Capítulo 2: Revisão da Literatura
2.2 Avaliação e Gestão da Pessoa em Coma
2.2.1 Escala de Coma de Glasgow
A GCS, desenvolvida por Teasdale & Jennett (1974, 1975, 1976), oferece ao examinador uma visão geral do nível de resposta da pessoa e tem sido usada extensivamente na avaliação do estado neurológico da mesma, apesar de não substituir uma avaliação neurológica mais profunda. Geralmente surge inserida no processo da pessoa, na mesma folha em que se efectua a avaliação pupilar e a avaliação dos membros, e, frequentemente, o registo dos sinais vitais. Isto possibilita obter uma visão geral rápida do estado neurológico da pessoa e traçar linhas orientadoras de intervenção de modo a satisfazer as necessidades eminentes desta.
A GCS é uma avaliação rápida de se efectuar e que se adapta facilmente às necessidades de Enfermagem. Ela permite avaliar a pessoa desde a sua admissão no hospital e de acompanhar a sua evolução durante a sua hospitalização (Schnakers, Majerus, & Laureys, 2004).
A GCS engloba a avaliação de três áreas do funcionamento neurológico, sendo elas: a abertura dos olhos, a resposta verbal e a resposta motora (Jennett, 2002). Assim, com esta escala consegue-se avaliar o nível de consciência a partir das respostas da pessoa a estímulos específicos (ver Tabela 1).
Cada área de avaliação descrita possui diferentes níveis. A cada nível identificado é atribuído uma classificação (número) que, após a sua soma, permitirá identificar o nível de consciência da pessoa. Assim, a soma dos três números obtidos em cada área indica a gravidade do coma e o possível prognóstico, variando entre 3 e 15, sendo uma pontuação de 3 correspondente ao mínimo de resposta e uma pontuação de 15 ao máximo de resposta. O nível inferior desta escala corresponde a um prognóstico muito reservado, pois há grande diminuição da consciência, e o nível mais alto, corresponde ao estado de vigília e alerta. Quando se obtém um “score” entre 6 e 7 o diagnóstico é considerado reservado, ou seja, a situação pode evoluir positiva ou negativamente. Uma pontuação de 7, ou menos, é habitualmente aceite como coma e exige da parte da equipa de Enfermagem uma intervenção apropriada para a pessoa em questão (Jennett, 2002).
Tabela 1. Escala de Coma de Glasgow. Adaptado de Laureys et al. (2004), Jennett (2002) e Phipps et al. (2003).
ÁREAS RESPOSTAS SCORE ORIENTAÇÕES
Espontânea 4 A pessoa abre os olhos quando interpelado pelo examinador (não há necessidade de falar ou chamar a pessoa pelo nome).
À fala 3 A pessoa abre os olhos ao ouvir o examinador a falar ou quando este chama, por exemplo, o seu nome.
À dor 2 A pessoa abre os olhos apenas após a aplicação de um estímulo doloroso.
Abertura dos olhos
Sem resposta 1 A pessoa não abre os olhos face à aplicação de todo e qualquer estímulo.
Orientada 5 Para a pessoa se enquadrar neste nível, ela tem de se encontrar orientada, tanto a nível autopsíquico como alopsíquico.
Confusa 4
A pessoa, apesar de responder erradamente, a sua resposta está em consonância com a questão feita (por exemplo: no hospital, a questão “Onde se encontra?” é respondida com “Estou em casa”).
Inapropriada 3
A resposta da pessoa não está de acordo com a questão apresentada (por exemplo no hospital, a questão “Onde se encontra?” é respondida com “Quero pão”).
Incompreensível 2 A pessoa responde com sonoridades desprovidas de conteúdo e não relacionadas com dores (por exemplo, gemidos). Resposta verbal
Sem resposta 1 A pessoa não responde.
Obedece a
ordens 6
Depois do profissional de saúde se certificar de que a pessoa se encontra orientada, pede-lhe para realizar um movimento específico; no entanto, não se deve pedir à pessoa para agarrar a mão, uma vez que muitas pessoas doentes que não são capazes de cumprir ordens têm um reflexo de “agarrar” (preensão). Se a pessoa for capaz de cumprir facilmente as ordens, deve-se progredir para outras mais complexas (por ex., “toque na orelha esquerda com o indicador direito”).
Localiza a dor 5
A pessoa movimenta-se, aparentemente, com o objectivo de remover qualquer coisa irritante ou evitar a dor, localizando-a, mas não consegue seguir ordens.
Retirada
inespecífica à dor 4
Quando é provocada dor à pessoa, esta afasta-se do estímulo doloroso mas não é capaz de o localizar.
Flexão anormal à dor (postura descorticada)
3
A pessoa posiciona-se patologicamente: flexão dos braços, pulsos e dedos com adução dos membros superiores; extensão, rotação interna e flexão plantar nos membros inferiores.
Extensão anormal à dor (postura descerebrada)
2
A pessoa posiciona-se patologicamente: extensão rígida dos quatro membros com hiperpronação do antebraço e extensão plantar dos pés.
Resposta motora
Sem resposta 1 A pessoa não responde, a nível motor, a qualquer estímulo aplicado.
Segundo Schnakers et al., (2004) é preferível utilizar o “score” individual de cada sub- escala, pois a soma mascara a heterogeneidade observada ao nível das diferentes sub- escalas, enquanto um score individual pode reflectir comportamentos e níveis de consciência bastante diferentes.
No caso de entubação ou traqueostomia, a avaliação verbal não pode ser efectuada e o score total não deve ser usado. Ao nível da sub-escala visual, é necessário assegurarmo- nos de que a pessoa não tem nenhuma lesão que impeça a abertura dos olhos (e.g., um edema periorbitario ou traumatismo da face). Estas indicações permitem não enviesar a avaliação. O “score” de Glasgow é particularmente interessante para avaliar a evolução das pessoas em coma.
Tasseau et al. (2002) referem que esta é a escala de referência e preconizada para a avaliação inicial da gravidade do coma traumático.
Vários esquemas para o alargamento da GCS têm sido sugeridos, e têm vindo a permitir uma maior diferenciação nas categorias superiores. São exemplos destas readaptações a
Glasgow Outcome Scale (GOS) (Jennett & Bond, 1975) e a Glasgow-Liège Coma Scale
(GLCS) (Born, 1988).
A GOS (Jennett & Bond, 1975) engloba cinco categorias de recuperação: morte, estado vegetativo, incapacidade severa, incapacidade moderada e recuperação total. No entanto, é categorizada com base nas seguintes áreas: consciência; independência em casa; independência fora de casa; trabalho; actividades sociais e de lazer; e relações familiares e de amizade.
A GLCS (Born, 1988) é uma extensão da GCS e compreende mais uma sub-escala: uma parte cotada com 5 pontos que avalia os reflexos do tronco cerebral (fronto-orbitário, oculocefálico, fotomotor e oculocardíaco). Esta parte fornece informações importantes acerca da evolução da pessoa. Com efeito, a preservação dos reflexos do tronco cerebral, numa pessoa em coma, é de melhor prognóstico, enquanto que a sua degradação pode significar uma deterioração rostrocaudal (Schnakers et al., 2004).