5 PROCESSOS DE ESCOLARIZAÇÃO DE LUANA
5.2 EPISÓDIOS DE LINGUAGEM
5.2.8 Episódio 8: Estudantes + Professora x Tempo
Momento 1: Pausa para achar as páginas
Em silêncio, a professora escreveu no quadro branco: I Guerra Mundial (1914 – 1918)
Revolução Russa (1917)
Luana: professora, não existem estas páginas no meu livro! Gritou enquanto folheava afoita o livro didático
Professora: não são páginas, são anos. Você quer saber qual é a página? É a 96. E em seguida escreveu no quadro:
Página 96.
Luana: muito barulho!
Pesquisadora: não precisa ficar agitada, eles estão agitados, nós não estamos.
Ela respirou fundo, as pernas quicavam embaixo da mesa, demonstrando um nível alto de ansiedade, enquanto alguns estudantes ainda conversavam entre eles e a professora escrevia no quadro.
Pesquisadora: quer que eu dite para você? Luana: por favor.
A pesquisadora iniciou a leitura do quadro em ritmo de ditado e ela escrevia no caderno. A turma parecia acompanhar a cópia e a conversa paralelamente. Mas para Luana realizar as duas atividades era difícil. Luana: conseguimos! Você arruma uma bola de sabão para eu entrar? Para eu ficar lá dentro? Dizia ela sorrindo e aguardando uma resposta. Pesquisadora: se você ficar dentro de uma bola de sabão não conseguirá ouvir as pessoas e as pessoas também não irão ouvi-la. É isso que você quer?
Ela balançou a cabeça de forma negativa e sorriu (SALA DE AULA, junho/2018).
Momento 2: Pausa para a água
A professora começou a fazer a explicação oral do assunto em estudo, Luana parecia distraída sorrindo e cantando em voz baixa. Quando a professora fez a relação do que ela explicava a História da Anastácia, uma personagem da Disney, que se passou em São Petersburgo, Luana voltou a sua atenção para a professora, mas quando a professora retorna para o conteúdo específico da aula, Luana se distrai.
Luana: vou beber água! (pegou sua garrafinha sobre a mesa)
A professora, explicando, fez um quadrado no quadro e rascunhou uma escrita explicando como fica a imagem com legenda no livro.
≈≈≈
Quando Luana retoma a atenção, diz em voz alta: Luana: precisa fazer um quadrado com água?
Após a pergunta a turma se agitou novamente. Enquanto a professora solicitava o silêncio da turma, eu expliquei para Luana o significado do desenho (SALA DE AULA, junho/2018).
Momento 3: Pausas no ditado
A professora continuou a aula dizendo que iria ditar, mas as pausas no ditado da professora eram atravessadas por advertências aos estudantes que conversavam e esquemas para exemplificar escritas no quadro.
Professora: a Rússia pré-revolucionária foi palco de diversos conflitos sociais, políticos e econômicos que desencadearam uma ebulição social. O que não teria acontecido se o “Paulo” parasse de conversar. O Czar (imperador russo) versus o ideário comunista de Karl Marx. O comunismo nunca existiu na realidade, é uma ideia. A mesma ideia que tive agora de convidar vocês dois para conversar lá fora se não pararem.
______/_____________/______________/__________________/______ Socialismo Consciência de classe Ditadura do proletariado Comunismo
(SALA DE AULA, junho/2018).
Momento 4: Pausa para mediação
Luana não conseguia diferenciar o que era o texto ditado e o que eram as advertências, assim escrevia tudo em seu caderno. E entre os textos copiava os esquemas do quadro. Foi preciso mediar:
Pesquisadora: Luana, vamos fazer assim: a professora vai ditar, eu escrevo no meu caderno e você copia?
Luana respondeu positivamente com a cabeça.
Entre um ditado e outro, a professora fazia esquemas no quadro que eu copiava na sequência em meu caderno. Outras explicações verbais da professora eu traduzia com esquemas para que Luana também copiasse.
Operário x Burguesia Trabalhador x donos da riqueza Luana: aonde está isso? (Procurando no quadro) Pesquisadora: ela não escreveu, mas ela disse.
Então, Luana copiava exatamente os esquemas que eu fazia no caderno: Por vezes, a professora também parava o ditado e fazia perguntas para a turma refletir. Tudo era escrito no caderno:
Quem é você? Qual classe você pertence? (Para refletir). Luana: é para responder agora?
Pesquisadora: não, a orientação está entre parênteses. Luana: é só para pensar?
Pesquisadora: sim, é para você pensar depois, com calma e responder para você mesma (SALA DE AULA, junho/2018).
Momento 5: Outra pausa no ditado
O ditado continuava e outros esquemas eram escritos no quadro, pela professora:
+ + USA
Seguida da seguinte explicação oral:
Professora: Czar representa a burguesia, por isso que ele, na Revolução Russa, precisava ser combatido. Abram o livro na página 96, no título “Contrastes sociais”.
Escreveu no quadro:
Contexto sócio-histórico
1ª Fase (fevereiro de 1917): união de dois partidos Bolcheviques + Moncheviques X Czar
Mesmo se tratando de cópia do livro, Luana precisou de uma orientação particularizada. Se ela copiasse tudo de uma vez, seu texto no caderno não teria uma coerência. Então, mediei:
Pesquisadora: a professora pediu, copie o número 1, do quadro, e depois copie o 1º parágrafo da página 96. Quando terminar, copie o número 2 do quadro que ela irá explicar.
Luana fez exatamente desta forma (SALA DE AULA, junho/2018).
A escola é um local de encontro por excelência, segundo Oliveira et al. (2015, p.29), com a diversidade humana e legitimado pela sociedade, em que as tensões não se configuram apenas nos arranjos políticos, econômicos e culturais, mas também se evidenciam no campo metodológico (Episódio 8). As estratégias de ensino ofertadas devem ter a organização e a clareza sobre a intencionalidade da ação pedagógica para estabelecer uma boa situação de aprendizagem para todos (Momento 1). Nesse sentido, a aula de História exigiu um nível superior de síntese não condizente com as possibilidades reais, fazendo com que Luana não focasse a atenção nas orientações da professora (Momento 2). Concomitantemente, percebíamos as fragilidades no uso dos recursos expressivos.
O ditado é uma metodologia de ensino tão antiga quanto atual, uma excelente ferramenta pedagógica quando se evidencia o motivo do seu uso, quer seja para aumentar a concentração durante a escrita, quer seja para verificar os aspectos linguísticos da língua materna (Momento 3). Por isso exige, também, concentração de quem dita, pois deve estar atento à pronúncia das palavras e às pausas devidas, para que o estudante seja conduzido a submeter o texto oral aos regulamentos linguísticos determinados pela língua. Quando o foco está no uso da linguagem, o enunciador oportuniza o interlocutor tomar consciência e aprimorar o controle sob a própria produção linguística em um exercício constante sobre a língua e suas propriedades. Para tanto, essa metodologia também exige uma organização do ambiente de aprendizagem de modo a facilitar a recepção da mensagem e a organização do pensamento a partir da produção textual expressada pelo outro.
Dito de outro modo, as tensões do trabalho articulado/colaborativo não emergem somente durante os planejamentos com os diferentes professores, mas também em sala de aula, em que a presença da professora especializada é essencial para mediar as informações recebidas pela estudante ao se colocar mais próxima e disponível na elaboração de estratégias que se configuram de forma repentina (Momento 4). Do mesmo modo, os recursos necessários precisam estar à disposição para as eventualidades que ocorrem. Certamente o livro didático é um recurso legítimo, disponível, de fácil acesso que se configura em um bom instrumento para consulta, mas demanda prever o melhor momento para ser utilizado (Momento 5). Visto que, o excesso de informações e recursos não oportuniza a apropriação do conhecimento, pelo contrário fragiliza o processo de aprendizagem ao torná-lo mecânico e sem sentido.
No Episódio 9 trouxemos um texto da Luana produzido na aula de artes no Projeto “Identidade Visual”, essa foi uma das atividades de produção escrita destacada pela professora especializada, durante a entrevista e cedido por ela, com consentimento da professora de artes e a estudante. Esta professora é formada em educação Artística com ênfase em artes plásticas, com especialização em educação e gestão ambiental, bem como em arteterapia e psicodrama. Há 25 anos atuando na educação, desses 18 anos no município de Vitória/ES, começou a lecionar nesta Unidade de Ensino este ano.
Naquela ocasião, em sala de aula, a professora de artes apresentou o projeto e convidou os estudantes a assistirem o longa-metragem canadense de ficção científica “Invasor de Mentes” (2009)38, na sala de vídeo. Tendo como objetivo:
compreender as funções das imagens com especial atenção a imagem simbólica (símbolos e logomarcas utilizados em produtos) e, depois, a partir das imagens, produziriam a identidade visual da sua empresa. Neste Episódio mostramos a transcrição do seu texto.
38 Sinopse do filme “Invasor de Mentes”: Após um terrível acidente que resultou na morte de
sua esposa grávida, Luke Gibson (Cuba Gooding Jr.) encontra-se gravemente machucado e desmemoriado. Um novo chip é implantado em seu cérebro e salva sua vida, mas Luke logo descobre que o suposto "milagre" tem um alto preço. Ele agora tentará recuperar seu passado e desmascarar a Hexx Corporation, fabricante da perigosa nova tecnologia (http:<adorocinema.com>, acesso em: 25/08/2018).