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2.4 O MODELO DA TRÍPLICE HÉLICE: RELAÇÃO ENTRE

2.4.2 O papel do governo

Uma pergunta importante soa na literatura sobre inovação: qual é o papel que o governo deve desempenhar na promoção do desenvolvimento da inovação? Segundo o manual da OCDE (2005, p. 31), “uma das principais tarefas do governo é criar condições que induzam as empresas a realizarem os investimentos e as atividades inovadoras necessárias para promover a mudança técnica.”

Numa perspectiva histórica, há fortes indícios a respeito da necessidade de mobilização de forças autônomas externas ao mercado para propiciar desenvolvimento. No conceito de SNI fica evidente o papel do governo como o principal ator responsável pelo estímulo financeiro e legal e por criar ambientes propícios à cooperação. Ou seja, cabe ao governo estimular a relação entre universidades e empresas por meio de recursos para projetos de pesquisa e para a formação de novas empresas, além de regulamentações que permitam a interação e a troca de conhecimento (LUNDVALL, 2007).

Conforme Etzkowitz e Leydesdorff (1999), a inovação torna-se, cada vez mais, um processo complexo e dinâmico que se move gradativamente para o centro da arena política. Os programas governamentais têm um papel importante a desempenhar, não somente de nível nacional de cima para baixo, mas também, a partir do nível local, de baixo para cima, muitas vezes em colaboração com outras organizações da sociedade civil (ETZKOWITZ, 2003). O modelo da TH tornou-se interessante para os governantes, pois apela para uma maior colaboração em termos locais (LEYDESDORFF; PARK; LENGYEL, 2012).

O governo é um ator fundamental à medida que determina os incentivos e apoios para o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico e promove os recursos necessários para financiar pesquisa e incentivar e encorajar o empreendedor organizacional (ETZKOWITZ, 2003). Seu papel consiste em promover o contexto legal necessário, atuar como gerador de demanda, criando novos mercados para produtos de alta tecnologia, financiar ciência e tecnologia, investir em educação nas universidades (ETZKOWITZ et al., 2007) e expandir as capacidades da universidade e da empresa, de modo que sejam capazes de cooperar (ETZKOWITZ; BRISOLLA, 1999).

Na TH, o governo deve incentivar a pesquisa no interior das universidades e fazer com que seus resultados cheguem ao mercado, ou seja, auxiliar a transformar pesquisa em atividade econômica e transformar problemas industriais em pesquisa acadêmica. A empresa

1 Entende-se por governo a hélice que representa um conjunto de organizações públicas em suas esferas federal, estadual e municipal.

é um ator local de produção e o governo a base das relações contratuais que garantam as inter- relações entre atores da TH (ETZKOWITZ, 2003, 2009).

Segundo Etzkowitz (2003, 2009), o governo deve agir como um empreendedor público, mantendo sua função reguladora, incentivando o surgimento de relações híbridas entre as esferas, tornando a inovação não mais exclusiva a uma única esfera, e sim o resultado entre suas interações. A interação agrega representantes das esferas, principalmente, em nível regional, num processo de planejamento de baixo para cima, possibilitando criar e implementar iniciativas políticas cooperativamente (ETZKOWITZ, 2003, 2009). Deve apoiar novos empreendimentos mediante mudanças no ambiente regulatório, incentivos fiscais e oferta de capital de risco público (ETZKOWITZ; KLOFSTEN, 2005; ETZKOWITZ; ALMEIDA, 2005; ETZKOWITZ; ZHOU, 2006; LUNDBERG, 2013). Agir como a fonte das relações contratuais que garantem interações estáveis e de câmbio entre as esferas institucionais (ETZKOWITZ; MELLO; ALMEIDA, 2005; ETZKOWITZ; ZHOU, 2006).

O chamado “estado de inovação”, proposto por Etzkowitz (2009), é responsável por promover novas formas de relações de cooperação para regenerar as fontes de produtividade em ciência e tecnologia. Seus preceitos básicos são descritos por meio de propostas sobre a transformação das funções do estado tradicional para promover a inovação, conforme Quadro 6.

Quadro 6 – Preceitos básicos do Estado de Inovação

01

Criação de uma autoridade legítima estendida da esfera pública ao setor privado, promovendo a estabilidade e reduzindo a incerteza na interação.

Corolário: garantias governamentais ao setor privado para que possa assumir maiores riscos e investir em novos empreendimentos.

02

Cobrança de impostos para apoiar a proteção da nação e a promoção do bem-estar social geral para fornecer incentivos e benefícios especiais.

Corolário: créditos fiscais de P&D e menos impostos para promover a inovação. 03

Criação de regras para apoiar a vida econômica e de leis para licenciar empresas e fundações e para regulamentar o comportamento dos mercados e dos sistemas de moeda.

Corolário: criação de novas agências e entidades híbridas para promover a inovação.

04

Utilização do sistema jurídico para criar direitos especiais, tais como patentes para promover a inovação. Corolário: Universidades recebem o controle dos direitos de propriedade intelectual das pesquisas financiadas pelo governo, incentivando-as a se envolverem na transferência de tecnologia e inovação. 05 Oferta de financiamento para pesquisa básica a fim de criar um modelo linear de inovação.

Corolário: fornecimento de capital de risco público para criar um modelo de inovação linear assistido. Fonte: adaptado de Etzkowitz (2009).

Etzkowitz (2003) alerta que o governo, muitas vezes, não consegue cumprir o seu papel no desenvolvimento da inovação, sendo substituído pelo empreendedor individual que inicia seu empreendimento a seu próprio risco. Além do mais, o sistema atual em muitas nações é visto com uma forte ênfase mercadológica, em que o governo e a universidade têm uma participação pequena num formato de sistema de inovação ideal.

Segundo Costa Junior (2012), cabe ao governo criar as condições necessárias para promover a inovação, por meio de: suas próprias instituições de pesquisa, voltadas para o desenvolvimento de setores estratégicos; financiamento de pesquisa, mediante fundos de fomento e instituições de amparo à pesquisa que concedem bolsas de auxílio a pesquisadores, direcionadas a interesses específicos, ou não; seu poder de compra, exigindo que seus fornecedores inovem na produção dos bens e serviços que adquiram direta ou indiretamente; elaboração de estudos de diagnóstico sobre o sistema, que provejam dados para auxílio à tomada de decisão por parte dos seus agentes; e criação de leis que regem o sistema, como as de incentivos fiscais e as que regulam o funcionamento dos institutos públicos de pesquisa.