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Programas do MDA e MEC: PRONERA, Terra Solidária, PROJOVEM-Campo e Saberes da

5 ANÁLISE CRÍTICA DOS DISCURSOS PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA NO CAMPO

5.4 REGULARIDADE E CONDIÇÃO DE POSSIBILIDADE: DISCURSOS DE DESENVOLVIMENTO

5.4.2 Programas do MDA e MEC: PRONERA, Terra Solidária, PROJOVEM-Campo e Saberes da

Criado com a portaria n.10/1998, o PRONERA, desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, beneficia jovens e adultos do meio rural oferecendo de educação básica (alfabetização, ensino fundamental e médio), cursos técnicos profissionalizantes de nível médio, cursos superiores e de especialização.

Essa primeira política para uma educação diferenciada dos assentados pela reforma agrária foi fundamental para iniciar um novo tipo de formação e prática pedagógica nos acampamentos e assentamentos rurais. Cursos de alfabetização e letramento e cursos para professores iniciaram a pedagogia da terra e da alternância nas universidades e institutos federais, moldando os primeiros cursos de graduação e pós em educação do campo.

Com a institucionalização de uma política para a educação do campo como um modelo educativo ligado aos assentamentos rurais e agricultura familiar no Brasil que passou a atender outras demandas coletivas e comunitárias, envolvendo escolas indígenas, quilombolas e escolas do campo, essas políticas buscam estabelecer condições melhores de ensino e aprendizagem além de redefinir o termo - “Fixar” o homem no campo - para tratar de uma forma de – manter o jovem no rural - a partir do enraizamento ao território, da memória cultural e da profissionalização diferenciada ligada ao desenvolvimento sustentável e justiça social.

O MDA apresenta uma abordagem territorial para o desenvolvimento sustentável onde o campo - a propriedade de terra individual ou coletiva - é entendido como espaço emancipatório, de solidariedade e de luta pelo direito a educação, saúde e terra. Os movimentos sociais possuem uma forte idealização política e administrativa de que a escola do campo pode ser um lugar de luta e resistência. No entendimento do senso comum a escola serve para instrução, aquisição de habilidades e competências para o exercício da cidadania. Assim, o discurso estatal afirma que: “Não podemos pensar uma escola do campo como sendo homogênea, como se só houvesse um sujeito da aprendizagem” (MDA/SDT,

2006, p. 12) e que a educação “enraíze sem necessariamente fixar as pessoas”. Existem raízes móveis? Como enraizar sem fixar?

O conceito de que a identidade da educação do campo se constrói pelos sujeitos sociais a quem se destina está no projeto educativo do MDA que discursa sobre buscar as raízes e tradições culturais que fazem parte do processo de construção do modo de vida próprio e na utilização do espaço vivido de cada povo em sua singularidade. Se cada escola é responsabilizada por suas escolhas curriculares como as redes de ensino podem administrar diferentes necessidades de um coletivo ou comunidade? A rede perpetua o caráter de vigilância como forma de adequação dos indivíduos ao sistema social-econômico vigente e suas dinâmicas de escolarização obrigatória e profissionalização técnica. Nesse entendimento se constroem as propostas de educação do campo para formar indivíduos agentes do desenvolvimento territorial e sustentável, com perspectiva de inserção competitiva dos territórios no mercado.

O discurso institucional do projeto Terra Solidária do MDA (2006, p. 13) forma “agentes de desenvolvimento”, a partir da educação para o “desenvolvimento sustentável e solidário”. Combina formas de ensino para construção de identidades, autoestima, valores e memória coletiva, tirando o foco da sala de aula e da educação formal.

A educação do campo é maior que a escola, pois está presente na vida e na organização da população que vive em áreas não urbanas. No entanto, o resgate da importância da escolarização, como direito do ser humano tem constituído num movimento de luta pela educação pública, gratuita e de qualidade. Nesse sentido, o campo tem despontado como um celeiro de iniciativas educativas inovadoras envolvendo os movimentos sociais, ONGs, pastorais, prefeituras e escolas de formação sindical que estão redesenhando o papel que a escola deve desempenhar no processo de inclusão das pessoas, como uma ferramenta estratégica na construção de um projeto de desenvolvimento sustentável e solidário. (BRASIL/MDA, 2006, p.11).

A abordagem territorial está reforçada no discurso configurando uma identidade com o território rural a partir das características físicas do espaço geográfico e é construído nas relações sociais, econômicas e culturais de cada lugar. O MDA apresenta categorias amplas e abarca variadas temáticas que se enquadrariam em todos os tipos de educação, afirmando que não existe uma única fisionomia no rural brasileiro e que a escola não pode ser pensada como espaços homogêneos e com sujeitos iguais, pois:

[...] os sujeitos do campo são plurais, nos aspectos culturais, sociais, ambientais, de gênero, geração, raça e etnia, portanto, plurais precisam também ser as escolas. Trata-se de combinar formas de fazer uma educação que construa e cultive identidades, auto-estima, valores, memória coletiva que sinalize futuro, saberes e que enraíze sem necessariamente fixar as pessoas. Estar enraizado é se reconhecer como tendo participação ativa no real, bem como se sentir pertencendo a determinado grupo e espaço (BRASIL/MDA, 2006, p. 12-13).

Os programas ligados ao Governo federal instituem a agroecologia e a territorialidade como força motora para criar um novo modelo de desenvolvimento a partir da reforma agrária e da agricultura familiar. A escolarização obrigatória é condicionada a alternar educação formal com atividades informais de aprendizagem, ligadas à profissionalização dos estudantes.

Tanto o MEC quanto o MDA e INCRA são responsáveis por projetos educativos e criam dispositivos para configurar uma identidade agroecológica e familiar. O desafio destas comunidades será encontrar um modo de estudar sobre produção orgânica, sustentabilidade, inovação, entre outros saberes que são difundidos ou revalorizados conforme os discursos institucionais. O Pronera afirma que desde sua criação em 1998 até 2010, beneficiou cerca de 450 mil jovens e adultos que vivem no meio rural, sendo que 76% no período de 2003 a 2010, quando foram investidos cerca de R$ 201,7 milhões de reais e atendidos 346.629 estudantes (MDA, 2011). Assim vêm se construindo as propostas de educação do campo para formar indivíduos agentes do desenvolvimento territorial e sustentável, com perspectiva de inserção competitiva dos territórios no mercado.

Para Oliveira (2008, p.364) o programa é uma forma ideológica de convencer os agricultores a se responsabilizar pelos seus problemas, pois articula um paradigma pós-estruturalista e individualista ao criar um discurso de que “todos são iguais e de que é possível, no diálogo, chegar a consensos que podem e devem ser utilizados para pensar esse desenvolvimento”, o Projeto Terra Solidária, por exemplo, se propõe a formar “agentes de desenvolvimento”, limitado ao chamado “desenvolvimento ‘sustentável e solidário”.

Outro programa de profissionalização dos estudantes rurais do Governo Federal “ProJovem-Campo – Saberes da Terra”, está agregado desde 2005 ao Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem), cuja gestão é da Secretaria Nacional de Juventude do Ministério de Educação (BRASIL, MEC), atendendo

jovens com idade entre 18 a 29 anos, excluídos do sistema formal de ensino, e com objetivo da elevação de escolaridade em Ensino Fundamental com qualificação profissional inicial.

Os mecanismos de controle e vigilância se dão por categorias como frequência, tempo de estudo obrigatório e formação profissional específica a partir de eixos temáticos pré-definidos. O curso dura 2 anos com carga horária de 2.400 horas aula obrigatórias. Estão divididas em alternância por 1.800 horas presenciais (tempo-escola) e 600 horas de tempo na comunidade. Os recursos financeiros são direcionados para as instituições e em forma de bolsas de estudo. Cada estudante recebe 12 auxílios financeiros de 100,00 reais em 24 meses. As secretarias estaduais recebem 2.400 reais por educando e os cursistas recebem 4.300 reais (320h), recurso descentralizado das instituições de ensino superior (MEC).

Quadro 9 - Eixos temáticos do Programa Saberes da Terra Eixo articulador: Agricultura Familiar e a Sustentabilidade

Eixos temáticos: 1 Agricultura familiar, cultura, identidade, etnia e gênero; 2. Sistemas de Produção e processos de trabalho no campo; 3. Cidadania, organização social e políticas públicas;

4. Economia Solidária;

5. Desenvolvimento Sustentável e solidário com enfoque territorial Ocupação profissional:

produção rural familiar

A. Sistemas de cultivo B. Sistema de criação C. Extrativismo D. Agroindústria E. Aquicultura Fonte: Brasil. MEC. Organização da autora (2018).

Sobre os conteúdos e a formação profissional dos estudantes identifico que a ocupação no mercado de trabalho está vinculada à produção rural familiar: sistemas de cultivo e criação, extrativismo, agroindústria e aquicultura conforme quadro acima. O eixo articulador e os 5 eixos temáticos dos programas coincidem com todos os objetivos e parâmetros traçados desde a década de 1990 pelo Banco Mundial com o novo modelo de desenvolvimento rural no Brasil.

Esse programa foi criado anteriormente à política nacional de educação do campo e não reafirma os conceitos de luta social, reforma agrária ou campesinato. Pelo contrário, os cursos têm ligação com o modelo produtivo do agronegócio

mesmo que a partir de discursos de sustentabilidade, agricultura familiar e produção orgânica.