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B) Em Função de Categorias Complementares:

4. O CENÁRIO DO ESTUDO EMPÍRICO

4.5. Instrumento de Pesquisa:

4.5.1. Escalas de Atitudes

Em relação às escalas, Richardson e Wanderley (1985, p.17) consideram que “as escalas de atitudes ou de opinião são, em geral, questionários padronizados para obter informações sobre o indivíduo”, o que ratifica a importância de um determinado grau de conhecimento sobre si mesmo como condição fundamental à qualidade das respostas às perguntas que lhe são feitas. Todavia, para os referidos autores, esse conhecimento de si mesmo, se não estiver atrelado ao desejo de expressar ou comunicar as respostas, pode configurar sério problema quanto à confiabilidade das escalas.

No que tange às atitudes especificamente, Oliveira (2001) pontua que se referem a um conceito multifacetado constituído por três componentes: cognitivo (conhecimento, crenças); afetivo (gostos, preferências) e comportamental (tendência à ação), afirmando que a possibilidade de mensuração das atitudes deverá envolver uma série de condições internas que sustentem a inter-relação entre esses componentes.

Nessa perspectiva, Richardson e Wanderley (1985, p.24) argumentam que uma escala que vise medir atitudes deve considerá-las como “predisposições para reagir negativamente ou positivamente a respeito de certos objetos, instituições, conceitos ou outras pessoas” (). Atitude implica, assim, aceitação ou rejeição de algo, nem sempre de modo consciente, o que ressalta a dimensão subjetiva e pessoal que envolve tais elementos no âmbito da pesquisa, ratificando a necessidade de um instrumento que possa aferir com maior precisão esses dados referentes à experiência humana.

As escalas de mensuração de atitudes são, de acordo com Richardson e Wanderley (1985, p.25), instrumentos “do tipo preditivo e como tal não fazem medições de propriedades manifestas de maneira imediata”, o que demanda do pesquisador a formulação de “uma série de itens baseada em manifestações que supõe correlacionadas com a atitude em questão (propriedade-critério)”.

No que remete, particularmente, a este estudo, elegemos como propriedade/critério a dimensão da formação humana que supomos correlacionada à propriedade manifesta da formação acadêmica em Pedagogia. Ao mesmo tempo, formulamos itens que, fundamentados no corpo teórico apresentado, incorporam atitudes como o autoconhecimento, o desenvolvimento interpessoal, a compreensão do papel do educador e a formação em Pedagogia, que detalharemos no capítulo seguinte.

Dentre uma diversidade de métodos de escalas de atitudes49, optamos pelo uso de escala do tipo Likert50 que, segundo Richardson e Wanderley (1985, p. 32), “determina mais diretamente a existência de uma ou mais atitudes no grupo de itens considerados”.

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Para uma maior apropriação dos tipos e da variação de escalas de atitudes, consultar Richardson e Wanderley (1985).

50 Cf. Batista (2008), Rensis Likert construía os seus questionários de pesquisa por meio de perguntas “que permitían ‘um juicio de valor’ y non ‘juicios descriptivos’ ”(LIKERT 1968, p.183), obrigando os participantes a se posicionarem diante do que estava exposto. As questões eram elaboradas de forma clara, sobre um único assunto, de modo a evitar ambigüidades. Em nosso estudo, porém, optamos pela elaboração de proposições cujas respostas apresentam gradações de concordância e de discordância, o que será melhor explicitado no Capítulo 4 deste estudo.

O método Likert começa com a coleta de uma quantidade importante de itens que indicam atitudes negativas e positivas sobre um objeto, instituição ou tipos de pessoas. [...] cada item é correlacionado com o escore total, que indica o grau no qual o item mede a mesma atitude que se supõe estão medindo os outros itens. Assim, os itens que apresentam baixos coeficientes de correlação com o escore total, são pouco confiáveis ou medem fatores atitudinais estranhos. Somente se mantêm para formar a escala aqueles itens que apresentam as mais altas correlações com o escore total (Richardson e Wanderley 1985, p. 31).

A intenção do pesquisador na construção dos itens consiste na identificação do modo como cada indivíduo percebe a realidade vivida e a forma como se reconhece nela inserido. A escolha pelo método descrito atende aos objetivos deste estudo na medida em que os itens contemplam aspectos da formação humana, remetem os indivíduos aos seus anseios, expectativas, desejos e experiências sem, com isso, favorecer a expressão de uma opinião já formada sobre determinado tema. Busca, mais especificamente, capturar um juízo de valor ou, como sugere Batista (2008, p.93), “capturar as tendências (“inclinações”) comportamentais ou de atitudes dos sujeitos que se submetem a ele, a partir das avaliações e escolhas (concordâncias ou discordâncias) que estes realizam durante o teste”. Nesse sentido, o instrumento aplicado apresenta significativo potencial para mensurar traços latentes da personalidade51 que indicam tendências de atitudes.

Para algumas pessoas que não estão acostumadas com pesquisa de tipo quantitativo e julgam não ser possível aferir quantitativamente tendências subjetivas, há que se ter em mente três aspectos: (a) qualquer parâmetro de referência, até mesmo um conceito teórico, não equivale à natureza mesma daquilo que é tomado como objeto do pensamento; em outras palavras, nenhum conceito ou parâmetro é capaz de por si mesmo expressar completamente o fenômeno que se quer analisar – o fenômeno é sempre mais do que a categoria mental que a ele se refere; isto se aplica tanto às chamadas pesquisas qualitativas quanto às quantitativas, mas tal entendimento atesta não a impossibilidade de conhecimento, mas, sim, seu caráter necessariamente relativo; por essa razão, o que se manifesta por meio das escalas não é de natureza melhor ou pior do que o que expressam métodos qualitativos, mas cada um deles

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Cf. Pasquali (2003), o conceito de traço latente é permeado por ambiguidades e controvérsias entre os autores que adotam tal construto, sendo referido ou inferido a partir de expressões diversas, como, por exemplo: variável hipotética, variável fonte, fator, conceito, estrutura psíquica, traço cognitivo, processo mental, habilidade, aptidão, traço de personalidade, processo elementar de informação, tendência, atitudes e outros. O modo de encarar o traço latente assume a perspectiva teórico-metodológica e o olhar do pesquisador sobre o fenômeno estudado, todavia o traço latente deve ser representado em comportamentos (verbal, motor) e tomado como dimensões, atributos mensuráveis.

capta determinados aspectos do objeto, razão pela qual uns são mais adequados para determinados fins, enquanto outros se adequam melhor a finalidades outras; não podemos deixar de ressaltar, porém, que qualidade e quantidade são dimensões indissociáveis, motivo pelo qual a atitude não indica o comportamento consumado, mas a tendência do comportamento potencial (mediante a concordância ou discordância em uma amostra representativa de comportamentos, situações, etc.); (b) a quantificação aferida por uma escala é sempre, obviamente, referente apenas ao parâmetro por ela estabelecido; por conseguinte, as grandezas aferidas são, por definição, relativas ao referencial escalar aplicado, assim como uma distância física entre dois pontos pode ser mensurada de acordo com várias escalas (metros, polegadas, pés, etc.) – assim, as escalas não têm por finalidade atribuir quantificações absolutas (o que seria uma contradição nos próprios termos), mas, sim, servir como parâmetro de comparação entre atitudes diversas de um grupo ou de grupos diferentes; (c) o que possibilita a quantificação e, via de regra, a confiabilidade das escalas é a pequena probabilidade estatística, em um grupo grande de pessoas, de que determinada característica subjetiva não seja captada por diversos itens formulados em conformidade com as características conceituais de uma atitude ou tendência subjetiva.

Nesse sentido, uma escala, para ser reconhecida como satisfatória em dado estudo, precisa submeter-se aos critérios de confiabilidade e de validade que irão referendar a viabilidade de seu uso. Na visão de Richardson (2010, p.87), a confiabilidade “indica a capacidade que devem ter os instrumentos utilizados de produzir medições constantes quando aplicados a um mesmo fenômeno”, enquanto a validade “indica a capacidade de um instrumento produzir medições adequadas e precisas para chegar a conclusões corretas, assim como a possibilidade de aplicar as descobertas a grupos semelhantes não incluídos em determinada pesquisa”.

No que se refere à escala construída para este estudo – A Escala de Formação Humana do Educador - EFHE - (APÊNDICE A), procedemos à análise dos itens, buscando “verificar a adequação (conformidade) da representação comportamental do(s) atributo(s) latente(s)”, (Pasquali 2011, p.107), além de, mediante o uso de testes estatísticos amplamente utilizados na Psicologia e nas Ciências Sociais (Teste de Confiabilidade - Alpha de Conbrach, Coeficientes de Correlação [Spearman, Pearson], Teste T), verificar o grau de correlação estabelecido entre as variáveis do estudo, bem como discorrer sobre os dados empíricos finais que possibilitaram a discussão sobre o resultado desta pesquisa. Todavia, o tratamento para

validação da versão original e da versão definitiva da escala EFHE utilizada neste estudo, bem como a descrição e interpretação dos dados obtidos será apresentado de forma detalhada no capítulo 5.

Embora o uso de escalas de atitudes seja pouco frequente no âmbito da pesquisa em Educação, apresentam-se como instrumento escolhido em pesquisas no campo das Ciências Sociais e da Psicologia Social, uma vez que viabilizam a mensuração e a interpretação de aspectos atitudinais, como crenças, sentimentos e tendência a determinadas ações que, via de regra, escapam à consciência do indivíduo. Um exemplo do uso das escalas de atitudes no âmbito das ciências humanas e sociais é apresentado por Batista (2008) quando comenta que:

Com esse intuito, Adorno, Frenkel-Brunswick, Levinson e Sanford também lançaram mão de escalas de atitudes, dentre outras técnicas, em seus estudos sobre a personalidade autoritária, publicado em 1950. Ao elaborarem escalas contendo itens que expressavam um determinado ponto de vista, Adorno e colaboradores pretendiam verificar a quais opiniões e atitudes correspondiam a concordância ou discordância de determinado item, ou seja, que tendências ideológicas conduziam os indivíduos a realizarem certas opções e não outras. Tais tendências ideológicas não seriam claramente visíveis aos indivíduos – estando “[...] mas o menos inhibidas que sólo afloran a la superfície como manifestaciones indirectas” (ADORNO 1986, p.36)52 –, necessitando-se de estímulos adequados para que pudessem expressá-las (Batista 2008, p.93-94).

O cruzamento de diferentes métodos de pesquisa utilizados por Adorno e seus companheiros (uso de escalas, interpretação crítica, por exemplo) desconfigura os argumentos de incongruência e contradição expressos ante o uso associado de técnicas empíricas que aproximam métodos experimentais, análises estatísticas e posicionamento crítico, evidenciando os aspectos subjetivos do pesquisador que, intencionalmente, reflete os princípios analisados, tomando o objeto em sua totalidade, o que favorece uma análise minuciosa dos aspectos quantitativos e qualitativos que permeiam o objeto e o fenômeno estudado.

Destacamos, ainda, que a inserção e o uso das escalas de atitudes no campo das pesquisas em Educação possibilitam a identificação de tendências e a reflexão sobre posturas que se constroem socialmente, considerando o caráter normativo que caracteriza a ação formativo-educacional. Esse olhar abrangente favorece novas reflexões sobre a educação, sobre quem educa e para que se educa, gerando significativas possibilidades de transformação

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Cf. Tradução livre desta pesquisadora: “[...] mais ou menos inibidas, aflorando à superfície comomanifestações indiretas “(ADORNO 1986, p.36).

do objeto estudado e novas inserções no campo da humanização do ser humano e no âmbito da experiência vivida no espaço da formação escolar-acadêmica.

4.5.2. Entrevista Narrativa

Considerando que a análise estatística e quantitativa não esgota o nosso objeto de estudo, buscamos desenvolver um olhar diferenciado sobre o fenômeno pesquisado. Assim, a partir de outra perspectiva, os estudos com enfoques qualitativos fundamentam-se em diferentes estratégias de investigação, sendo definidos por Denzin e Lincoln (1994, p.15) como:

Uma atividade situada que localiza o observador no mundo. Consiste em um conjunto de práticas materiais e interpretativas que dão visibilidade ao mundo. [...] envolve uma prática naturalista, interpretativa para o mundo, o que significa que seus pesquisadores estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando entender, ou interpretar, os fenômenos em termos de significados que as pessoas a eles conferem.

Dessa forma, destacamos como sendo fundamental que o pesquisador compreenda o ambiente natural da pesquisa como “especialmente constituído por elementos culturais”, a partir da interdependência estabelecida com realidades sociais maiores nas quais se configuram os fenômenos sociais concretos (Trivinõs 1987, p.128); que a descrição dos fenômenos se apresente impregnada dos significados que o ambiente lhes outorga, considerando que “a interpretação dos resultados surge como a totalidade de uma especulação que tem como base a percepção de um fenômeno num contexto” (Trivinõs 1987, p.128); que valoriza o caráter dinâmico e processual do fenômeno e que atribui significados e interpretações a partir dos dados levantados (Trivinõs 1987, p.129), dando atenção, preferencialmente, aos “pressupostos que servem de fundamento à vida das pessoas” (Trivinõs 1987, p.130).

Desse modo, o processo de condução de um estudo qualitativo sinaliza para uma maior proximidade do pesquisador não apenas com o seu objeto de estudo, mas também com as pessoas e os contextos pesquisados. Imbuído dessa tarefa, o pesquisador recorre e lança mão de uma variedade de práticas interpretativas e de materiais empíricos que busquem responder às questões postas.