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7. POLÍTICA SOCIAL, PROTEÇÃO SOCIAL E ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL

7.2 ARQUITETURA DA NECESSIDADE DE PROTEÇÃO

7.2.1 Pobreza e desigualdade

Tendo por referência as proximidades do século XVII, MARSHALL (1967b) aponta que a pobreza era tratada mais como um fato social do que um problema social. Isto diferencia a forma de entender suas forças geradoras e a perspectiva de atuar sobre os determinantes. Destaca-se, portanto, a importância da percepção sobre o objeto. Com isso, traz-se para a reflexão o estudo de REIS (2000) que, a partir de seu estudo sobre percepções da elite sobre pobreza e desigualdade, encontra como dado que nossas elites não incluem a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades entre os seus interesses de fato. Para além disto, fica também constatado que sua visão tem tido um viés individualista, embora no discurso questões de universalidade apareçam. O interesse em conhecer as percepções das elites está no fato de que elas estão inquestionavelmente relacionadas à formulação e implementação de políticas sociais e que também ocupam posições estratégicas em processos decisórios. A elite identifica questões sociais como principais problemas no Brasil e relacionadas às principais ameaças à democracia: baixo nível educacional da população, pobreza e desigualdade. Quando questionada sobre as explicações para o fracasso das políticas sociais, esta elite revela que o

Estado é o grande culpado. Neste ponto não elaboram sua própria responsabilidade no processo nem a responsabilidade coletiva nas situações de pobreza e desigualdade. Ao final, o que o discurso da elite transmite é que não se vêm como parte de uma coletividade e suas considerações sobre pobreza e desigualdade estão mais associadas ao que elas trazem (e tratam) como ameaça à manutenção da ordem e segurança pessoal frente ao que consideram risco, do que propriamente quanto pesa socialmente as situações de pobreza e desigualdade.

Em contraste a este estudo anteriormente citado sobre percepções que podemos classificar como “de fora”, trazemos o estudo de FERNANDES (2012) que apresenta, a partir de sua tese, visões da pobreza na primeira pessoa a partir de sua tese. Tem por objetivo entender como as pessoas experimentam/vivem sua situação de pobreza. Em uma das informações que a autora destaca, o “ser pobre” pode ou não fazer parte da identidade de quem vive esta situação. Os que vivem esta situação mais recentemente não a assumem como elemento identitário, com receio do estigma social, e buscam formas de sair da pobreza. Contrário a isso, quem assume uma postura de aceitação e resignação, acaba por assimilar a pobreza como um modo de vida. Dentro desta reflexão, a autora afirma que o papel da proteção da família é um “amortecedor” dos efeitos desta pobreza. Há um nexo de causalidade entre o nível de coesão familiar e o provimento de apoio afetivo e material.

Sobre o conceito de pobreza, esta autora afirma que a multiplicidade de definições e interpretações do conceito são um auxílio para complementar olhares sobre o fenômeno, se bem que, numa perspectiva contrária contribuem para a existência de equívocos, interpretações simplistas ou que simplesmente a reduzem a aspectos marginais de uma análise que se quer profunda (Ibid., 2012, p. 36).

Diante desta consideração, vê-se como oportuno à reflexão trabalhar com o conceito de ABRANCHES (1987) que define a pobreza como destituição dos meios de sobrevivência física; marginalização no usufruto dos benefícios do progresso e no acesso às oportunidades de emprego e consumo; desproteção por falta de amparo público adequado e inoperância dos direitos básicos de cidadania, que incluem garantias à vida e ao bem-estar. Este autor, trabalhando nesta perspectiva de destituição, afirma que ser pobre significa, em termos muito simples, consumir todas as energias disponíveis exclusivamente na luta contra a morte; não poder cuidar senão da mínima persistência física, material.

Citada por OSORIO e col. (2011), a pobreza é o estado de privação de um indivíduo cujo bem-estar é inferior ao mínimo que sua sociedade é moralmente obrigada a garantir. A pobreza em uma sociedade é o agregado dos estados de privação dos seus membros. Entretanto, traz-se também nesta referência uma reflexão sobre este bem-estar. Não há consenso sobre o

que seja, como medi-lo ou qual é o mínimo bem-estar moralmente aceitável. Embora existam imprecisões em relação a determinados conceitos, temos, por outro lado, informações oportunas para entender o quadro de pobreza e desigualdade no país.

No Brasil, a linha de pobreza divulgada por BRASIL (2014) estava demarcada como: extrema pobreza, até R$77,00/mês e pobres de renda, até R$140,00/mês. Junto a esta mesma referência é relatada a questão da pobreza multidimensional e que a queda desta pobreza no Brasil foi de 76% entre 2004 e 2012. A pobreza multidimensional considera: renda, se as crianças e adolescentes até 17 anos estão na escola, os anos de escolaridade dos adultos, o acesso à água potável e saneamento, eletricidade, condições de moradia e, finalmente, a bens (como telefone, fogão e geladeira). Os dados utilizados no estudo são oriundos do IBGE e PNAD. Para as ações de enfrentamento da pobreza, autores como CAMPBELL (2003) citam a

abolição da pobreza (pois trabalham na perspectiva da pobreza como violação de direitos

humanos), com indicações de garantia de renda, inclusão produtiva e acesso a serviços (ações especificadas pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário no Plano Brasil Sem Miséria). Como base de todas essas ações está a redução da desigualdade de renda e de acesso a meios de produção e serviços.

Como uma forma de ilustrar esta conjuntura trazemos dados do IBGE, Censo Demográfico 2010, segundo os quais a população em domicílios particulares permanentes, segundo as classes de Renda ZERO e Renda Nominal Mensal Domiciliar per capita de 1 a 70 reais era de 16.267.197 (dados referentes à totalidade do país).

Com a informação de que a incidência de pobreza absoluta no Brasil decorre da forte desigualdade na distribuição de rendimentos (ROCHA, 2000), entramos na questão da desigualdade. Embora o foco não seja somente a desigualdade de renda, visto que as questões sociais estão sempre em contextos multidimensionais, muitos estudos apresentam a desigualdade por esta perceptiva. Pesquisadores da área, como REIS (2000), salientam que a abordagem da desigualdade ainda é muito orientada pelos estudos econômicos, embora haja, logicamente, estudos na perspectiva sociológica, antropológica e das ciências políticas.

Para iniciarmos a problematização sobre a desigualdade faremos duas considerações, uma sobre Zygmunt Bauman e outra sobre a Organização Oxfam. Ao questionamento que BAUMAN (2015) faz Quanto somos hoje desiguais?, podemos responder com o relatório Oxfam* de janeiro de 2016.

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OXFAM (2016) indica que em 2015, apenas 62 indivíduos detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas – a metade mais afetada pela pobreza da humanidade; também que: a riqueza das 62 pessoas mais ricas do mundo aumentou em 45% nos cinco anos decorridos desde 2010 – o que representa um aumento de mais de meio trilhão de dólares (US$ 542 bilhões) nessa riqueza, que saltou para US$ 1,76 trilhão.

A organização também indica, tendo como base a referência do Credit Suisse (Ibid., 2016, p. 44) que em 2015 a cada um do 1% mais rico da população cabia aproximadamente US$1,7 milhão.

Analisando a renda daqueles que estão classificados como pobres de renda e dos que estão abaixo da linha da pobreza no Brasil, anteriormente citada, podemos afirmar que somos espantosamente desiguais. Todo este contexto produz no Brasil uma conjuntura que vemos bem demarcada no estudo de MEDEIROS e col. (2015) o qual afirma: a desigualdade no Brasil é muito alta e estável, o 1% mais rico da população adulta concentra mais de um quarto de toda a renda do país, os 5% mais ricos detêm quase metade da renda e um milésimo das pessoas acumula mais renda que toda a metade mais pobre da população junta.

BAUMAN (2015) explora esse tema levantando diversas informações que abrangem a perspectiva da busca das economias nacionais “em desenvolvimento” ou “emergentes” por mão de obra barata e submissa; as questões que determinam o futuro de uma criança; polarização entre ricos e pobres; o efeito adverso da desigualdade no desempenho econômico. Mas há algo que principalmente chama a atenção, a afirmação de que a desigualdade social:

[…]não carece de nenhum auxílio ou estímulo a partir de fora – nenhum incentivo, pressão ou choque. A desigualdade social parece agora estar mais perto que nunca de se transformar no primeiro moto-perpétuo da história – o qual os seres humanos, depois de inumeráveis tentativas fracassadas, afinal conseguiram inventar e por em movimento (Ibid., 2015, p. 19).

Podemos iniciar a problematização sobre a desigualdade no Brasil a partir da referência de POCHMANN e col. (2005). Descrevem o padrão de riqueza no Brasil como sendo uma questão histórica e pontuam a sua estruturação originada a partir de um padrão extremamente concentrado de distribuição social da riqueza. Afirmam que esta é a realidade do país desde o período colonial e explicitam que há uma persistência inacreditável no grau de concentração da renda e da riqueza. Mesmo o país passando por diversas fases (colonial, monárquica, republicana) não parece haver registros de modificação substancial no perfil distributivo, dizem os autores. A manutenção desta desigualdade está alicerçada na estabilidade das classes

superiores que de forma surpreendente, conforme os autores também expõem, e não se desestabiliza, ignorando inclusive transformações profundas na base econômica nacional. As classes superiores permanecem imunes às tentativas de combate à desigualdade, conformando uma sólida e poderosa aliança de interesses que resiste a qualquer mudança no anacrônico quadro distributivo brasileiro (Ibid., 2005, p. 29). Referências mais recentes, confirmam este padrão histórico brasileiro, entretanto sinalizam, com base em análises econômicas que há uma mobilidade social ascendente (com algum impacto na pirâmide social) em curso que revela a transformação maior que se verifica no âmbito tanto da economia como das políticas públicas. No caso, relacionada às políticas de aumento do salário mínimo, transferência direta de renda e políticas de inclusão bancária (POCHMANN, 2010).

LAVINAS e col. (2014) confirmam esta tendência com base na análise sobre o Índice de Gini (coeficiente estatístico usado para medir desigualdade, varia de 0 a 1, sendo 0 a completa igualdade e 1, a completa desigualdade). Sua análise considera o Índice antes e após transferência e incidência de impostos. Embora haja uma inflexão de tendência, ressalta-se que o cenário de alta desigualdade persiste, uma vez que as grandezas não apresentam uma variação significativa.

Para o Estado de Rondônia, onde está localizado o município de Corumbiara, os dados conforme POCHMANN e col. (2005, p.82) revelam que no mais de 70% das famílias constituem-se de migrantes, indicando que parte da riqueza provavelmente veio de fora. Afirma-se também que 66% das famílias ricas são brancas, fato que fica destacado quando se conta na região Norte com apenas 1/3 de famílias brancas. Esses dados são importantes, pois se de um lado tem-se riqueza concentrada, de outro pode-se ter um cenário de exclusão social. Exclusão essa que tem sua determinação na necessidade das pessoas e assim, colocando-as como potencias beneficiárias da proteção social.

A percepção das elites sobre a pobreza e desigualdade, os eixos para enfrentamento da pobreza (geração de renda e incentivo ao acesso a bens e serviços), o histórico de desigualdade no Brasil (com reflexo em Estados e municípios) nos ajudam a identificar um claro ponto de tensão, no qual defesas opostas de interesses estão identificadas.

A partir de dados do IBGE trazemos dados para evidenciar um aspecto da renda para o município de Corumbiara, baseado no salário mínimo e cor ou raça. A seguinte tabela 2 demonstra tanto a desigualdade entre as faixas de salário mínimo quanto as questões de cor ou raça por cada faixa salarial. Em que pese o fato de a característica do município revelar maioria de população parda, ainda assim podemos continuar refletindo questões sociais a partir da tabela.

Tabela 2 – Relação de Rendimento por Cor ou Raça no município de Corumbiara/RO, segundo o Censo Demográfico de 2010

Salário Mínimo

Cor ou Raça

Parda Preta Indígena Branca Amarela TOTAL

Até 1/8 325 27 - 217 - 569 Mais de 1/8 a 1/4 613 65 - 396 - 1.074 Mais de 1/4 a 1/2 1.106 174 - 750 70 2.100 Mais de 1/2 a 1 1.422 268 4 1.104 44 2.842 Mais de 1 a 2 665 176 - 442 23 1.306 Mais de 2 a 3 125 36 - 132 7 300 Mais de 3 a 5 28 - - 64 - 92 Mais de 5 a 10 40 - - 45 - 85 Mais de 10 - - - 8 - 8 TOTAL 4.324 746 4 3.158 144 8.376 Sem rendimento* 143 - - 131 - 274

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE com base no Censo Demográfico de 2010. Disponível em: http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/temas.php?lang=&codmun=110007&idtema=90&search=rondonia|corumb iara|censo-demografico-2010:-resultados-da-amostra-caracteristicas-da-populacao-

*Inclui as pessoas que receberam somente em benefícios

Conforme a tabela 2 podemos observar que na estrutura de Corumbiara, mais de 94% da população tem rendimento situado na faixa de até dois salários mínimos. Considerando que para o ano de 2010 a referência de salário mínimo é R$510, teremos então, a maior parte da população vivendo com rendimento de até R$1.020, sendo que a maioria tem rendimento situado na faixa de entre mais de R$255 e R$510. Comparando-se o mínimo rendimento e o máximo rendimento temos que: quem tem menor rendimento situa-se na faixa de nenhum rendimento até R$63,75 e as oito pessoas (que não representam nem 0,1 % da população total) que mais recebem, recebem no mínimo R$5.100,01 em diante. Assim, recebem pelo menos oitenta vezes mais que a faixa de mínimo recebimento.

Olhar para o valor de PIB per capita de R$18.667,54 dado para o município, porém observando juntamente em que faixa salarial se dá a maior parte da população, fica sugerida (ou demarcada) a questão da desigualdade de renda.