viamão, Santa Cruz do Sul, Lajeado e Passo Fundo, entre os meses de abril a julho de 2015, totalizando mais de 25 horas de gravação. Para preservar a identidade dos entrevistados, apenas a esfera institucional ou ambiente de inovação na qual representam foi informada. Cabe ressaltar que o mesmo entrevistado pode representar mais do que uma esfera institucional ou ambiente de inovação como campo de atuação. A identidade dos entrevistados, bem como o nome das pessoas mencionadas nas entrevistas e na análise documental foram omitidos. A relação de entrevistados pode ser visualizada no Quadro 15:

Quadro 15 – Relação de entrevistados Parque Científico e

Tecnológico/Ambiente de Inovação

Entrevistado Instituição/Ambiente de Inovação representante

Data Local Duração

Programa Porto Alegre Tecnópole A Governo 05/05/15 Porto Alegre 56 min B Governo 15/05/15 Porto Alegre 1h23min Tecnopuc C Universidade PCT 14/04/15 Porto Alegre 1h33min D Universidade 13/05/15 Porto Alegre 50min E Universidade PCT 05/05/15 Porto Alegre 59min F Empresa 02/06/15 Porto Alegre 57min G PCT 26/05/15 Porto Alegre 30min H PCT Governo Empresa 06/05/15 Viamão 1h52min Tecnosinos I PCT 02/06/15 Porto Alegre 42min J Universidade 29/07/15 São Leopoldo 54min K Empresa 02/07/15 São Leopoldo 57min L PCT 05/05/15 Porto 1h10min

Alegre Valetec M Universidade Governo PCT 30/06/15 Novo Hamburgo 1h11min N PCT 30/06/15 Campo Bom 40 min. UPF Parque O PCT 13/04/15 Passo Fundo 1h29min P PCT 22/04/15 Passo Fundo 54min Q Universidade R PCT Governo 22/04/15 Passo Fundo 1h07min S Empresa 22/04/15 Passo Fundo 31min Tecnovates T PCT 07/05/15 Lajeado 1h30min

U Universidade 21/05/15 Lajeado 1h52min

V Empresa 21/05/15 Lajeado 27min

Tecnounisc

W PCT 07/05/15 Santa Cruz

do Sul 56min

X Universidade 03/07/15 Santa Cruz

do Sul 42min

Z Universidade 09/06/15 Santa Cruz

do Sul 44min Fonte: elaborado pelo autor (2016).

De acordo com Alberti (2013), o contato inicial com o entrevistado é muito importante, pois se constitui como um primeiro momento de avaliação recíproca, base sobre a qual se desenvolverá a entrevista. Para o autor, no primeiro contato é importante: tornar claro que o depoimento prestado é de grande relevância para a pesquisa; mostrar franqueza na descrição dos propósitos da pesquisa e na condução da entrevista; e evidenciar o respeito ao entrevistado, enquanto sujeito produtor de significados.

O contato inicial com os entrevistadores foi realizado por e-mail, com o envio de uma carta de apresentação, disponível no Apêndice C, contendo uma breve apresentação pessoal do aluno, orientador e co-orientador, do programa de pesquisa e do objetivo do estudo e demais orientações propostas por Alberti (2013). As entrevistas foram agendadas com aproximadamente 15 dias de antecedência.

Antes da entrevista foi realizado um estudo prévio da biografia do entrevistado relacionado ao tema de interesse da tese, pesquisando em seu currículo Lattes sua formação, áreas de atuação, experiências e principais produções científicas, buscando ampliar o conhecimento sobre o entrevistado e enriquecer a condição da entrevista. De acordo com Alberti (2013, p. 173), conhecer previamente a biografia do entrevistado “permite compreender melhor o relato de sua experiência, seu discurso e suas referências mais particulares.” Um estudo prévio sobre o parque científico e tecnológico a ser analisado

também foi realizado antes das entrevistas, mediante informações disponíveis em artigos científicos e livros, sites, entrevistas em jornais locais, revistas e programas de rádio e televisão. Com base nas informações foi elaborado, previamente, um histórico dos principais eventos ocorridos para o seu surgimento, e o fichamento em documento Word das principais produções textuais relacionados ao tema e de autoria dos entrevistados.

Cabe salientar que o processo de entrevistas ocorreu de forma muito tranquila e receptiva, e contou com o envolvimento participativo e colaborativo dos entrevistados em prestar todas as informações possíveis e se colocar à disposição, inclusive, para informações adicionais caso fossem necessárias. Foi possível perceber o interesse dos entrevistados e a satisfação e motivação gerada em relatar um pouco sobre a história do parque, na qual fez ou faz parte, além de poder contribuir com os objetivos desta tese.