2.4 BRANDING CONTEMPORÂNEO
2.4.6 Entrevistas com profissionais do branding
Entre os meses de abril, maio e junho de 2010 realizamos cinco entrevistas de caráter qualitativo-quantitativo com as principais empresas de branding do Brasil, segundo a Top
Brands, empresa de consultoria e gestão de marcas, parceira da ABA, Associação Brasileira
de Anunciantes.
A ABA instituiu, no ano de 2006, o Comitê de Melhor Prática de Branding. Em parceria, realizam anualmente o Fórum Internacional ABA Branding, um grande evento com os principais nomes do branding nacional e internacional. Em contato com a Top Brands obtivemos as informações das quais necessitávamos: os nomes das principais empresas na área de branding do Brasil.
Quadro 1 – Empresas participantes da entrevista.
EMPRESAS NOMES FUNÇÕES
Brand Analytics Consultoria de Marcas Renato Rocha Consultor Brand Finance Consultoria Gilson Nunes Sócio diretor Grupo Troiano de Branding Renata Natacci Gerente de Projetos Thymus Branding Rodolfo Araújo Coordenador de Produtos Top Brands Consultoria e Gestão de Marca Marcos Machado Sócio Consultor
Interbrand Future Brand GAD Branding
Procuramos todas as empresas constantes no rol fornecido. Não obtivemos resposta da
Future Brand e do GAD Branding. A Interbrand negou-se a participar da entrevista, bem
como a prestar qualquer tipo de informação sobre a visão da empresa acerca do tema. As demais empresas gentilmente se propuseram a responder ao questionário por nós formulado, composto de seis questões abertas e uma fechada (Anexos B, C, D, E e F).
2.4.6.1 Análise das entrevistas
Segue as perguntas realizadas nas entrevistas e a análise dos pontos essenciais, de maior relevância para nossa pesquisa.
1. Inicialmente a marca surgiu com a específica finalidade de identificar produtos. Com o passar dos anos e diante da atual complexidade das relações sociais a marca atingiu uma nova dimensão. Qual é, no seu modo de ver, o conceito de marca nos dias de hoje?
Os entrevistados afirmam categoricamente que a marca é o ativo de maior valor das empresas. A Top Brands, embora não tenha admitido expressamente, deixa implícito. Consideram-na um ativo intangível e central nas decisões estratégicas das empresas. Em segundo lugar, que é um conjunto de representações e significados, fruto do relacionamento com seus públicos estratégicos ou stakeholders.
A formação de uma marca ou de sua identidade, resultante da relação com seus públicos, é o conceito base da dissertação, analisado no subtítulo 3.4, Identidade de Marca.
2. É possível administrar a complexidade das grandes marcas contemporâneas?
Todos os entrevistados afirmam que é possível administrar a complexidade das grandes marcas contemporâneas, embora não seja uma tarefa fácil. Apontam as mudanças dinâmicas do ambiente globalizado (ecossistema), em especial das tecnologias e da internet, como importantes fatores dessa complexidade.
Destacamos o caminho apontado por Rodolfo, da Thymus Branding, para a redução dessa complexidade: “Quanto mais verdadeiros forem os vínculos criados por uma marca, melhor ela administrará sua complexidade interna e externamente”.
Realçamos, também, a afirmação de Gilson Nunes, da Brand Finance, consoante o qual “a diferenciação e vantagem competitiva das empresas está exatamente na boa gestão desta complexidade das grandes marcas contemporâneas.”
No subtítulo 3.3.1 o pensamento complexo, analisamos que a compreensão dos vínculos, da inter-relação entre marca e indivíduo, é um elemento redutor de complexidade, que auxilia na gestão da marca.
3. Quais são as principais fontes de informação para a construção de uma marca forte?
A maioria dos entrevistados considera como principal fonte o cliente/consumidor, seguido pelo discurso e identidade da própria empresa e pelo entorno dinâmico e competitivo. As respostas corroboram a posição que defendemos, alçando o consumidor ao papel de principal fonte para a construção de uma marca fonte. (Cf. Subtítulo 2.4.2 - Papel e poder do consumidor).
4. Como você define o branding aplicado atualmente no Brasil?
Os representantes das empresas consultadas concordam que o branding está em fase de formação e reconhecimento como diferencial competitivo no Brasil, mais ainda se encontra estreitamente ligado aos conceitos do Marketing e da Comunicação Mercadológica, exceção feita a Gilson Nunes. Gilson acredita que o branding é um conceito que não consegue ser posto em prática no Brasil, e está voltado mais para a teoria e menos para o negócio. Por esse entrevistado, o que temos aplicado é a Gestão de Marcas. A principal dificuldade que destaca é a impossibilidade de medir os resultados na criação de valor para empresas destas atividades.
Todavia, os estudos que realizamos demonstram que a dificuldade de mensuração dos resultados está na incompleta aplicação do branding e não na utilização dessa importante ferramenta, que importa em verdadeiro diferencial competitivo e valorativo.
5. Quais são os benefícios advindos da utilização da gestão de marca? Selecione os itens
que respondem a questão.
Nessa questão, relacionamos os benefícios advindos da utilização da gestão de marca, sintetizados segundo a visão de Aaker (1996), Davis (2000), Keller (1998).
Todos assinalaram:
“A” maior lealdade dos consumidores;
“B” menor vulnerabilidade frente às ações competitivas do mercado; “D” maiores margens de negociação do preço;
Por quatro indicações:
“C” menor vulnerabilidade para comercializar em tempos de crise;
“F” maior cooperação e suporte por parte de quem comercializa os produtos – vendedores ou representantes;
“J” disposição para atrair melhores empregados;
“K” capacidade de gerar maior interesse de investidores; Com três marcações:
“G” maior eficácia e eficiência nas comunicações de Marketing, pois se tornam menos suscetíveis aos “ataques” dos anúncios competitivos, mais responsivas a estratégias criativas e menos vulneráveis a reações negativas quando da repetição concentrada de uma mensagem;
“I” oportunidades adicionais de extensão de marca na mesma linha ou para uma nova categoria de produto;
“L” inclinação para conseguir maior apoio dos acionistas;
Apenas com duas seleções:
“E” não alteração da demanda de resposta do consumidor frente ao aumento de preços;
“H” oportunidades adicionais de comercialização de licenciamentos, aumentando a exposição da marca e seu conjunto de associações;
Somente a Brand Analytics incluiu dois novos benefícios: Maior capacidade de obter recursos a custo mais baixo (financiamento) e melhor previsibilidade dos resultados futuros, entre muitas outras vantagens que vão depender das especificidades dos negócios e das indústrias.
Diante das repostas obtidas, podemos concluir que, no Brasil, os benefícios de maior visibilidade na utilização do branding são: fidelidade do cliente, diferencial competitivo frente à concorrência e vantagens na negociação de preço. Praticamente os mesmos resultados apresentados na tabela 4, da página 20, em pesquisa realizada pela empresa Troiano Consultoria de Marca, com CEOs brasileiros.
6. Qual é a metodologia de branding aplicada por sua empresa?
Essa pergunta revela certa falta de uniformidade na metodologia de branding aplicada pelas empresas. Apenas a Top Brands se baseia em um modelo consagrado de gestão de marca, elaborado por Kevin Keller36, que estuda a construção do equity da marca, no sentido de valor econômico e simbólico. Baseia-se no conhecimento, na memória do consumidor, como principal valor de uma marca, considerando como elementos de maior importância: nomes, logos, símbolos, personagens, slogans e embalagem.
A Brand Analytics inicia o processo com entendimento de toda organização, cultura, valores, objetivos de curto, médio e longo prazos. Passa para a compreensão dos diferenciais competitivos de acordo com o contexto de negócio e segue com a pesquisa de mercado, para captação dos processos decisivos de compra. Finaliza com o alinhamento entre o discurso da empresa e a imagem formada na mente dos consumidores.
A metodologia da Brand Finance envolve toda a organização, desde o marketing e comunicação até as áreas de produtos e serviços, canal de venda, pós venda, tecnologia, inovação, processos internos, recursos humanos, produção, logística, serviços ao consumidor, vendas, etc. E, se necessário, também promove uma revisão da leitura e crença estratégica que a empresa faz sobre mercado, procurando ajustar posicionamento, identidade, essência da marca. Utiliza sensivelmente processos contínuos de medição de desempenho do valor da marca e seu retorno, como técnicas de modelagem econométrica, medição de risco, estimativas, modelagem financeira, custo de capital, pesquisas de mercado específicas, gestão de processos das empresas, etc.
A Thymus não pôde revelar sua metodologia. Já a Troiano demonstrou ser uma empresa que aplica ferramentas e técnicas específicas, relacionadas ao branding, desenvolvida conforme a necessidade de cada cliente.
7. Existe alguma lacuna no modelo atual de gestão de marca - branding, alguma dimensão
da marca que não é possível gerir? Caso afirmativo, descreva.
Todos afirmaram não existir essa lacuna na gestão do modelo de branding, embora considerem que existem limitações de fato em sua aplicação.
Encerramos, aqui, a análise tópica do questionário. As respostas obtidas muito contribuíram para o desenvolvimento desse trabalho, para a compreensão e comparação dos pensamentos sobre branding e gestão de marca que existem no mercado atual. Essas informações colaboram com o aprofundamento analítico de nosso objeto de estudo.
Constatamos que, de fato, com nossa pesquisa podemos contribuir para a sistematização do branding – gestão de marca, no Brasil.