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Mapa 2: Sistemas de interconexão gasífera na América do Sul

3. A política externa brasileira no setor energético Sul-americano nos governos

3.4 O caso das estatais e do BNDES

3.4.1 Petrobrás

O processo de internacionalização da Petrobrás data da década de 1970, com a criação da Braspetro em 1972. A partir desse momento a empresa passou a investir no exterior, sendo o primeiro movimento a compra de concessões de explora- ção da empresa Tennecol, na Colômbia, no ano de sua criação (PETROBRAS, 2007b

apud PESSALI; DALLA COSTA, 2009. p.19). Nesse sentido, em um primeiro mo-

mento, seu objetivo geral foi o de garantir suprimento de petróleo ao país, perdurando até a década de 1990, quando a Lei do Petróleo44 possibilitou uma atuação mais pla-

nejada no mercado internacional (RIBEIRO, 2006)

Destaca-se o papel duplo da Petrobrás como uma NOC, possuindo o obje- tivo de geração de lucro para seus acionistas e por outro lado, sendo utilizada como agente de interesses nacionais no exterior (FUSER, 2011). Sobre isso:

Em uma de suas facetas, integra o grupo das grandes companhias que pros- pectam, exploram e comercializam petróleo e gás na esfera internacional. Por outro lado, a Petrobras nasceu e cresceu compartilhando uma série de ca- racterísticas com companhias similares no mundo inteiro – as empresas pe- troleiras nacionais (national oil companies, ou NOCs) criadas para defender o interesse dos seus respectivos Estados nacionais na exploração e/ou co- mercialização de combustíveis (FUSER, 2011, p.2).

Na América do Sul a Petrobrás atua em sete países, na Argentina desde 1993, na Colômbia, desde 1972, no Chile, desde 2009, na Bolívia, desde 1995, na Venezuela, desde 2003, no Paraguai, desde 2006 e no Uruguai desde 2006, segundo dados oficiais da empresa. Ressalta-se a entrada da Petrobrás na maioria dos mer- cados após o contexto de privatizações na América do Sul da década de 1990.

Seu plano estratégico 2000-2010 destacava a importância das atividades internacionais para a empresa com foco em dois objetivos: se tornar uma empresa de energia integrada (ir além do petróleo) e a companhia líder no setor na América Latina (DESIDERÁ NETO et al, 2014). A América do Sul entra com destaque nesse quesito tanto pela onda liberalizante da década anterior como pela proximidade geográfica e consequente sinergia estrutural e de projetos (PINTO, 2011 apud DESIDERÁ NETO et al, 2014).

Ao comprar a Pérez Compac, a Petrobrás passa imediatamente a atuar em mais três países da América do Sul: Equador, Venezuela e Peru, onde a em- presa argentina já possuía ativos. Em 2003, a estatal estava presente em seis países do continente – Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Vene- zuela – tornando mais próxima sua meta de liderança na América Latina (FERREIRA, 2009, p.89).

No período analisado a atuação da Petrobrás foi marcada por entreveros com os governantes da América do Sul como os já explicitados casos com a Bolívia e Equador. Nota-se que foram os dois de maiores proporções mas não os únicos.

44 Lei n ° 9.476 de 6 de agosto de 1997, lei que extingui o monopólio estatal sobre as jazidas de petróleo, preparou a empresa para a privatização parcial e a abertura do capital para interesses privados e, além disso, autorizou a Petrobras a exercer diretamente, no exterior qualquer uma das atividades integrantes de suas subsidiárias.

Apesar de ter adquirido a Pérez Companc em 2002 a partir da chegada dos Kirchner ao poder na Argentina a relação entre a estatal brasileira e o Estado argen- tino tornou-se tempestuosa dentro de um processo mais amplo posto em voga pelos presidentes de renacionalização dos recursos (CARRA, 2014). Ademais, o contexto de crise energética passada pelos vizinhos levando ao racionamento de gás natural levou o governo argentino a solicitar maiores investimentos da estatal brasileira na realização de obras na costa. Apesar de ter solicitado uma concessão para realizar pesquisas na costa a Petrobrás descartava a possibilidade de novos investimentos, também pela política de preços praticada pelo Estado argentino (idem).

Nesse contexto, em 2003, com aprovação em 2005, a Petrobrás optou por fundir todos seus ativos na Argentina. Aos acionistas da Pérez Companc coube a aprovação da mudança para Petrobras Energia S.A e posteriormente a fusão dos ati- vos referentes a EG3, a Petrolera Santa Fe e a Petrobras Argentina na nova compa- nhia (FELIPE, 2010).

Ademais, houveram ainda questões relacionadas a pressão por parte do governo Argentino para a venda da Transener (rede de transmissão elétrica), adqui- rida em conjunto com a Pérez Compac e que possui valor estratégico para o governo argentino que pressionou a Petrobras para vende-la para um consórcio firmado entre a Enarsa (Energía Argentina Sociedad Anónima) e a empresa argentina Electroinge- niería (CARRA, 2014).

Além disso, a partir da divulgação das intenções da Exxon de vender seus ativos na Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, em um pacote fechado, a Pe- trobrás apareceu como interessada o que não agradava o governo argentino por al- guns motivos:

1) o Governo Kirchner, que já havia decidido nacionalizar o setor de hidrocar- bonetos, era hostil a presença da Petrobras, com quem estava em atrito de- vido à falta de investimentos e não aceitava a ideia da estatal adquirir ativos que lhe permitiram dominar 24,6% da distribuição e 30% do refino, tornando- a a segunda maior petrolífera do país; 2) as empresas privadas operando no Brasil, que temiam a agressiva estratégia expansionista da estatal no midstream, estratégia que adquiriria impulso considerável se ela adquirisse os ativos da Exxon na América do Sul; e 3) o próprio Governo Lula, que temia a possibilidade da disputa entre a Petrobras e a PDVSA pelos ativos da Exxon abrir nova frente de atrito com a Venezuela (FIGUEIREDO, 12/09/2007; OR- DOÑEZ, 25/09/2007, DIOGO, 26/09/2007; MONTEIRO, 1º/10/2007 e RO- CHA, 15/10/2007 apud CARRA, 2014, pp. 198-199).

Esse caso marcou uma disputa entre a Petrobrás e a PDVSA, que eram utilizadas de modo ostensivo pelos respectivos países como instrumentos de política

externa (CARRA, 2014). Diante da pressão argentina a Shell optou por reestruturar o negócio, adiando a venda dos ativos na Argentina, Paraguai e Uruguai e vendendo seus ativos no Brasil para o Grupo Cosan e seus ativos no Chile pelo valor de US$ 400 milhões para a Petrobras. Assim, a Petrobrás evitou a entrada da PDVSA no mercado de distribuição e fez a aquisição dos ativos chilenos em 2008 (idem).

A partir desses movimentos a Petrobras Energia S.A se consolidou como peça-chave para diversificação e consolidação da Petrobrás na América Latina (FE- LIPE, 2010).

Com relação ao caso venezuelano a relação no setor de hidrocarbonetos também sofreu sobressaltos. No ano de 2007, a partir de mudanças introduzidas pelo governo Chávez na regulamentação da exploração dos hidrocarbonetos reduziram os ganhos da Petrobrás no país, frustrando a estatal brasileira que havia firmado acordos estratégicos com a PDVSA dois anos antes (RICETO, 2019).

Nessa seara, dois projetos se destacam, a participação da Petrobras na exploração de petróleo no bloco de Carabobo 1 e o projeto de construção da refinaria de Abreu e Lima em Pernambuco.

Sobre o primeiro, o projeto original previa a participação da estatal brasileira com 40%, todavia, em dezembro de 2006 foi lhe oferecida apenas 10%, o que levou a Petrobrás a descartar imediatamente o projeto por conta de sua inviabilidade finan- ceira (CARRA, 2014), além disso, o fracasso desse projeto impactou diretamente os planos de construção de Abreu e Lima, uma vez que a estatal brasileira condicionava a participação de 40% no bloco de Carabobo 1 a participação de 40% da PDVSA na refinaria (idem).

Em relação a refinaria Abreu e Lima, destacam-se diversos problemas que afetaram seu projeto, dentre eles o aumento do custo de US$ 4 bilhões para US$ 13,3 bilhões, o atraso nos aportes prometidos pela estatal venezuelana e a falta de res- posta da PDVSA com relação a minuta de contrato enviada, o que trouxe incertezas quanto a participação da estatal venezuelana no projeto (CARRA, 2014).

Ademais, em meio as negociações foram descobertas as reservas do Pré- Sal que elevaram de maneira significativa a condição das reservas de petróleo do Brasil e levou ao arrefecimento da necessidade brasileira de explorar reservas inter- nacionais (CARRA, 2014). Todos esses fatores combinados levaram ao fim da parce- ria.

Em 2007, a empresa brasileira também se retirou de outro projeto de ex- ploração de hidrocarbonetos na Venezuela. Alegando incertezas sobre o volume total das reservas e intromissão do governo venezuelano no direcionamento do mercado, a Petrobrás saiu do projeto de exploração do campo de Mariscal Sucre (RICETO, 2019).

Nos demais países da América do Sul foram poucas as divergências entre os governos centrais e a estatal, isso se deu pelo fato de que os países não alteraram suas legislações no âmbito dos hidrocarbonetos e também pela Petrobrás deter par- ticipação pequena nas atividades de upstream (casos de Colômbia e Peru), midstream e downstream (Chile, Colombia, Paraguai e Uruguai) além das operações da Petro- brás nesses países eram marginais em relação ao total não se concretizando projetos de integração que iriam além dos setores de hidrocarbonetos (CARRA, 2014).

Na Colômbia, em 2004, a Petrobrás aliou-se a Exxxon e à Empresa Colom- biana de Petróleo – Ecopetrol, para exploração de uma concessão em uma área do Mar do Caribe, com profundidade de até 3.000 metros (COSTA; PESSALI, 2009).

No Uruguai a estatal adquiriu o controle acionário da Conecta S.A (55%) em 2004, fazendo parceria com a Administración Nacional de Combustibles Alcohol y Portland (Ancap), que possui o restante. Essa empresa é responsável pela distribui- ção de gás natural, gás liquefeito de petróleo (GLP) e gás manufaturado através de dutos com uma extensão de 300 quilômetros e exclusividade para o abastecimento de pequenos e médios consumidores no interior do país (PETROBRAS, 2007 apud FELIPE, 2010)

Com relação ao Paraguai, houve a possibilidade de compra dos ativos da Shell como o fez no Chile, o que foi feito em 2006 (FELIPE, 2010). Hoje a Petrobrás atua em lojas de conveniência, além de comercializar GLP e produtos de aviação (PETROBRAS, 2007 apud FELIPE, 2010). Além disso, Lula assinou um acordo com o então presidente Nicanor Duarte Frutos comprometendo a Petrobrás no auxílio ao Paraguai para construção de uma planta de biodiesel (CARRA, 2014). Todavia, a Petrobrás optou por cancelar novos investimentos no país em decorrência do baixo retorno econômico e do ambiente criado pela candidatura de Lugo e sua intenção de rever os tratados de Itaipu (idem).

Por fim, resta o Peru, onde a Petrobrás teve papel reduzido, assinando um memorando de intenções com a PetroPeru, para “prospecção e exploração de petró- leo, gás e outras possibilidades", além da participação na refinaria de Talara (CARRA,

2014). Após isso a Petrobrás intensificou seus investimentos no país, culminado na descoberta de três reservas de gás natural para exploração, em 2008, 2010 e 2012 (idem).