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4.5 EPISÓDIOS ESCOLARES

4.5.2 Episódio 2 - Fora do meu alcance

Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.

(Fernando Pessoa)

O episódio em destaque retrata a omissão de todos os professores,

funcionários e diretor de uma das escolas da pesquisa em relação a uma criança,

sexo feminino, de quatro anos de idade. Apesar de ela fazer parte de um grupo

dirigido por uma professora atuante, dedicada e pedagogicamente preparada, nesse

caso, específico, sua intervenção limitou-se a buscar informações sobre a vida da

criança e aconselhá-la.

Durante dois semestres letivos acompanhamos o cotidiano das escolas, das

salas de aula, da entrada e saída das crianças, e as atividades extraclasses que nos

eram permitidas acompanhar. Nesse período, sobre a criança desse episódio, nos

intrigamos com suas ausências constantes, sua aparência descuidada, sua

linguagem e histórias.

De pequena silhueta, algumas vezes cabisbaixa, a pequena menina somente

chamava atenção por sua aparência extremamente negligenciada. Os cabelos

crespos não eram devidamente penteados, a pele escamada, marcada por muitas

picadas de insetos e pequenas cicatrizes, sem brilho e sem perfume, vestida e

calçada quase sempre também de forma descuidada, a criança tinha uma aparência

de criança desassistida, do tipo que vive pelas ruas. Sua sacola escolar, doada pela

própria escola, era suja e desbotada, contendo nada de pessoal além do

classificador de atividades e uma caderneta repleta de observações escritas pela

professora. A maioria delas indagava sobre as faltas da criança às aulas e os

atrasos dos seus portadores. Algumas eram avisos sobre mudanças no calendário

escolar, feriados, pontos facultativos e convites de festas. Nenhum chamado dirigido

aos pais.

As faltas da criança foram justificadas apenas uma vez por um dos seus

tantos portadores, o qual alegou que nem sempre havia quem a levasse à escola.

Essa versão não se confirmou, pois a criança nos disse que passava dias em outra

localidade, onde prestava ajuda laboral na roça, juntamente com a mãe e a tia. Das

informações que nos prestou, concluímos que essas eram trabalhadoras rurais,

colhedoras de frutas cítricas (laranja e limão), cultivadas em grande escala naquela

Região do Recôncavo Sul, e que provavelmente era a principal fonte dos seus

sustentos. A criança as acompanhava, tal como fazem outras tantas daquela

Região, sem que a mãe tenha consciência que assim agindo torna-se agente

violadora dos seus direitos. Sobre o grande número de portadores que a buscavam

na escola, isso se devia a não haver alguém da família que pudesse atendê-la no

horário de funcionamento da escola, então a mãe apelava para a vizinhança.

Verificamos, através da sua ficha escolar, que pertencia a uma família pobre,

vivendo na periferia da cidade, dirigida apenas por sua mãe, cuja prole era pequena,

mas ainda de pouca idade. Tinha uma irmã mais velha, com 11 anos, e a segunda,

antes dela que era caçula, com sete anos. Cotidianamente as três meninas ficavam

sozinhas durante o dia, costumavam brincar pelos campos de barro próximos à

casa, indo à escola esporadicamente. Essas informações nos foram fornecidas pela

própria criança quando perguntamos sobre o que ela fazia durante o dia, onde

morava e com quem, isso de maneira informal. Sobre as mazelas espalhadas por

sua pele ficou confirmado que eram provenientes de picadas de insetos nos

laranjais, das brincadeiras de rua e traquinagens próprias da infância. Apenas uma

marca de queimadura em sua mão direita foi resultado de uma violência doméstica.

Contou-nos que uma prima de 16 anos de idade disputou com ela uma moeda de

um real, e como não aceitou perder a disputa, a queimou com a própria moeda

aquecida ao fogo. Essa versão não foi confirmada por sua irmã mais velha,

falou-nos de uma queimadura com gordura quente, sobre um sinal de pele já existente.

Uma criança de quatro anos que não apresentava um vocabulário

desenvolvido quando comparado aos de seus colegas de classe; não conseguia

articular corretamente as palavras, trocando ou subtraindo algumas letras,

dificuldade que não a inibiapara falar quando provocada para tal fim.

O fato de ser faltosa lhe deu o título de ―aparecida‖, e algumas vezes, ao

entrar na classe, as colegas entoavam um refrão de cantiga de roda infantil

―apareceu a margarida, olé, olé olá‖, mais isso também não parecia constrangê-la.

Apesar de sua aparência não ser atrativa, as colegas lhe reservavam lugares,

conversavam, trabalhavam e brincavam com ela sem restrições, pareciam querer

cuidar da menina.

Ela gostava de contar histórias longas, sabia muitas, algumas com assombros

de almas apenadas. Nas atividades escolares, seu desempenho era diminuto,

enfrentava dificuldades no manuseio dos objetos escolares e suas habilidades

gráficas também estavam em discrepância com as dos demais colegas da classe.

Sobre seus atrasos de saberes e habilidades, sua professora os atribuía às suas

ausências na escola e ao descaso da família para estimulá-la e acompanhá-la.

Duas situações intrigantes envolvendo a frequência da criança que não foram

desvendadas pela escola: a irmã mais velha foi buscá-la na escola, entretanto,

naquele dia, a menina não havia comparecido; a criança permaneceu na escola até

as 18h00min, obrigando a funcionária a levá-la até sua casa. Por esses tantos

motivos, a situação dessa criança sempre esteve em pauta nas conversas informais

das professoras e funcionárias, mas nenhuma alternativa para melhorar a situação

em que ela se encontrava na escola era sugerida. Contava a favor da criança o fato

dela ser calma, doce, agradável com todos e parceira dos colegas. Uma aluna que

não apresentava avanços em suas aprendizagens, mas, também, não dificultava a

disciplina, as atividades da professora ou da escola em geral.

No final do ano letivo, quando a professora estava organizando os blocos de

atividades produzidas por cada aluno para entregar aos pais, duas de suas alunas

estavam ao lado dela, curiosas e querendo ajudá-la na organização dos papeis. O

bloco mais fino de atividades era exatamente da criança escolhida para protagonizar

este episódio. Não havia mais que 20 páginas, e ao folheá-las, as colegas diziam ter

sido elas que haviam feito as tarefas. Ou seja, além da criança ser faltosa, quando ia

à escola, as atividades gráficas, pinturas, desenhos e colagensera muitas vezes

elaborado pelos colegas, talvez como uma maneira de ajudá-la a conclui-las.

Outro documento que acessamos foi o relatório final, no qual as avaliações

individuais referentes ao acompanhamento da criança sobre vários aspectos eram

registradas. No documento, a professora declarava que, apesar da baixa frequência,

a aluna desenvolveu-se no plano social e afetivo-emocional. Segundo ela, nos

demais planos a criança manteve-se no patamar das aprendizagens que já havia

alcançado, de maneira que não apresentava retrocessos ou novas dificuldades. No

plano intelectual, a escola pontuava a linguagem, o conhecimento lógico-matemático

e o conhecimento de mundo. Sobre esses conhecimentos, não havia referência ou

relato, deixando claro que a criança nada havia progredido ou não havia sido

avaliada.

Indagamos das professoras que concluíam seus relatórios qual seria o

encaminhamento daquela criança para o ano seguinte. Responderam-nos que

seguiria para o grupo de cinco anos e ―quiçá‖ mudasse o ritmo de sua vida, para

que, no ano seguinte, o relativo ao primeiro ano do ensino fundamental, pudesse

ingressar na escola com alguma base para aprender a ler e a escrever. Pareceu-nos

consenso de todos os presentes, quatro professoras, duas funcionárias e a diretora,

que, para elas, a família da criança era a responsável por sua estagnação nas

aprendizagens escolares, uma vez que os argumentos apresentados

responsabilizava a mãe por não assisti-la, por não procurar a escola e acompanhar

o processo escolar da criança ou eleger outra pessoa para substituí-la nessa tarefa.

Sobre o ingresso da criança, a história familiar e o trabalho da escola para

melhorá-la, disseram-nos que era o primeiro ano da criança na escola, que veio de

uma creche próxima, e que o fato de ficar sem a presença de um adulto fez que ela

e as irmãs levassem uma vida sem regras, referindo-se à instabilidade dos horários,

à ausência de uma rotina organizada.

Sobre a possível ida da menina para laborar na zona rural, acreditavam que

isso também contribuía para ela faltar às aulas. Mas, a escola não poderia interferir

diretamente nessa questão, apenas a assistiam quando ela estava presente e

aconselhavam a mãe a cuidar para que isso não ocorresse com tanta frequência,

afinal, a mãe poderia perder o benefício do Programa Bolsa Família, caso a escola

computasse todas as faltas da criança.

Dessa conversa informal com as professoras, a parte mais significativa para a

nossa pesquisa foi saber, delas próprias, que a escola não poderia tomar iniciativa a

fim de melhorar a qualidade das aprendizagens da criança, como também para

reorganizar aspectos da sua vida e da sua frequência à escola. Isso ficou claro

quando indagamos sobre as medidas adotadas pela escola em relação às

dificuldades que a criança apresentava em sala de aula. Uma vez mais ouvimos da

professora que ela não apresentava dificuldades, apenas não avançava como os

demais. Que as medidas foram tomadas, mas como a menina não ia à escola, ela

também não vislumbrava como poderia ajudá-la. Os trabalhos pedagógicos da

escola, ela se dispunha a fazê-los, mas, educá-la e prepará-la fora daquele

ambiente estaria fora do seu alcance. Todos os presentes apoiaram a posição da

professora declarante.