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4.5 EPISÓDIOS ESCOLARES

4.5.5 Episódio 5 -Crianças e desesperanças

Quero tornar-me aquilo que sou: uma criança feita de luz.

(Katherine Mansfield)

Quando as expectativas da professora viram profecias, é preciso ponderar

sobre o risco de haver violação dos direitos da criança. Foi, pois, diante de situações

dessa natureza que construímos este episódio envolvendo quatro crianças do grupo

cinco de uma das escolas pesquisadas.

A professora desse grupo costumava caracterizar as crianças a partir dos

comportamentos evidenciados em classe, segundo as informações que obtinha, e

conforme suas próprias percepções e interpretações. Assim, quanto ao

comportamento delas na escola dizia existir os quietinhos, os molengos, os capetas,

os atrasados, os sonsos, e os mentirosos. Tomando as informações que detinha

sobre as famílias das crianças, aludia existir os que eram bem cuidados, os

abandonados e os problemáticos. E, por fim, conforme sua própria percepção, elegia

dois caminhos para seus alunos: o da esperança e o da desesperança.

A observação no referido grupo foi de difícil acesso porque a professora era

resistente a nossa presença. Isto ficava claro quando organizava a nossa agenda de

observação naquela classe. A docente conseguiu adiar algumas sessões de

observação sob a alegação de que precisaria sair cedo, que deixaria a classe sob a

responsabilidade de outra professora, entre outros argumentos, quando também

solicitava verbalmente que ocupasse a agenda em outras classes da escola.

Quando, por fim, conseguimos iniciar as observações, registramos algumas cenas

que ora nos servem como parte de uma história que culmina no episódio em pauta.

Dentre as cenas registradas destacamos: havia uma rotina de composição

dos grupos de trabalho em classe, cuja organização tomava como critério separar as

crianças mais ativas, distribuindo-as nos diversos subgrupos, como uma maneira de

coibir a agitação entre eles; a distribuição de materiais e das atividades seguia a

seguinte ordem: primeiramente atendia-se àquelas crianças cujo ritmo de

elaboração das tarefas era mais lento, e posteriormente os mais rápidos; as crianças

consideradas mais inquietas tomavam lugares no final das filas quando se dirigiam

para a cantina ou para o toalete; as mochilas de algumas crianças eram vistoriadas

no final das aulas; alguns alunos recebiam recorrentemente os mesmos avisos, cujo

teor reforçava as caracterizações das crianças, segundo a visão da docente.

Seguindo a ordem dos registros realizados quando das observações naquele

grupo escolar, destacamos primeiramente a declaração da docente sobre a

organização arbitrária das mesas de trabalho em classe. Para ela era necessário

manter esse controle de quais crianças poderiam ficar juntas em sala, porque do

contrário passaria o tempo da aula reclamando com elas, uma vez que quatro deles

eram os ―capetas‖ e incomodavam às demais crianças, impedindo o

desenvolvimento das atividades. Por isso, ela colocava cada um deles em

subgrupos diferentes. Quando ocorria deles buscarem-se uns aos outros dentro da

sala de aula, a professora imediatamente os separava como se houvesse um perigo

eminente, decorrente daqueles contatos.

Em relação ao desenvolvimento das atividades escolares, a docente entendia

que para efeito de manter a classe sobre o seu controle, deveria identificar quais

eram os ―molengos‖ e os ―atrasados‖ para que pudesse adiantar a realização das

suas tarefas, enquanto os demais concluiriam as atividades com mais facilidade e

em menor tempo. Entretanto, não entendíamos como a professora administrava

essa subdivisão dos subgrupos, criada por ela própria, porque percebemos haver a

união e ou intercessão dos mesmos. Entendíamos que uma criança ou um subgrupo

delas poderia fazer parte dos subgrupos dos ―sonsos‖, dos ―capetas‖ e dos

―atrasados‖, como poderia fazer parte dos ―molengos‖, dos quietinhos‖ e dos

―mentirosos‖, ao mesmo tempo, e isso configurava um equívoco pedagógico

elementar e uma conduta discriminatória sem precedentes didáticos.

Sobre a distribuição dos lugares nas filas, a professora acreditava que ―os

capetas‖ se dispersariam com facilidade e comandariam algum tipo de bagunça.

Então, nesse caso específico, ela permitia que eles ficassem juntos, porém próximos

dela que seguia a fila ao lado de todos eles.

Certamente a professora observava a sua classe e conhecia os

comportamentos mais comuns dos seus alunos. Provavelmente essa era a razão

que ela justificava a si própria para agir de maneira a manter o controle das ações

naquele recinto. Isso se evidenciava quando ela passava os avisos em sala de aula

carregados de observações particulares, dirigidas às crianças e aos seus familiares,

cujas advertências se amparavam nas caracterizações que já havia construído sobre

elas, sem réplica das mesmas.

Assim, as quatro crianças que nos inspiraram a apresentar este episódio

foram expostas diversas vezes como abandonadas, desassistidas e sem

perspectivas futuras. Frases como ―eu sei que você vive à toa, mas peça a sua avó

que pelo menos devolva o livro de história‖, ou ainda, ―eu estou enviando por enviar,

porque já sei que ninguém em sua casa sabe ler, e se soubesse também não leria

pra você‖. Em outro aviso disparou: ―você sabe que está atrasado, mas ainda fica

brincando, ao invés de fazer a atividade. Por isso ficará sempre mais atrasado que

os seus colegas‖. Essas e outras frases que prediziam a estagnação das

aprendizagens das crianças e a impossibilidade de ascenderem intelectualmente

estavam presentes nos discursos da docente, marcados por traços de intolerância e

discriminação, dirigidos àquelas quatro crianças.

Indagamos a professora se ela acreditava no processo educativo da escola,

como um caminho para superação dos limites intelectuais de algumas crianças, e

também se as expectativas do professor sobre seus alunos poderiam alterar

fundamentalmente os resultados das aprendizagens deles. Para ela, assim como a

criança apresentava limites, a escola também os tinha, e não era em todos os casos

que a escola poderia atuar. Disse-nos que a escola não conseguiria mudar a

realidade da criança, daquelas que viviam em famílias sem estrutura, referindo-se à

desassistência de algumasdas crianças pelas famílias. Então, ao conhecer a família

da criança, ela poderia prever, em parte, sua trajetória escolar, de maneira que as

expectativas da professora dependeriam do que ela saberia sobre seu aluno em sala

de aula, como também de saber como ele era assistido fora da escola.

4.6 VIOLAÇÕES DOS DIREITOS DA CRIANÇA NO DIA-A-DIA DA EDUCAÇÃO