Capítulo 2 Educação do Campo
3. Os segredos da continuidade
3.3 Envolvimento da Comunidade
O envolvimento da comunidade é um dos eixos centrais do programa. Os moradores do Assentamento Bela Vista do Chibarro participam da rotina da escola e o projeto político pedagógico foi especificamente baseado no diagnóstico da comunidade. Estar mais próximo dos pais e do contexto dos alunos facilita o trabalho dos educadores e o torna mais significativo para todos. Essa parceria é imprescindível para o sucesso e continuidade do programa.
Iniciaremos pelo subtema mais abordado em relação ao envolvimento da comunidade,
o trabalho profissional e voluntário dos moradores do assentamento na escola:
Pq – Você também mora aqui? F – Moro, tem 16 anos.
Pq – E que você trabalha na escola tem quanto tempo?
F – Tem oito, mas fiquei uns quatro de voluntária, passava o dia todo aqui, ajudava com um menino que tinha dificuldade de se comportar. Também ajudava na limpeza, na cozinha, tudo. E hoje, graças a Deus, eu trabalho aqui. Sabe, eu rezo muito a Deus para proteger todos aqui.
P - Isso tudo é a diretora e o povo, teve mãe que trabalhou de voluntária aí anos.
Além dos mutirões de reforma no início do programa, quando muitos moradores puderam contribuir, algumas mães trabalharam como voluntárias na escola. A dedicação da comunidade no dia a dia escolar é uma fonte de riquezas. As mães podem cuidar e participar mais de perto da educação de seus filhos e contribuir para o bem estar da comunidade. A
maioria dos funcionários da área administrativa - secretaria, pessoal da limpeza, serviços gerais e jardinagem – também é morador do assentamento. Os moradores realmente cuidam da escola como bem público, um bem comunitário.
O segundo subtema abordado em relação ao envolvimento da comunidade é a
participação no cotidiano da escola. A escola compartilha a preparação dos projetos com os
moradores; eles participam do levantamento das demandas antes da elaboração dos projetos e sugerem melhorias e reformas. Essa escuta também promove a continuidade porque a efetividade das ações é maior quando a população destinatária dos serviços participa da criação dos mesmos. Vejam os seguintes relatos:
A – E você, o que está fazendo aqui?
Pq – Sou psicóloga e pesquisadora, estou tentando compreender o segredo dessa escola. Vim aqui aprender com vocês, por que a escola deu certo e por que ela continua até hoje.
A – É, aqui a Adriana faz tudo com a comunidade. As pessoas opinam, ela escuta. O projeto da Embraer, por exemplo, ela escutou a opinião de todos.
Pq – E os Parceiros, a comunidade?
SE – A comunidade também vai questionar os alunos vão dizer “ano passado a gente foi em tal lugar” então vão querer ir de novo. Um fato que acho que repercutiu na premiação da FGV, foi o fato da comunidade ter entrado pela porta da frente. Foi à valorização dos pais, do conhecimento comum do conhecimento popular, a utilização dos lotes para pesquisa, para aprendizagem. A escola percebeu que não sabe tudo, os pais também perceberam que não sabem tudo e os alunos também. Olha Paulo Freire teria se realizado com essas experiências, é uma riqueza muito grande.
A valorização dos saberes da comunidade aparece novamente. A comunidade está na escola assim como a escola está na comunidade. Esse intercambio proporciona um fortalecimento infalível, base do sucesso da EMEF do Campo Prof. Hermínio Pagôtto.
O vínculo da comunidade com o MST é também um subtema importante a ser
assinalado. O ponto principal é que o Assentamento não foi uma ocupação do MST; foram trabalhadores sindicalizados que participaram das inscrições da FERAESP para as distribuições de terras desapropriadas pelo INCRA. Existem, sim, alguns moradores vindos do MST que também participaram das inscrições e dos sorteios dos lotes. Mas, como fica claro no relato seguinte, o MST aparece vinculado apenas por sua concepção teórica de educação do campo e afinidade com o tema da reforma agrária:
Pq – Eu parti desses símbolos, incluindo o MST, para compreender o embasamento teórico e o envolvimento da escola com esses símbolos e percebi uma resistência muito grande das pessoas daqui em relação ao MST. SE – É que as pessoas aqui, tirando algumas exceções, não tem ligação mesmo ao movimento. O MST entra aqui como uma passagem mesmo em relação à educação do campo, que foi criada por esse movimento.
F – E você? Porque está tirando essas fotos?
Pq - Estou querendo saber sobre o vínculo da escola com MST, procurando símbolos. Tem esses cartazes em todas as salas né?
F – Não tem vínculo não; aqui é do INCRA. Foi um acampamento; não teve invasão; é do INCRA. Os cartazes são por causa da educação do campo.
O tema participação da comunidade se encerra com a participação dos moradores na
história do assentamento e da escola. A permanecia da EMEF do Campo Prof. Hermínio
Pagôtto no campo foi uma conquista dos moradores da comunidade do Assentamento Bela Vista do Chibarro que, unidos com os gestores da escola, lutaram para que seus filhos pudessem ter uma educação de qualidade no campo. O conhecimento e participação dos pais, tanto no processo de implementação do projeto, quanto na constituição do assentamento, aproxima os moradores da escola e facilita o acesso da escola na comunidade.
Pq – E o senhor o que acha?
P – A historia aqui é antiga, já passaram dois diretores, vários mandatos, os prefeito ajudou muito. Eu acho assim, que se não tivesse uma boa direção, bons funcionários e tudo, isso aqui não ia para frente não. Isso aqui, quando o povo da usina queria mexer, antes de ser assentamento, era acampamento ainda, nós não deixamos não...