3 EDUCAÇÃO RURAL OBRIGATÓRIA NO BRASIL E AS NOVAS PEDAGOGIAS NO CAMPO
3.1 EDUCAÇÃO OBRIGATÓRIA E ADESTRAMENTO
3.1.1 Escola como espaço de vigilância e controle
Para Paula Brügger (2004, p.85) o termo adestramento revela “um tipo de instrução onde as pessoas são levadas a executar determinadas funções e tarefas, identificadas com um padrão utilitário racional de pensamento e ação que se restringe a um universo unidimensional”. Na sua tese: “Educação ou Adestramento Ambiental?” A autora trata da importância político-ideológica da linguagem, e afirma que as palavras são muito mais que mera forma de expressão, que sua escolha ou exclusão indicam sempre um posicionamento. Trata da ambiguidade do termo desenvolvimento sustentável e esses novos discursos podem ser transpostos para a
educação, via componentes curriculares comportamentalistas e regras adestradoras. Conforme a autora toda ferramenta pedagógica está impregnada de um viés ideológico de uma predisposição a construir o mundo como uma coisa e não como outra.
Escolas públicas seguem seus projetos pedagógicos próprios? O que reforça as relações verticais de poder? A hierarquia institucional contextualiza a significativa influência do regime econômico na vida contemporânea? São as instituições que estabelecem padrões comportamentais na dimensão do corpo dos indivíduos, através da vigilância, treinamento e disciplina escolar segundo Michel Foucault (2013) e na criação de um modelo de desenvolvimento, consumo e a produção em nível macro.
“A disciplina procede em primeiro lugar à distribuição dos indivíduos no espaço.” (FOUCAULT, 2013, p. 137). Exemplo são os colégios, conventos, internatos, modelo jesuíta. Clausura. E o bom adestramento ocorre com o uso de instrumentos simples: vigilância hierárquica, sanção normalizadora11 (mecanismo penal) e exames.
As localizações funcionais foram criadas para impor a disciplina, da arte de dispor em fila, da técnica para a transformação dos arranjos, e criar uma arquitetura do olhar vigilante. Conforme Foucault (2013, p. 169) existe um poder de hierarquia na vigilância, que pode ocorrer em variadas escalas. Do prédio-escola, com paredes de vidro e/ou meia porta (janela de vidro na porta) ao ponto mais alto, do palestrante e também observador, que fiscaliza o comportamento.
A escola tem especificações funcionais: é ao mesmo tempo uma peça interna no aparelho de produção e uma engrenagem específica do poder disciplinar. Existe uma cerca (muros, grades) que limita o espaço da escola. Produz especificação de um local heterogêneo a todos os outros e fechado em si mesmo, protegido da monotonia disciplinar.
A ordenação por fileiras, no século XVIII, começa a definir a grande forma de repartições dos indivíduos na ordem escolas: filas de alunos na sala, nos corredores, nos pátios; colocação atribuída a cada um em relação a cada tarefa e cada prova; colocação que ele obtém de semana em semana, de mês em mês, ano em ano; alinhamento das classes de idade umas depois das outras; sucessão de assuntos
11 Norma: regra que serve para “estabelecer um padrão e prescrever uma determinada ação ou
conduta, o que permite distinguir entre o certo e o errado e, no plano ético, entre o bom e o mau, o justo e o injusto” conforme Japiassú e Marcondes (2006, p. 202).
ensinados, das questões tratadas segundo uma ordem de dificuldade crescente (FOUCAULT, 2013, p. 141).
Assim, a instituição escolar integra três procedimentos num único dispositivo: “o ensino, aquisição dos conhecimentos pelo próprio exercício da atividade pedagógica e uma observação recíproca e hierarquizada” (FOUCAULT, 2013, p.170). Uma relação de fiscalização, definida e regulada, está inserida na essência da prática do ensino: como um mecanismo que lhe é inerente e multiplica sua eficiência.
O livro Vigiar e Punir de Michel Foucault (2013, p. 21) apresenta que a realidade incorpórea do castigo e da punição dá numa microfísica do poder, algo que não pode ser totalmente visto e sentido, mas está posta em jogo pelos aparelhos e instituições. Afirma que a alma também é uma prisão do corpo (2013, p. 31-32) “o poder é uma estratégia e não se deveria dizer que a alma é uma ilusão”, ou um efeito ideológico, mas afirma que ela existe que tem uma realidade, que é produzida permanentemente, em torno, na superfície, no interior do corpo pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos.
O poder chega em diversas formas de relações sobre os que são “vigiados, treinados, corrigidos, sobre os loucos, as crianças, os escolares, os colonizados, sobre os que são fixados a um aparelho de produção e controlados durante toda a existência” (FOUCAULT, 2013, p.32). O corpo preso, a dor, “o castigo como efeito e instrumento de uma anatomia política” e punição generalizada (2014, p.71).
Para Foucault a educação ocidental organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem, fez funcionar o espaço escolar como uma máquina de ensinar, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar. A pedagogia legitima um olhar classificador do professor e “nesse conjunto de alinhamentos obrigatórios, cada aluno segundo sua idade, seus desempenhos, seu comportamento, ocupa ora uma fila, ora outra” (FOUCAULT, 2013, p.142).
O estudante obrigado a frequentar a escola se “desloca o tempo todo” entre hierarquias do saber ou de capacidades (ideias, prêmios, concursos), e essa segregação do conhecimento no espaço é materializada na divisão em classes (salas de aula) por idade e série escolar, por tipo de escola e sua repartição de valores ou dos méritos de cada espaço delimitado.
Quadro 3 - Mecanismos de controle das atividades escolares
(1) Horário – três grandes processos: estabelecer censura, obrigar a ocupações determinadas e regulamentar ciclos de repetição. Os horários são técnicos do ritmo – quem dita a velocidade do aprendizado?
(2) Tempo - elaboração temporal do ato - conjunto de obrigações impostas com alto grau de precisão na decomposição dos gestos e dos movimentos como maneira de ajustar o corpo a imperativos temporais;
(3) Eficácia e rapidez – corpo e gestos são postos em correlação, um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente;
(4) Articulação corpo-objeto: definição das relações ao manipular objetos, estabelecimento das posturas e codificação instrumental do corpo. Explicações explícitas e coercitivas das manobras e elementos do corpo (mão, olhos, pernas), elementos dos objetos (mouse, teclas, tela) e correlação com os gestos: olhar, pegar, clicar;
(5) Utilização exaustiva e princípio da não ociosidade:
proibido perder tempo, erro moral e desonestidade econômica. Cada instante é povoado por atividades múltiplas e ordenadas com um ritmo imposto por sinais, apitos, comandos impõem a todos normas temporais que devem ao mesmo tempo acelerar o processo de aprendizagem e ensinar a rapidez como uma virtude.
Fonte: Foucault (2013, p.144-149). Organização da autora (2018).
Questiono: Estas regras autoritárias de vigilância da frequência, tempo e de comportamento colaboram ou prejudicam a aprendizagem? A pedagogia serve a quem? Um tipo de ensino que prioriza a hierarquia entre professor (quem professa) x aluno (sem luz). Ou o estudante é passivo ou ativo (que tem que aprender a aprender). Vivemos uma sociedade do engano, se faz profissões, que faz professar por dinheiro. Construtivismo busca adaptar o estudante à cultura, as correntes de forma geral aderem a um tipo de comportamentalismo (manipulação da ética), como castigos por descumprimento de regras e normas, prêmios de excelência, notas avaliativas que definem capacidades cognitivas. A educação também é sobre a vontade de viver, sobre desenvolver processos vitais, conectado com si mesmo. Sobre aprender a produzir a si, ter autonomia e autorrealização pessoal. Neste grande desafio da educação qual o devir do professor/mediador escolar?
Como assumir responsabilidade de fazer com originalidade um acordo de cuidado? Educar envolve outras palavras e que não estão nos discursos institucionais como: reconhecer, emoção, aceitação, paciência, atenção, escutar e atender, empatia.
Quais conteúdos ainda se mantêm necessários e quem controla os currículos das disciplinas não avaliadas nas provas nacionais? Um livro didático de base comum nacional, contará apenas uma verdadeira história brasileira? Qual a discussão ou diálogo estabelecido com os sujeitos da escolarização e das atividades obrigatórias? Os estudantes se lembram da escola? O que aprenderam ou o que aprontaram? Com aprendizado para a vida ou para o trabalho, a escolarização obrigatória e a vigilância hierárquica fazem parte da história da sociedade ocidental.
3.2 OLHAR HISTÓRICO-CRÍTICO PARA A EDUCAÇÃO NO BRASIL: