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VOZES E CONTEXTOS NA CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO SOBRE DIREITOS E

10. RESULTADOS

10.1 VOZES E CONTEXTOS NA CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO SOBRE DIREITOS E

Os entrevistados que compõem a amostra desta pesquisa possuem um histórico de vida que apresenta situações de peleja para a aquisição do que possuem hoje como conquistas pessoais e materiais e ao que ainda desejam alcançar. A característica das ênfases que apresentam na sua narrativa, aqui abordadas em panorama, revelam um pouco mais sobre estes entrevistados enquanto grupo. Antes de detalharmos as narrativas referentes aos objetivos da pesquisa, apresentaremos estas características (que podem ser complementadas com a observância ao APÊNDICE B) a fim de qualificar este grupo que expressa seus sentidos e significados para as questões que norteiam o estudo.

O entrevistado A01 refere que está no movimento sindical há dois anos e salienta

“agora que estou acordando para o mundo” (Trecho do Diário de Campo, 24/11/2015). Refere

O envolvimento do entrevistado A02 com a política, estando vereador, deve ser considerado no resultado da sua narrativa. Também deve ser considerada sua ampla defesa sobre a situação do campo no sentido de defesa deste modo de vida e de condições para que os jovens permaneçam defendendo a agricultura familiar. Observando-se que, hoje estando com 48 anos, trabalha na agricultura há 45 anos, tendo iniciado aos três anos de idade.

A especificidade do entrevistado A04 é seu grande interesse e mobilização em relação às defesas sociais. Embora recém-admitido em um cargo relacionado à representação em políticas agrícolas, sua narrativa contempla bastante desta preocupação, conhecimento e realidade.

Destaca-se para o entrevistado A05 sua atuação no Conselho Municipal de Saúde e sua experiência pessoal com o recebimento de auxílio doença. Outro destaque é a emissão de pensamentos que não foram identificados nos demais entrevistados. Referindo-se ao acesso aos serviços sociais se expressa da seguinte forma “Porque querer a coisa de graça todo mundo

quer, mas, de repente, muitas vezes não enquadra”.

A destacada especificidade do entrevistado A06 é sua descontração durante o diálogo e a sua declaração sobre o grande sonho de ter o próprio lote. De forma emocionada declarou que sua vocação é ser lavrador e seu desejo é voltar para o campo.

O entrevistado A07 traz como especificidade a grande disponibilidade em dialogar, mas apresentando dificuldade em organizar e expressar seus pensamentos. Parou os estudos muito jovem por ocasião da falta de transporte na área rural.

O entrevistado A08 traz como especificidade pessoal sua mudança do Paraná para Rondônia com 26 anos, sendo que foi uma das lideranças do Movimento Sem Terra no município de Corumbiara, tendo sido da direção deste movimento. Responsabilizou-se pela família ainda jovem e em 1980 participou de uma ocupação no seringal. Sua narrativa e sua preocupação com a agricultura familiar e situação dos agricultores é perpassada por essa defesa da terra e experiência histórica ao longo de toda uma vida. Também é necessário considerar sua vida política, sendo vereador e participando do movimento sindical.

O entrevistado A09 é destacado por ser o mais jovem entre os entrevistados e apresentar uma articulação de ideias que tem muito a ver com sua história de vida em relação ao interesse escolar e acesso ao ensino superior por meio do ProUni.

O entrevistado A10 com idade semelhante ao entrevistado anterior, tem como atividade a faxina de um hotel da cidade. Apresenta pouco aprofundamento para as questões colocadas em reflexão.

A religiosidade é um aspecto que se destaca na narrativa do entrevistado A11 e também sua vivência no Movimento Sem Terra. Mesmo vindo de uma realidade apontada como bastante difícil em relação à agricultura, conseguiu formar duas de suas filhas, uma psicóloga e uma assistência social e seu terceiro filho não acessou o ensino superior, mas tem estabilidade no emprego. Como resultado do seu esforço e organização tem conseguido construir o patrimônio do qual se orgulha.

Para o entrevistado A12 o destaque é em relação à sua atuação como professor na área de ciências humanas. Sua narrativa diante das questões propostas compõe-se deste conhecimento e da sua vivência no sistema educacional do município. É relevante também o destaque que dá para a educação a partir da profissão de professor e da ênfase sobre seus pais serem analfabetos funcionais.

Os entrevistados, em grande parte (A01, A02, A04, A08, A09, A11 e A12), evidenciam o sentido social para com a comunidade da qual fazem parte, demonstrando sua percepção sobre como as políticas públicas estão relacionadas à vida da comunidade. O entrevistado A01, junto ao direito à saúde, expressa que este também é um direito para sua família e seu vizinho. Já o entrevistado A02 revela este sentido na fala que denota sua angústia sobre não ver o jovem da agricultura familiar defender a sua propriedade e a sua comunidade. Este entrevistado também ressalta o sentido social quando destaca uma reflexão geral “Você tem direito de tomar

uma água saudável, eu também tenho. Você tem o direito de se alimentar melhor, eu também tenho de ter”. Na narrativa do entrevistado A04 este sentido está colocado na sua fala sobre

direito: “Não adianta só eu ter direito, mas passar por cima do direito de todo mundo”. Com o entrevistado A08, encontramos este sentido em uma de suas falas sobre a perspectiva do diagnóstico da realidade para definir o que cada um pode fazer em relação às dificuldades apresentada no cotidiano da comunidade, “mas é sentarmos junto, é descobrir o que que vamos

fazer”. Na entrevista de A09, sua colocação que ser cidadão é “atuar no bem estar da sociedade e coletivo” e seu anseio por uma política que “busca o bem comum pra sociedade” expressam

este sentido social. As preocupações do entrevistado A11 sobre a juventude do município, o usufruto pela comunidade dos conhecimentos dos jovens graduados, os relatos envolvendo situações específicas e também sua preocupação com os idosos denotam sua percepção sobre o social. “Quantas pessoas idosas que falam, meu sonho é esse, poderia contribuir mais para a

sociedade, nesse Brasil tão rico que nós vivemos”, diz A11. Esta perspectiva social está

localizada na fala do entrevistado A12 no seu relato sobre educação, no seu questionamento sobre a educação não formar o aluno para ser um cidadão a construir uma cidade.

Ao longo das narrativas também se percebe a preocupação da maioria dos entrevistados (A02, A04, A05, A06, A09, A10 e A11) em relação à pessoa idosa no que se refere ao seu acesso a direitos, à forma como estão sendo tratados pela sociedade e a consideração sobre sua história de vida e contribuições sociais. Cinco dos entrevistados (A01, A02, A04, A09 e A11) apresentaram sua preocupação em relação à contaminação dos alimentos produzidos, da água, das pessoas, por veneno/agrotóxicos. A intensidade das narrativas revela esta preocupação característica da área rural.

Quatro dos entrevistados (A02, A04, A05 e A12) trazem referência direta à Constituição Federal e às leis como mediadoras e garantidoras dos direitos. Os sentidos da espiritualidade e religiosidade estão presentes nas narrativas. De forma direta, está presente em cinco entrevistas (A04, A07, A08, A11 e A12) e em duas, há a referência a Deus em agradecimentos por situações relatadas. Nesta referência direta, dois entrevistados fazem referência à Bíblia para especificar questão de direitos. O entrevistado A04 coloca a Bíblia na perspectiva de referência para pautar a atitude pessoal: “A Bíblia também, pois não adianta

fazer leis em desacordo com o que é mais sagrado, que existiu primeiro do que essas leis”. O

entrevistado A08 cita que até mesmo olhando a Bíblia se pergunta sobre o porquê de “uns têm

tudo e outros não têm nada”. Este entrevistado também faz uma referência bíblica para apoiar

sua defesa sobre o direito de viver bem, “Direito de viver bem, porque, igual tem que ficar

ligado, Jesus disse ‘eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância’, né?”. Os impostos de renda são citados por três dos entrevistados (A02, A04 e A11), como algo que deveria assegurar os direitos e retornar em serviços garantidos ao cidadão.