• Nenhum resultado encontrado

Mapa 2: Sistemas de interconexão gasífera na América do Sul

3. A política externa brasileira no setor energético Sul-americano nos governos

3.3 As relações bilaterais

3.3.2 Os casos emblemáticos: Equador e Peru

3.3.2.2 Peru

Com relação ao Peru, destaca-se uma grande negociação no âmbito ener- gético entre os dois países para criação de seis usinas hidrelétricas que se localiza- riam na Amazônia Peruana para abastecimento do mercado brasileiro com o exce- dente produzido em proporções previamente definidas (NUNES, 2014). As negocia- ções foram longas e desenrolaram-se entres os anos de 2006 e 2010.

Segundo alguns estudos, existira uma forte complementaridade entre o Brasil e o Peru no âmbito energético, sendo o Peru proprietário de um potencial hidre- létrico enorme em sua floresta, enquanto enfrenta problemas graves de suprimento de energia elétrica (CASTRO; DASSIE; DELGADO, 2009). Comparando-se a capaci- dade de geração hidrelétrica com o potencial hidrelétrico dos dois países constata-se a subutilização do potencial do Peru, dado que a capacidade de geração hidrelétrica do país representa apenas 5,2% de seu potencial (AGUIAR, 2011).

De olho nesse potencial subutilizado foram conduzidas as negociações com o governo brasileiro para a construção das hidrelétricas de Inambari (2.000 MW), Sumabeni (1.074 MW), Paquitzapango (2.000 MW), Urubamba (940 MW), Vizcatan (750 MW) e Chuquipampa (800 MW) (MOREIRA, 2012). O acordo previa a exportação de até 7,2 mil MW de energia para o Brasil ao longo de 50 anos (AMARAL, 2013). Os projetos seriam concebidos pela Eletrobrás, em conjunto com as empreiteiras Ode- brecht, Andrade Gutierrez e OAS, e financiados pelo BNDES (TAUTZ, PINTO e FA- INGUERLENT, 2012 apud AMARAL, 2013).

Sobre o processo de negociação Nunes (2014, p.171) faz um breve re- sumo:

09/11/2006- Memorando do entendimento: Estabelecimento de uma comis- são mista permanente em matéria energética, geológica e de mineração. 28/08/2007- Reunião da Comissão Mista: Estabelecimento de Grupo de Trabalho ad hoc de Integração Energética para preparação de Convênio bi- lateral.

17/05/2008- Convênio de Integração Energética: Realização de estudos e avaliação de projetos.

28/04/2009: Memorando do Entendimento: Realização do desenvolvimento de estudos para a interconexão elétrica entre os dois países parra exporta- ção de energia do Peru para o Brasil.

11/12/2009: Comunicado conjunto dos presidentes de Brasil e Peru: Estabe- lecimento de acordo para que as áreas elétricas de cada país apresentem um projeto de acordo para o desenvolvimento de centrais de geração hidre- létrica.

1/02/2010: Nota diplomática n°5-2M/055 do Peru ao Brasil: Realização da primeira proposta de acordo final (houve mais duas).

16/06/2010: Acordo para o fornecimento de energia elétrica ao Peru e ex- portação de excedentes ao Brasil: Assinatura do Acordo oficial.

Além dessa negociação outros instrumentos jurídicos foram firmados entre os dois países no período. Em 2006 foram firmados um ajuste complementar a um acordo básico de cooperação técnica e científica na produção de biocombustíveis39 e

um memorando de entendimento para estabelecimento de uma comissão mista em matéria energética, geológica e de mineração40; em 2008 mais dois acordos são fir-

mados, um ajuste complementar ao acordo para implementação do projeto de bio- combustíveis – fase II41 (CANESIN, 2018), e um convênio para estabelecimento de

um grupo de trabalho para harmonização energética entre os países42 (MACHADO,

2014); e em 2009 foi apenas um memorando de entendimento para estudos de inter- conexão elétrica e estabelecimento de um grupo técnico de trabalho43 (MACHADO,

2014).

Compara-se o projeto entre Brasil e Peru com a construção do gasoduto boliviano na década de 1990, a partir do qual o Brasil tornou-se o principal parceiro econômico do país andino. Os resultados esperados pelos brasileiros eram o estrei- tamento dos laços econômicos regionais, fortalecendo uma possível autonomia regi- onal, sob a égide brasileira (ARAUJO, 2015; PALOSCHI, 2015 apud SANTOS, 2016).

Alvos de intensos protestos por parte das comunidades locais peruanas, que viam os projetos como exploração de suas riquezas energéticas por parte do Bra- sil (AGUIAR, 2014), também foi alvo de oposição por parte das comunidades indíge- nas afetadas, levando o grupo indígena Central Ashaninka do Rio Ene a pedir a Corte Superior do Peru a suspensão do acordo alegando violação de direitos fundamentais dos povos indígenas (INTERNATIONAL RIVERS, 2011a, 2011b, 2012 apud AMARAL, 2013). O acordo foi cancelado em 2011 (idem).

39 Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Científica e Técnica entre o Brasil e o Peru para Implementação do Projeto “Desenvolvimento de Cultivos Alternativos para Produção de Biocom- bustíveis.

40 Memorando de Entendimento para o Estabelecimento de uma Comissão Mista Permanente em Ma- téria Energética, Geológica e de Mineração entre o Ministério de Minas e Energia do Brasil e o Ministério de Energia e Minas do Peru.

41 Ajuste Complementar ao Acordo Básico de Cooperação Científica e Técnica entre o Brasil e o Peru para Implementação do Projeto “Promoção de Cultivos Alternativos para a Produção de biocombustí- veis – Fase II.

42 Convênio de Integração Energética entre o Ministério de Minas e Energia do Brasil e o Ministério de Energia e Minas do Peru para estabelecer os Grupos de Trabalho “A” de Estudos de Viabilidade e “B” de Harmonização Regulatória.

43 Memorando de Entendimento para o apoio aos Estudos de Interconexão Elétrica entre o Brasil e o Peru – Estabelecimento de Grupo de Trabalho técnico para realização de estudos sobre modelos de transmissão.

Interessa-nos desse imbróglio o fato de que mais uma vez passou-se por cima dos direitos das comunidades locais, indígenas ou não, em busca da assinatura de acordos de integração energética entre o Brasil e um país da região, nesse caso o Peru. Parece recorrente, nesse sentido, a atuação um tanto quanto agressiva da di- plomacia brasileira no tocante aos interesses energéticos do país nos seus vizinhos.

De todos esses casos nos resta apontar que a frente bilateral da integração energética brasileira parece ser a mais ativa. Todavia, há de se ter cuidado com os condicionantes e as características dessa integração visto que em dois casos os em- preendimentos em energia brasileiros foram objetos de renegociações (Bolívia e Pa- raguai), sendo um deles a maior obra de interconexão energética já realizada no país e em outros dois surgiram inúmeras denúncias de irregularidades e desrespeito às normas ambientais e aos direitos humanos com relação as comunidades locais.

Nota-se que a política externa brasileira atribuiu peso as questões bilaterais no tocante a integração energética e se utilizou de suas principais estatais do ramo de energia (Petrobrás e Eletrobrás) e de seu banco de fomento (BNDES) para avançar em acordos que considerava importantes para o suprimento de energia do país. A partir de agora traz-se as questões das estatais e do BNDES à baila.