4. DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO
4.1 ABORDAGEM DE ESTUDO
4.1.2 Entrevistas: procedimentos e intencionalidades
A opção pela aproximação com a entrevista em profundidade se dá pela compreensão de que, conforme refere MINAYO (2013), o informante é convidado a falar livremente sobre um tema, sendo possível o investigador fazer perguntas buscando dar mais profundidade às questões. Igualmente neste sentido, DUARTE (2004) descreve que entrevistas são fundamentais quando se precisa/deseja mapear práticas, crenças, valores e sistemas
classificatórios de universos sociais específicos, mais ou menos bem delimitados, em que os conflitos e contradições não estejam claramente explicitados.
Estes argumentos estão de acordo com as necessidades da pesquisa que desde sua gênese objetivou desvelar e identificar significados e relações estabelecidas em questões que estão inseridas no contexto da proteção social. A escolha desta metodologia permitiu o levantamento de dados que, sob análise, permitiram uma visão sobre como a proteção social e suas correlações estão apresentadas na narrativa dos sujeitos de pesquisa.
Um dos desafios da metodologia da entrevista é o encontro com os sujeitos de pesquisa e seus contextos. Este encontro requer atenção sobre a própria conduta no que se refere ao que está sendo produzido como discurso, sobre os pressupostos e conhecimentos que nos acompanham no momento da condução das entrevistas, sobre o equilíbrio entre a proposição da pesquisa e a abertura ao que o campo de pesquisa emana e, atenção sobre o que estamos expressando de forma verbal e não-verbal durante esta prática (a entrevista em ato). De acordo com Marshal e Batten, citados por BISOL (2012) para incluir a questão da diversidade e do respeito às diferenças em pesquisa, é necessário não projetar os próprios valores, assim como evitar julgar o comportamento de um participante. Dessa mesma forma foi interesse a observância de atitude, conduta e encaminhamentos no que veio a ser produzido como encontro. Certamente uma experiência marcante do ponto de vista humano e do ponto de vista da formação acadêmica.
O procedimento da entrevista envolveu uma conversa inicial com os sujeitos de pesquisa. Nesta conversa fiz minha apresentação pessoal (sobre ter nascido no estado de Rondônia e ter minhas referências de origem e criação todas a partir deste contexto), profissional (sobre ter sido enfermeira na área rural do município vizinho) e acadêmica (sobre o atual momento acadêmico e o interesse de pesquisa). A intenção da apresentação foi assegurar o sujeito da pesquisa sobre meu comprometimento com os levantamentos que seriam feitos a partir da pesquisa. No segundo momento, fiz um relato de como funcionaria a entrevista (sobre o TCLE, sobre a dinâmica do diálogo, sobre o procedimento e momento de ligar o gravador de áudio, sobre minha possível necessidade de fazer anotações durante a entrevista). Um ponto muito ressaltado neste momento anterior ao início da entrevista foi assegurar o entrevistado que durante o diálogo ele poderia se sentir à vontade para usar o tempo que fosse necessário para elaborar seu pensamento, podendo se utilizar de pausas. Outro ponto muito enfatizado foi não haver expectativas por parte da pesquisadora quanto a conhecimentos corretos ou incorretos vindos do entrevistado, destacando-se que a intenção era trabalhar com o conhecimento trazido.
Essas ênfases se mostraram fundamentais para condução e permanência do engajamento dos entrevistados durante a entrevista. Justificou-se que poderia haver algumas questões (que viessem a partir do nosso diálogo) as quais nunca tivessem sido antes pensadas e por isso este tempo para elaborar o pensamento sobre estas questões estava previsto. Foram dadas ênfases neste aspecto durante a entrevista. Essas orientações foram iniciativa a partir da observância aos aspectos e considerações éticas da pesquisa no que se refere a reduzir os riscos de desconforto, ansiedade ou constrangimento para o sujeito de pesquisa.
Alguns entrevistados aparentaram ansiedade no início da abordagem como resposta natural àquele momento de adaptação. Não pareceu um efeito do tema abordado, mas sim da situação inédita, para a maioria deles, de estarem participando de uma dinâmica de entrevista sobre um determinado assunto. Em alguns entrevistados captou-se a timidez, mesmo após a disponibilidade em participar da entrevista. Para a forma como se deu a interação e a participação do entrevistado e pesquisador, ficou sugerido que nenhum deles demonstrou sentimentos como constrangimento, irritação ou desconfiança sobre as questões que estavam sendo levantadas e o processo que estava sendo conduzido. Estes relatos estão apoiados nas anotações gerais durante o campo.
Uma única entrevista apresentou intercorrência (necessidade do entrevistado em resolver uma questão pessoal) e precisou ser cancelada. As demais, transcorreram sem intercorrências de natureza externa ou relacionadas ao binômio pesquisador-entrevistado. Durante as entrevistas eu estava me sentindo instigada a conhecer as falas e a produção de sentido dos sujeitos de pesquisa. Tive momentos de sensação de desgaste (devido à natureza do assunto, a profundidade de algumas questões trazidas e uma específica condição de saúde), mas não prejudicaram, de maneira importante ou reconhecida, o processo da pesquisa e o ato da entrevista. Em alguns momentos senti necessidade de neutralizar o que estava sendo ouvido para não incorrer num tipo de emoção que prejudicaria o objetivo da coleta da entrevista. Entretanto, em dois momentos mais específicos foi necessário dialogar após o desligamento do gravador sem que isso precisasse fazer parte do contexto científico da entrevista.
Estive todo tempo acompanhada de um sentimento de interesse e responsabilidade pela conduta enquanto pesquisadora. Para reduzir os sentimentos de preocupação, decidi que respeitaria minha forma de estar naquele momento, naquela primeira experiência formal com entrevista (para além das abordagens prévias informais), igualmente respeitaria o processo do conhecimento que me foi possível e também as possibilidades que foram possíveis existir a partir do que acontecia naquela dada situação e sendo eu quem eu sou. Tantos fossem outros
pesquisadores a estarem naquele momento tantas outras seriam as possibilidades de condução da pesquisa e apostas de diálogo.
Com isto, entramos nas apostas que são feitas durante um processo de pesquisa. Escolheu-se deixar fluir a produção de sentido que os entrevistados vinham trazendo a partir do que era colocado ou perguntado como ponto de interesse. Esta evidência é a atenção ao que o entrevistado tem expressado e colocado em sociedade por meio dos diálogos dos quais faz parte e da narrativa que o acompanha em seu cotidiano.
Conforme descrito por SPINK e GIMENES (1994) os processos sócio-cognitivos dependem intrinsecamente da história individual e das formações discursivas próprias à cultura na qual se está inserido. As autoras também destacam que as práticas discursivas são as diferentes maneiras em que as pessoas produzem realidades psicológicas e sociais. A discussão de práticas discursivas e produção de sentido trazida por elas também refere que esta produção está inserida no campo da circulação das ideias na sociedade.
Dessa forma, este trabalho anteriormente citado torna-se referência para compreensão dos sentidos trazidos nas narrativas dos sujeitos de pesquisa, havendo apoio nos quatro passos identificados pelas autoras, porém também atualizados por trabalhos posteriormente divulgados:
1. Entender qual o espaço criado na interface entre intenções do entrevistador e hipóteses sobre a situação de entrevista por parte do entrevistado; 2. Entender quem são os interlocutores; 3. Prestar atenção aos repertórios linguísticos; 4. Adentrar pelo campo da retórica em busca da argumentação e da depositação de valores: os qualificadores reveladores do investimento afetivo (Ibid., 1994, p. 156-157).
Essa atualização é expressa pela necessidade de abordagens que melhor compreendam os fenômenos psicossociais e a própria produção de sentido. Essas reflexões são somadas a postulações trazidas ao longo do Capítulo II. Nele, SPINK e col. (2013) afirmam que dar sentido ao mundo, a partir das práticas discursivas e produção de sentido, é uma força poderosa e inevitável na vida em sociedade. Os autores sustentam ainda que a produção de sentido é uma prática social, dialógica, que implica a linguagem em uso. A partir deste ponto eles aprofundam uma abordagem teórico-metodológica, com base no referencial do construcionismo social que contempla três dimensões básicas: linguagem (sendo entendida como ação e produtora de consequências, também é prática social), história (tendo-se como foco a dimensão da
problemática dos contextos de sentidos) e pessoa (na lógica do constante processo de negociação, trocas simbólicas, espaço de intersubjetividade, interpessoalidade).
A entrevista é uma forma de capturar a interpretação de fatos. No caso da metodologia proposta por esta pesquisa, a captura se dá através da observação, anotação e gravação de áudio. Neste sentido, AGUIAR e OZELLA (2013) referem que o pensamento passa por muitas transformações para ser expresso em palavras, de modo a concluir-se que a transição do pensamento para a palavra passa pelo significado e o sentido. Estes autores também relatam procedimentos para análise através dos núcleos de significação que são considerados para fins de análise nesta pesquisa.
O tempo das entrevistas variou de 00:16:18 até 01:18:04. Anterior ao procedimento das entrevistas foram sendo realizados pré-testes em abordagens informais com pessoas do cotidiano, com inserção das ideias que estavam sendo pensadas nos tópicos de interesse da entrevista. Dentre as experiências na pesquisa, a mais desafiadora foi a condução da entrevista com o sujeito de pesquisa A07. Mostrou-se muito disponível para o diálogo e assim permaneceu ao longo de toda a entrevista, e entretanto, foi reportando sua dificuldade em organizar as ideias. Visto que eu ainda não havia lidado com esse tipo de situação em entrevista, procurei remediar e possibilitar o espaço mais propício possível para o encaminhamento da entrevista e apresentação de ideias. Sua expressão não demonstrava nenhum tipo de sentimento relacionado a constrangimento, vergonha ou qualquer similar; mas a elaboração, ainda que a partir de questões da própria vida não foi surgindo.
A partir de determinado ponto, quando A07 expressou “Não consigo não”, optei por finalizar a entrevista para não arriscar que o entrevistado, que vinha e permanecia aparentemente bem em relação à entrevista, viesse a ter algum dos riscos reportados nas considerações éticas da pesquisa. Ao finalizarmos a entrevista este sujeito de pesquisa pediu desculpas por não saber se expressar e colocar em palavras. Foi uma forma simples e sincera de expressar aquilo que ele via como limitação. Sua fala foi acolhida com muito respeito e entendimento da limitação que estava sendo expressada. Fiz a ele o agradecimento pela entrevista e assegurei que, independentemente da maneira como aconteceu a sua expressão, teve a sua importância e seria considerada de forma natural junto às outras entrevistas. Traremos nos resultados maior detalhamento referente a esta entrevista.