Mapa 2: Sistemas de interconexão gasífera na América do Sul
3. A política externa brasileira no setor energético Sul-americano nos governos
3.3 As relações bilaterais
3.3.2 Os casos emblemáticos: Equador e Peru
3.3.2.1 Equador
O Equador torna-se um caso emblemático para a questão energética na América do Sul com relação ao Brasil por seus desentendimentos com uma multina- cional brasileira e com a Petrobrás no período analisado.
Inserido no contexto de retomada da propriedade dos recursos energéticos, o Equador passou a escrutinar os contratos estabelecidos com multinacionais do campo petrolífero no intuito de revertê-los em proveito de sua retomada do controle soberano dos hidrocarbonetos. Nota-se a ligação com o conceito de soberania ener- gética, embora, a nomenclatura não seja utilizada ipsis litteris como foi no caso do Paraguai. Nesse sentido, a partir de 2005 no governo de Alfredo Palácio, a posição equatoriana passa a se alterar, tendo como primeira atitude a expulsão da empresa americana Occidental Petroleum (Oxy), de seu território:
Em maio de 2006, Palacio expulsou a empresa estadunidense Occidental Petroleum (Oxy), responsável por 20% da produção petroleira do Equador. A medida foi tomada porque a Oxy desrespeitou os termos do contrato assinado com o governo equatoriano ao vender 40% de suas ações à empresa cana- dense Encana, sem submeter essa transação à aprovação prévia das autori- dades. [...] Mais importante do que o confronto com os EUA no episódio da Oxy foi a decisão de Palacio, tomada um mês antes, em abril de 2006, de rever a repartição dos lucros do petróleo – o principal produto de exportação do país – entre o Estado equatoriano e as transnacionais petroleiras, de modo a ampliar significativamente a parcela arrecadada pelos cofres públicos (FU- SER, 2011, pp. 223-4).
Esse movimento ganhou força a partir da chegada ao poder de Rafal Cor- rea em 2007, que possuía amplo apoio popular e de setores sociais. (FUSER, 2013).
É preciso citar esses acontecimentos pois é nesse contexto que surgem discordâncias do governo equatoriano em relação a construção da hidrelétrica de San Francisco, a cargo da brasileira Odebrecht e financiada pelo BNDES, e no sistema Carrizal-Chone35, além dos questionamentos sobre a exploração de petróleo nos cam-
pos 18 e 31 que estavam a cargo da Petrobrás.
Em relação a Odebrecht e sua participação como realizadora da hidrelétrica de San Francisco a obra é oriunda de um contrato assinado entre a construtora brasi- leira e a Hidropastaza, empresa controlada pelo estado equatoriano, em março de 2000 e financiada pelo BNDES com cerca de US$ 243 milhões entregues a constru- tora brasileira para realização do empreendimento. Posteriormente, foram modifica- dos 10 adendos que inseriram-se no acordo sem nenhum aparato legal e aumentaram o custo do projeto inicial para US$ 357 milhões (LANDIVAR, 2012). Todavia, o res- ponsável pelos pagamentos, acrescidos de juros, ao banco brasileiro é o estado equa- toriano que se recusou a aceitar a dívida e seu pagamento, gerando um atrito diplo- mático entre os dois países (idem). Sobre o financiamento do BNDES no Equador:
No Equador, o BNDES impõe pacotes fechados e que têm tornado incondici- onais as obras das empresas brasileiras no país. Qualquer contestação du- rante o processo de licenciamento e execução, como ocorreu no caso da UHE de San Francisco, a cargo da Odebrecht, passa imediatamente a ser encarada como “agressão diplomática” ao Brasil. O financiamento é dado em função do travamento a todo tipo de requisitos que provenham do país que
35 No caso do Sistema Carrizal-Chone, que foi suspenso pelo Ministerio do Litoral do Equador em junho de 2007, o preço estabelecido inicialmente pela Associação Odebrecht – Hidalgo & Hidalgo, era de US$102 milhões, o que significava um encarecimento de US$12 milhões a US$33 milhões, segundo a auditoria realizada em julho de 200711. Em consequência, em agosto do mesmo ano, a associação apresentou um novo orçamento de US$84.888.118. A Nova proposta foi aceita pelo governo e as obras foram retomadas em setembro12. No entanto, a Secretaria Anticorrupção percebeu que o contrato assinado do tipo “chave na mão” deixava espaço para acrescentar rubricas (itens) de construção sem determinar seu valor. Além disso, se deu conta que um contrato complementar que diminuia em 47% a capacidade de geração de água para irrigação havia sido subscrito (LANDIVAR, 2012, p.121).
recebe esse investimento. Até mesmo em relação às compras governamen- tais do anfitrião, e às parcerias para fornecimento, existem condicionalidades de que sejam insumos e equipamentos brasileiros (NOVOA 2009, p.199).
Ressalta-se, que a obra de San Francisco esteve repleta de irregularidades técnicas, legais e financeiras. Nesse sentido, mudanças nos contratos firmados36 per-
mitiram que a construtora brasileira optasse pela instalação de turbinas de menor ca- pacidade em relação as previstas inicialmente, no intuito de poupar custos (LANDI- VAR, 2012). Essa alteração provocou apenas um ano após sua inauguração, a para- lisação da hidrelétrica por falhas nas turbinas, no túnel e no sistema de enfrentamento, detectadas por técnicos do Equador (idem). As interrupções dos serviços causaram perdas diárias estimadas em US$ 200.000 por parte do Estado que exigiu que a Ode- brecht reparasse os danos e o indenizasse além de ameaçar a multinacional brasileira de expulsão (idem).
Todo esse imbróglio levou a expulsão da Odebrecht do Equador em 2008, acusada de violações, irresponsabilidade com as obras e corrupção, gerando uma crise diplomática entre os dois países (GARCIA, 2009) Rafael Corrêa ainda assinou um decreto que retirava os vistos de funcionários da construtora e de cinco funcioná- rios da Companhia Furnas Centrais, além de se referir a dívida como “corrupta, ilegal e ilegítima” (WAISBERG; RIBEIRO, 2008).
A expulsão da empresa, seguida de questionamento arbitral sobre financia- mento de U$ 243 milhões, concedido pelo BNDES, levaram a virtual ruptura das relações entre o Equador e o Brasil. Embaixadores foram chamados a consultas, projetos de cooperação foram congelados, visitas foram cancela- das [e resultaram na] suspensão de financiamentos do BNDES e de inúmeros projetos de cooperação técnica (FONSECA, 2015, p.198-215).
Apesar de terem sido firmados três instrumentos jurídicos de cooperação na área de energia entre os dois países no período 2003-201037, isso não impediu a
subida de tom do governo equatoriano quanto aos empreendimentos da Odebrecht e da Petrobrás.
36 Nota-se que o tipo de contrato firmado pela Odebrecht no Equador denomina-se contrato chave na mão (“turn-key”). Esse tipo de contrato permite a construtora realize mudanças no plano inicial a seu bel prazer sem notificação ao Estado.
37 O Memorando de Entendimento entre o Brasil e o Equador sobre Cooperação no Setor de Energia em 2004; o Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Técnica entre o Brasil e o Equador para Implementação do Projeto “Desenvolvimento de Processos Agroprodutivos para Biocombustíveis” em 2007; e o Protocolo de Intenções entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República do Equador sobre Cooperação Técnica nas Áreas de Energia e de Minas no mesmo ano (MACHADO, 2014).
Em relação a estatal brasileira, durante o governo Correa foi instaurada uma comissão no âmbito do Ministério de Energia para investigação de caducidade dos contratos firmados entre o Estado e a Petrobrás, motivada pelas denúncias de vários atores sociais, profissionais e institucionais do país (ALMEIDA, 2009). A comis- são emitiu um parecer estabelecendo que praticamente todo o processo, desde 1995 até 2008 estava infestado de irregularidades e danos ao Estado (idem).
A atuação da companhia brasileira em solo equatoriano está diretamente ligada a aquisição da Pérez Companc em 2002, empresa argentina de petróleo e gás, que controlava os campos de 18 e 31 no Equador. A aquisição de 58,6% da compa- nhia argentina, motivada pela crise pela qual passava o país, reduzindo seu patrimô- nio de US$2,9 bilhões em 2001 para menos da metade no ano seguinte, significou a montagem de uma sólida base na Argentina para apoio e expansão para o Cone Sul (RIBEIRO, 2006).
A aquisição da Perez Companc significou para a Petrobras o crescimento e consolidação da estratégia internacional, com retomada de diversificação de atividades diminuídas no início da década de 1990 e aproveitamento de si- nergias no Cone Sul. Após a aquisição, cerca de 80% da receita da área in- ternacional provém do Cone Sul (CONDE, 2005 apud RIBEIRO, 2006, p.17).
Ao assumir a operação do bloco 18, a estatal brasileira foi informada pelos funcionários da estatal equatoriana (Petroecuador) sobre as irregularidades existentes na concessão do campo de Palo Azul38, todavia, a Petrobrás optou por continuar a
operação no campo sem fazer nenhuma mudança na produção (ALMEIDA, 2009). Além disso, foram registradas uma série de irregularidade envolvendo a compra da Perez Companc e a transferência dos blocos 31 e 18 à estatal brasileira sem autorização do Ministério de Energia e Minas, além da venda de 40% da partici- pação nessas ações para a japonesa Teikoku Oil, sem que a Petrobrás tivesse o di- reito contratual sobre as áreas citadas. Todos esses fatores conduziram a apresenta- ção em 2006 de uma ação que pedia a caducidade dos contratos firmados ao Minis- tério de Energia e a Petroecuador por parte de organizações sindicais ligadas ao setor de hidrocarbonetos (MALERBA, 2009).
As insustentabilidades legais prosseguiram, agora envolvendo diretamente a Petrobras Argentina. Primeiramente, a modificação da razão social de Perez
38 A maior ilegalidade ocorreu na adjudicação do campo Palo Azul, de propriedade do Estado, ao bloco 18, cedido ao consórcio Cayman-Petromanabí, [depois transferida a Perez Companc], o qual não era registrado na Direção Nacional de Hidrocarbonetos. Cabe ressaltar que o campo Palo Azul tem reser- vas 20 vezes maiores do que as do bloco 18. Nesta operação são registrados indícios de interpretação fraudulenta de informações técnicas e de entrega ilegal de informação privilegiada sobre as reservas da Petroecuador (ALMEIDA, 2012, p.29)
Companc Ecuador para Petrobras Energia Ecuador visava encobrir a venda de ações da Pecom Energia e da Ecuador TLC, de acordo com verificação da Petroecuador. Para a realização de tal procedimento, o Estado equatori- ano deve ser notificado e, emitir parecer autorizando a transação, o que não ocorreu. No ano seguinte foi a vez da Petrobras vender parte do bloco 18 e do bloco 31 à empresa japonesa Teikoku Oil, novamente sem prestar contas ao Estado. Uma verdadeira rede envolvendo altos funcionários do governo, assim como ex-dirigentes da Petroecuador tornaram possível a viabilidade de tais negociações (Gonçalves, 2007 apud BRESSAN, 2012, p.81).
Em relação ao bloco 31, este se encontra na Amazônia Equatoriana e den- tro do Parque Nacional de Yasuní, fundado em 1979 e declarado Reserva Mundial da Biosfera pela UNESCO em 1989 (UNESCO, 2011). O reconhecimento de um órgão multilateral contribui para a preservação do parque na busca por proteção do espaço biológico, tendo em vista que o parque é reconhecido como o de maior biodiversidade por hectare do planeta (BRESSAN, 2012).
Ademais, 30% da região do campo petrolífero encontra-se dentro da Re- serva Étnica Huaorani, sendo mais um componente do conflito. (BRESSAN, 2012). Apesar da oposição de organizações ambientais, em 2004 o Ministério do Meio Am- biente do Equador outorgou à Petrobras uma licença ambiental para prosseguimento com a fase construtiva do projeto para exploração do bloco 31, fato que coincidiu com a visita de Lula ao Equador (ALMEIDA, 2009).
Foram inúmeros os protestos de organizações sociais em relação a licença obtida pela Petrobrás, dos quais nenhum teve efeito (ALMEIDA, 2009). Mobilizações indígenas também ocorreram com o deslocamento dos índios Waorani até Quito para protestar e pedir a saída da Petrobrás do campo, e também foram sumariamente ig- norados pelo governo (idem).
Através dos trabalhos da comissão estabelecida em 2008, o Ministério de Minas e Energia emitiu uma carta ao presidente Rafael Correa, solicitando o cumpri- mento da lei e recuperação do controle do campo 18 tendo em vista a fraude na junção com o campo de Palo Alto (ALMEIDA, 2009). Como consequência o Procurador Geral do Estado solicitou o início do processo de caducidade do contrato da Petrobrás em relação ao bloco 18, incluindo no pedido, a inferência as transferências ilegais de obri- gações, estendendo seu alcance ao bloco 31 (idem).
O processo de caducidade do contrato do Bloco 18, inevitavelmente se es- tende ao Bloco 31, já que a causa principal se baseia na assinatura de um Acordo Prévio para a concessão de direitos e obrigações da Petrobras à Tei- koku, sem autorização ministerial. O Acordo Prévio se refere à concessão de 40% de direitos e obrigações nos blocos 18 e 31 e uma parte das ações do Oleoduto de Crus Pesados. Ou seja, em sujeição à lei, os dois contratos de- veriam caducar (ALMEIDA, 2009, p.40).
Efetivamente em setembro de 2008, a Petrobrás e o Estado equatoriano assinaram a Ata de Entendimento para término do acordo de participação para a pros- pecção de hidrocarbonetos e exploração de petróleo cru no bloco 31 (MALERBA, 2012). Rafael Correa anunciou que o bloco havia sido revertido ao Estado sem inde- nizações (ALMEIDA, 2009), entretanto
[...] o presidente não disse que o acordo comprometeu o transporte de 70 mil barris diários de petróleo da Petroecuador, obrigando a empresa equatoriana a utilizar o contingente que a Petrobras possui no Oleoduto de Crus Pesados (privado), com uma tarifa de US$ 1,51 por barril, sendo que o oleoduto estatal (SOTE) custa apenas US$ 0,40 por barril. Desta forma, através da tarifa de transporte, o governo está devolvendo US$ 243 milhões dos investimentos da Petrobras no bloco 31 (ALMEIDA, 2009, p.40).
Ademais, contradizendo os informes técnicos e o Procurador Geral do Es- tado, o governo de Correa optou por renegociar o contrato do bloco 18 com a estatal brasileira, a fim de proteger os interesses da Petrobrás (ALMEIDA, 2009). Assim, em outubro de 2008 foi assinado um novo contrato entre a Petrobrás e a Petroecuador para exploração do bloco 18 e do campo de Palo Azul (idem).
Pode-se argumentar que esse novo contrato tinha por objetivo a proteção dos projetos da rota da IIRSA, onde o Equador cumpriria um papel de corredor para exportação brasileira para a China na rota Manaus-Manta (ALMEIDA, 2009).
Por fim, há de se ressaltar que todos esses embaraços jurídicos e ambien- tais prejudicaram a imagem da empresa e colocaram dúvida sobre sua relação com o meio ambiente (BRESSAN, 2012). Ademais, argumenta-se que a Petrobrás busca aproveitar-se de legislações falhas em proveito próprio em detrimento de sua atuação no âmbito nacional (idem). Um exemplo disso é a atuação no território indígena de Yasuní, levando em consideração que a legislação brasileira proíbe esse tipo de ex- ploração, abrindo espaço para os questionamentos da dualidade de padrão da Petro- brás (idem). Destaca-se ainda, o relativo silêncio no Brasil sobre os impactos socio- ambientais das atividades da Petrobrás em solo sul-americano, sendo esse tipo de contestação restrita aos grupos afetados pelas atividades petroleiras internamente (MALERBA, 2012).