4.5 EPISÓDIOS ESCOLARES
4.5.4 Episódio 4 - Brincar nunca mais
Brincar com crianças não é perder tempo, é
ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola,
mais triste ainda é vê-los, sentados
enfileirados, em salas sem ar, com exercícios
estéreis, sem valor para a formação do
homem.
(Carlos Drummond de Andrade)
O quarto episódio selecionado envolveu a mãe de uma criança de quatro
anos de idade e a sua professora, e teve origem nas muitas queixas que o porteiro e
a funcionária de apoio da escola costumavam fornecer aos pais, geralmente no
horário de saída das crianças da escola. A criança que o protagoniza não costumava
permanecer sentada, imóvel na cadeira enquanto aguardava o portador. Ao
contrário, liderava os demais colegas que a seguiam nas corridas e brincadeiras
espontâneas.
A nosso ver, o pressuposto dos funcionários era de que, desde quando as
atividades em classe se encerravam, as crianças não poderiam continuar em
atividade, como se fosse possível imobilizá-las a partir daquele momento até a
entrega aos seus respectivos portadores. Aqui, lembramos que o período para a
entrega das crianças aos seus portadores costumava se estender em até 45
minutos, logo, era preciso que houvesse pessoas a supervisioná-las enquanto
brincassem. Ao invés disso, as funcionárias de apoio ocupavam-se da limpeza e
arrumação da escola, e o porteiro ficava à sombra de uma árvore, literalmente,
próximo ao portão de entrada.
Em uma daquelas manhãs, durante o horário de saída, a criança em pauta
brincava de pique com mais alguns colegas, quando tombou com um deles que caiu
e feriu-se. Entre o choro e o machucado, houve a intervenção da funcionária,
responsabilizando a criança pelo acidente, mesmo sem ter testemunhado o ocorrido
e sem dar-se conta de sua ausência e omissão no momento e no local.
Enquanto atendia à criança machucada, todas as outras foram postas de
castigo. Em seguida, a funcionária permaneceu no local até que a última fosse
entregue. Para a portadora da criança, líder da brincadeira, foi passada a queixa
sobre o seu inadequado comportamento, ou seja: não permanecer sentada
enquanto a esperava, chamar os colegas para brincar, e ―empurrar‖ o colega que
caiu e feriu-se. A queixa apresentada pela funcionária foi reforçada pelo porteiro que
nada havia assistido, enquanto a criança sequer foi indagada ou ouvida.
Mostrando-se indignada com a atitude do filho, a mãe passou a lhe fazer várias ameaças que
iam do castigo físico à privação do que ele gostava. Chamou-nos atenção ela
ordenar à funcionária que não mais deixasse a criança brincar. Em outras palavras,
houve, por parte da mãe, um apelo para que a proibição de brincar fosse cumprida,
e a desobediência lhe fosse comunicada.
A ocorrência deu-se em uma quarta-feira. Na sexta-feira seguinte,
observamos que, no horário de saída da escola, a criança não mais aguardava
sentada no pátio, juntamente com as demais crianças. Acompanhava a funcionária
queixosa até o recinto em que essa limpava, e quando a indagamos sobre aquele
procedimento, disse-nos que era para evitar problemas. Lembramo-nos do tombo
das crianças dois dias antes, e ela disse-nos que cumpria as ordens da mãe da
criança.
Na semana seguinte, observamos que a professora e a funcionária cumpriam
rigorosamente a proibição da mãe em relação à criança não brincar. Em classe, ela
participava de todas as atividades e interagia bem com os colegas, mas, no horário
do recreio, após o lanche, permanecia com a professora, onde quer que ela fosse, e
na saída acompanhava a funcionária de apoio.
Uma vez que a situação pareceu-nos duradoura, conversamos inicialmente
com a criança. Indagando-a se ela sabia por que estava ao lado da professora no
recreio. Disse-nos que era castigo. Sobre a razão do castigo, disse-nos haver
derrubado o colega. Já a professora deu-nos como explicação uma estratégia
educativa que consistia em apoiar as decisões dos pais quando fosse para corrigir
os filhos. Acreditava que, quando percebesse que não poderia desobedecer a
funcionária, tampouco machucar os colegas, mudaria o comportamento, caso
contrário, permaneceria sem direito a brincar.
Indagamos-lhe sobre como ficou sabendo do fato, referindo-nos ao tombo das
duas crianças no pátio. Respondeu-nos que através da funcionária que estava
presente e lhe passou a ocorrência, mas não havia estado com a mãe da criança.
Buscamos saber da professora o que significava brincar para aquela ou outra
qualquer criança, e como analisava a proibição da mãe. A esse respeito, disse-nos
que ―brincar era natural a todas as crianças, mas há brincadeiras e brincadeiras,
logo, nem tudo é brincadeira‖. Naquele caso específico, era preciso submetê-la a um
castigo para aprender desde cedo a obedecer aos adultos e a respeitar os colegas.
Quisemos saber se ela havia conversado com a criança, se acreditava que ao deixar
de brincar com os colegas teria outros prejuízos sociais, afetivos, intelectuais e se
ainda pretendia conversar com a mãe e com as demais professoras da escola sobre
o fato. Para ela, era necessário conversar sempre com a criança, porque assim ela
tomaria consciência dos seus atos. Ademais, ficar sem brincar era o pior castigo
para uma criança, logo, a conversa associada ao castigo tenderia a mudar a conduta
da criança. Em relação aos adultos, mãe e professoras da escola, se houvesse
oportunidade, mesmo não tendo sido testemunha do tombo das crianças,
conversaria com todas sobre o assunto para apoiarem-se mutuamente.
Considerando a idade da criança, era previsto que ela não suportaria por
muitos dias a privação das brincadeiras com os colegas, de maneira que, em poucos
dias, passou a desobedecer ao imperativo de não brincar e seguia com os colegas
para a área externa. Ali, a criança driblava o porteiro que, sob a ordem da
professora, buscava apreendê-la em meio às brincadeiras coletivas. No horário de
saída da escola, passou a fugir da funcionária, que se via obrigada a buscá-la em
outros locais, interrompendo o serviço de limpeza e arrumação. Nessas ocasiões, a
criança era lembrada do castigo que lhe fora imputado: nunca mais brincar na escola
porque não obedecia e porque machucara o colega, sempre dito de maneira
enfática, quase torturadora porque pediam que a criança repetisse como uma
maneira dela se autoconscientizar.
Indagamos à funcionária e ao porteiro sobre o assunto e, finalmente, à mãe,
porque a situação se agravava a cada dia, pois gradativamente a criança foi criando
novas estratégias para fugir da presença daqueles que aimpediam de brincar.
Assim, passar por debaixo das cadeiras e outros mobiliários, arremessar objetos
para ir buscá-los e não retornar, ou mesmo enfrentar os adultos e correr deles,
tornava-se comum e criava alguns mal-estares.
Os funcionários disseram que a criança era traquina, não obedecia, era
―perigosa‖. Acreditavam que o castigo estava sendo bom para ela aprender a
obedecer, mesmo que ainda testemunhassem o contrário. A mãe da criança
disse-nos que, quando falou com a funcionária queixosa sobre a proibição das
brincadeiras, referia-se às brincadeiras que envolviam corridas e outros perigos,
para evitar os acidentes com os colegas e com ela mesma. Indagamos se os avisos
fornecidos à criança no dia do pequeno acidente com o colega eram advertências
caso ela desobedecesse aos adultos? Mas ela sequer lembrava o que havia dito.