• Nenhum resultado encontrado

Parte I – Enquadramento Teórico

10. Equipa Multidisciplinar

Segundo Peduzzi (1998), o termo equipa deriva da palavra francesa “esquif”, cujo significado se relacionava com filas de barcos amarrados uns aos outros e rebocados por homens ou cavalos. Como os homens que puxavam os barcos trabalhavam colectivamente na busca de um objectivo comum – rebocar a fila de barcos amarrados – compartilhando sua tarefa, acabou-se por utilizar o termo equipa de trabalhadores para designar o trabalho colectivo, compartilhado, de vários trabalhadores no desenvolvimento de uma tarefa, compreendida como a meta comum do grupo.

“O crescimento exponencial do conhecimento criou necessidades no mundo do trabalho.

Na Antiguidade, sábios eram, ao mesmo tempo, filósofos, matemáticos, astrónomos, engenheiros, artistas, escritores, etc.” (Velloso, 2005).

De acordo com Velloso (2005) na área da saúde até à primeira metade do século passado, cerca de quatro profissionais formalmente habilitados dominavam todo o conhecimento e exerciam todas as acções do sector

“No decorrer do século XX, a sociedade observou várias transformações de ordem económica, social, cultural e tecnológica, com reflexo nas organizações, constituindo grandes modificações no mundo do trabalho, o que provocou mudanças nas filosofias das administrações, controle e gestão da produção de bens e serviços” (Alves et al 1999).

Peduzzi (1998) caracteriza o trabalho como um processo de transformação que ocorre porque o homem tem necessidades que precisam ser satisfeitas. Para este autor um determinado processo de trabalho não ocorre isoladamente, mas sim numa rede de processos que se alimentam reciprocamente. Nessa rede, ocorre o encadeamento de distintos processos de trabalho que se diferenciam pela sua peculiar conexão dos elementos constituintes (objecto, instrumentos, actividades) e se integram por meio das relações entre as necessidades que precisam interligar para se realizar. Tal como ocorre no campo da saúde, em que distintas áreas profissionais, cada qual realizando um processo de trabalho próprio, encontram nas necessidades de saúde seu ponto de convergência.

Equipa, e trabalho em equipa são noções que fazem parte da mitologia das profissões relacionadas com a saúde. Trabalhar em equipa implica a realização de um conjunto de tarefas ou missões concretas como expressão da nossa linguagem profissional.

“O trabalho em equipa, é a actividade sincronizada e coordenada de diversos profissionais, de categorias diferentes para cumprir um objectivo comum, sendo que o produto final (equipa) é diferente da soma das partes, ou seja, o trabalho desenvolvido por cada trabalhador isoladamente é diferente daquele realizado pela equipa” (Loff, 1994).

Ao longo da história e segundo Pires (2000), as práticas de cuidados, as formas de desenvolvimento de trabalho, a divisão do trabalho, o processo de formação profissional e de produção de conhecimentos modificaram-se, sendo influenciados pelo modo de produção hegemónico, pela cultura e pela forma de organização da produção nos sectores mais dinâmicos da economia

Há uma tendência, de acordo com Peduzzi (2002), a uma maior qualificação dos trabalhadores, pois o produto depende cada vez menos das operações directas do trabalhador individual, e cada vez mais da articulação dos trabalhos colectivos.

Para Almeida e Mishima (2001) a construção do trabalho em equipa, pode levar, na prática, para além de um trabalho técnico hierarquizado, um trabalho com interacção social entre os trabalhadores, com maior horizontalidade e flexibilidade dos diferentes poderes, possibilitando maior autonomia e criatividade dos agentes e, maior integração dos trabalhadores.

O ‘trabalho em equipa” não tem na sua origem apenas o carácter de racionalização da assistência médica, no sentido de garantir a melhor relação custo-benefício do trabalho médico e ampliar o acesso e a cobertura da população atendida, mas também responde à necessidade de integração das disciplinas e das profissões entendida como imprescindível para o desenvolvimento das práticas de saúde a partir da nova concepção biopsicossocial do processo saúde doença (Almeida e Mishima, 2001).

Fortuna (1999) e Fortuna et al. (2005, p. 264) definem o ‘trabalho em equipa’ como “uma rede de relações entre pessoas, rede de relações de poderes, saberes, afectos, interesses e desejos, onde é possível identificar processos grupais”. As autoras destacam a dinâmica grupal das equipas e propõem o reconhecimento e a compreensão desses processos grupais pelos seus integrantes como forma de construir a própria equipa, concebendo o ‘trabalho em equipa’ como as relações que o grupo de trabalhadores constroem no quotidiano do trabalho.

De acordo com Bergamini (1982), “embora os indivíduos sejam tecnicamente capazes de desenvolver tarefas sozinhos, não o fazem porque têm a necessidade social de agirem em grupos sociais”.

Assim, os sujeitos estão constantemente a reunir-se em grupos, formais ou informais, para satisfazerem as suas necessidades de segurança, status, auto-estima, associação, poder e facilitação do alcance de suas metas individuais (Matheus, 1995; Munari, 1997;

Ingram, Desombre, 1999; Robbins, 2001).

Nas relações de trabalho, embora essa dinâmica seja válida, torna-se mais complexa pelo facto de os indivíduos não escolhem os seus grupos, mas são neles inseridos de acordo com suas responsabilidades e actividades dentro da instituição. Esses grupos são denominados grupos formais, uma vez que não são compostos de acordo com as afinidades pessoais, mas sim de acordo com uma estrutura formal de trabalho (Ingram, Desombre, 1999; Robbins, 2001).

Já os chamados grupos informais são aqueles compostos a partir das escolhas pessoais dos indivíduos, de acordo com suas afinidades, que se formam naturalmente dentro dos ambientes formais. São os grupos de amigos de uma empresa, os colegas de escola, enfim, aqueles grupos que respondem pelas necessidades sociais dos sujeitos (Ingram, Desombre, 1999; Robbins, 2001).

“Embora os termos grupo e equipa sejam largamente utilizados para denominar um conjunto de sujeitos, é importante considerar que tanto o grupo quanto a equipa definem um conjunto de pessoas que desenvolvem as suas tarefas de acordo com um objectivo comum definido pelo conjunto, de maneira que o resultado não seja simplesmente a soma das habilidades individuais de cada membro”(Robbins, 2001; Abreu et al., 2005).

Ambos são trabalhos colectivos, que congregam profissionais interagindo entre si e articulando suas acções. O que diferencia o trabalho em grupo do trabalho em equipa é a situação de trabalho, a dinâmica do processo. O grupo pode existir sem a necessidade de produzir resultados – como os grupos de amigos – mas a equipa está pautada na dinâmica do processo de trabalho, com a preocupação de produzir resultados.

“A equipa deve ser organizada de forma coesa, a partir de um processo de maturidade do grupo, no qual cada agente se sinta responsável pelo trabalho colectivo” (Bergamini, 1982).

Tanto o processo de planeamento como a tomada de decisão são desenvolvidos por todos os agentes do grupo, sendo que a tarefa de liderar a equipe é alternada entre seus membros, de acordo com as necessidades do trabalho, assim como a partir do grau de maturidade da equipe e de seus membros “(Canoletti, 2008).

Na busca de se tornarem eficientes e eficazes, as equipas devem percorrer o caminho em direcção à maturidade, estudada por autores como Bergamini (1982) e Robbins (2001). De acordo com esses autores, as equipas caminham por diversas etapas do desenvolvimento humano em grupo, para criar uma “cultura” que permita sua actuação plena enquanto equipa.

A maturidade das equipas ocorre a partir de estadios de desenvolvimento. Segundo Robbins (2001), estes estadios são:

 Formação – caracterizado por uma fase de incerteza acerca dos objectivos do grupo e da determinação de suas regras de comportamento. Essa fase se encerra no momento em que os agentes se percebem enquanto parte da equipa;

 Adaptação – é uma fase de conflitos entre a existência do grupo e os limites a individualidade de cada membro. Também é o estadio no qual se configura a imagem do líder;

 Normalização – na busca pela maturidade, o grupo começa a demonstrar coesão e identidade grupal;

 Desempenho – os agentes da equipe transferem os seus esforços em conhecer e compreender os outros para o desenvolvimento da actividade para o qual a equipe foi formada.

 Transferência – os grupos podem desfazer-se, quer por terem atingido os objectivos pretendidos, ou por um dos elementos sair devido ao desinteresse, a equipa pode ser reestruturada.

“O alcance da maturidade da equipa pode ser reconhecido, a partir dessas duas análises, no momento em que os indivíduos do grupo se reconhecem como membros da equipa sentem-se responsáveis tanto pelos seus fracassos quanto pelos seus sucessos, participam da tomada de decisão e principalmente, possuem clareza quanto à comunicação das informações relevantes para o trabalho da equipa” (Ingram, Desombre, 1999; Wasch, 2005).

Apesar de proposto há décadas, o termo “trabalho em equipa” é utilizado na literatura indistintamente tanto para denominar o conjunto de agentes de uma mesma instituição, caracterizados como equipa apenas por trabalharem juntos, como para denominar a possibilidade de trabalho cooperativo e integrado, no qual os saberes são articulados em busca de metas comuns (Fortuna et al., 2005).

Segundo Peduzzi (2001), o “trabalho em equipa consiste numa modalidade de trabalho colectivo que se configura na relação recíproca entre as intervenções técnicas e a interacção dos agentes” (p.103).

Segundo Peduzzi (2006), a origem da concepção de trabalho em equipa na área da saúde está relacionada há três vertentes:

 a busca estratégica pela integração, no campo da medicina preventiva, nas décadas de 1950 a 1970;

 a adopção do conceito da multicausalidade do processo saúde-doença;

 as alterações no processo de trabalho, a partir das mudanças da finalidade do trabalho, seus objectos de intervenção e as novas tecnologias em saúde.

“É totalmente impossível, que na actualidade, apenas alguns profissionais exerçam, com toda eficiência necessária, o conjunto amplo e complexo das acções de saúde” (Peduzzi, 2006).

Hoje, há um consenso em torno do ‘trabalho em equipa’ no sector saúde, porém Peduzzi (2006) refere que ainda persiste e predomina uma noção de equipa que se restringe à coexistência de vários profissionais numa mesma situação de trabalho.

“Embora uma equipa de trabalho possa, de forma sumária e restrita, ser definida como um grupo de pessoas trabalhando com uma meta comum, não se pode deixar de compreender que tais grupos apresentam diferenças relevantes se analisados à luz da ideia de equipa”(Canoletti, 2008).

Embora traga benefícios, a organização do trabalho em equipa expõe a diferente valorização social dada ao trabalho intelectual, desenvolvido principalmente pelos profissionais médicos, e trabalho manual, desenvolvido pelos demais profissionais de saúde, os enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem. Embora não haja diferença no que se refere à necessidade técnica dos trabalhos intelectual e manual, socialmente essa diferença de valor representa um entrave no desenvolvimento das equipes compostas por profissionais de diversas áreas do conhecimento (McCalling, 2001).

“O trabalho em equipa expressa uma possibilidade real de alcançar a integração de diferentes áreas profissionais e disciplinares, incluindo as suas intervenções técnicas e a interacção dos diferentes agentes – profissionais”(Schofield, Amodeo, 1999).

Peduzzi (1998; 2001) reitera que “é por meio da relação entre trabalho e interacção que os agentes da equipa são capazes de construir projectos comuns, que respondam às necessidades dos usuários dos serviços de saúde”.

Embora muito se fale acerca do termo equipa, a sua utilização restringe-se àquele conjunto de sujeitos que trabalham em busca do alcance de uma meta comum determinada por eles mesmos, que articulam as suas acções de acordo com seus diferentes saberes e experiências, e interagem entre si, de maneira que os seus esforços estejam em sinergia, isto é, os esforços da equipa são maiores do que simplesmente a soma dos esforços individuais (Lorimer, Manion, 1996; Ingram, Desombre, 1999;

McCalling, 2001; Abreu et al., 2005; Wasch, 2005).

São características indispensáveis das equipas a colaboração e a cooperação na interacção de seus agentes, assim como a articulação e a interdependência de suas acções e projectos, visando um objectivo comum (Ciampone, Peduzzi, 2005).

O trabalho em equipa revela-se complexo, uma vez que congrega em si as necessidades dos usuários do serviço, da própria instituição, bem como os desejos e a individualidade de cada membro da equipa.

Posto isto, não se pode negligenciar o facto de que embora o trabalho seja de equipa, esta é composta por indivíduos com diferentes histórias de vida, saberes e formações diversas (Canoletti, 2008).

Matheus (1995) pontua a importância dos indivíduos se sentirem satisfeitos em desenvolver suas actividades, e essa satisfação está intimamente ligada ao reconhecimento do indivíduo pela equipa, assim com a possibilidade de alcançar suas metas individuais. Essa situação gera conflitos, mas também pode estimular a criatividade, conduzindo a equipa na direcção de uma tomada de decisão mais consciente e consistente, através da análise dos problemas sob as várias perspectivas trazidas pelos diversos profissionais da equipa (Robbins, 2001; Wiecha 2004, Pollard, 2004; Fortuna et al., 2005; Peduzzi, Ciampone, 2005).

Importante ressaltar, que quando se fala em integração dos profissionais e potencialização de suas competências, não se fala em igualar saberes, isto é, os diferentes profissionais possuem conhecimentos diferentes que se completam e cooperam entre si, mas não são uniformizados ou simplesmente somados (Peduzzi,

1998; 2001). Dessa forma, percebe-se que o trabalho em equipa não pode ser considerado uma actividade automática ou natural da capacidade técnica ou profissional dos sujeitos, mas sim uma qualidade constantemente desenvolvida como propriedade colectiva, na qual as habilidades necessárias ao trabalho em equipa eficaz devem ser constantemente desenvolvidas e amadurecidas (Matheus, 1995; McCalling, 2001).

“As equipas podem ser mais flexíveis que os indivíduos isolados, reagindo melhor às situações de mudança, tão rápidas e vitais nos dias actuais” (Robbins, 2001).