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SIGNIFICAÇÃO DO DISCURSO: ESPECIFICIDADE E DIVERSIDADE

5 ANÁLISE CRÍTICA DOS DISCURSOS PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA NO CAMPO

5.3 SIGNIFICAÇÃO DO DISCURSO: ESPECIFICIDADE E DIVERSIDADE

O que diferencia a educação do campo dos outros processos de escolarização? O discurso de diversificação das propostas pedagógicas inicia com a CF e é reafirmado na LDB. Esses discursos que reconfiguram suas propostas para efetuar a alfabetização, instrução e profissionalização dos estudantes rurais, assentados, povos originários e outros sujeitos do rural. Neste sentido se fez um projeto de formação de professores em educação do campo com práticas de ensino- aprendizagem que induzem outros padrões específicos e diferenciados para desenvolver a sociedade rural.

Então, o que mudou com a nova política de educação do campo? O que é exigido na escola e na formação de professores? Caldart (2004) em sua obra intitulada “Dicionário de educação do campo”, acredita que para mudar esse quadro o caminho seria introduzir novas categorias nos currículos de formação de educadores, dirigentes e militantes. Apresentando aos estudantes o histórico da

“construção racista ou sexista dos padrões de poder, de conhecimento, de dominação e opressão, de trabalho e de apropriação-expropriação da terra e da produção tão determinantes e persistentes em nossa história” (Caldart, 2012, p. 236).

O reconhecimento da diversidade de coletivos em lutas por terra, território, trabalho, educação, escola está presente na história da defesa de outra educação do campo nas conferências, no fórum e na pressão por políticas públicas, na proximidade dos cursos de Formação de Educadores, Pedagogia da Terra e Formação de Professores para o campo, indígenas, quilombolas etc. A diversidade está exposta e exige reconhecimento. (ARROYO apud CALDART, 2012, p. 232).

Para Alex Souza (2015) é perigoso considerar uma educação que priorize as peculiaridades da vida no campo e uso de conteúdos e metodologias apropriadas em detrimento das características gerais, valem-se das “necessidades específicas” e de reconhecimento de cada grupo social que se reivindica com necessidades e/ou realidades distintas, esse modelo educativo levaria a um completo esfacelamento da educação comum nacional, pois:

Ao mesmo tempo, bloqueia o acesso aos conhecimentos clássicos – aqueles que superaram as marcas de seu tempo e que mantêm significativa validade no tempo presente, como são os conhecimentos filosóficos, históricos e aqueles ligados à arte e à cultura, bem como os conhecimentos de química, física, biologia etc. (Souza, 2015, p. 130).

Só para citar alguns exemplos, haveria a necessidade de uma educação específica para a região nordeste, outra para as regiões norte e centro-oeste do país ou, ainda, uma educação específica, diferenciada para grupos que vivem nas periferias das cidades e que não se identificam com a educação de áreas centrais.

Por outro lado, a representação dos aspectos diversos da educação é imprescindível para que a escolarização obrigatória, principalmente pensada como base nacional comum, não implique no extermínio global da diferença. A diversidade não pode significar distintas versões do mesmo.

O discurso institucional do MEC se preocupou em conceituar a identidade da escola do campo a partir de 2001 com as diretrizes operacionais do CNE/CEB para a educação do campo no Brasil. A identidade da escola é definida

pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país (art. 2º, parágrafo único CNE/CEB, 2002)41.

Ao estabelecer diretrizes, o Estado propõe medidas de adequação da escola (currículo, projeto pedagógico, etc.) ao modo de vida do campo, visando o respeito às diferenças e a política de igualdade. Um discurso que afirma o movimento como social e não governamental.

Ao afirmarmos que a Educação do Campo não emerge no vazio e também que não se dá pela iniciativa do Estado ou de algum governo, sendo esta “dos” sujeitos do campo, firma-se o vínculo orgânico com os sujeitos locais, com o lugar, com o território, com as comunidades e suas realidades. Da mesma forma, protagonizada pelos Movimentos Sociais, sendo capaz de incidir sobre os aportes na política pública, desencadeia um segundo vínculo com as lutas sociais, assumindo um traço identitário de classe, a qual se substância, quando o significado político com potencial interventor, for capaz de demarcar outro projeto identitário. É a perspectiva de vincular-se o processo de Educação do Campo ao território, ao “lugar”, à comunidade, ao local, a um ponto em que mais se “toca” a realidade (BRASIL/MEC, 2001).

O conceito de educação do campo conforme a CNE/MEC (2002) vem de uma concepção político-pedagógica voltada para dinamizar a ligação dos seres humanos com a produção das condições de existência social, na relação com a terra e o meio ambiente. Essa política incorpora os povos e o espaço da floresta, da pecuária, das minas, da agricultura, os pesqueiros, caiçaras, ribeirinhos, quilombolas, indígenas e extrativistas.

No artigo 4º CNE/CEB 1/2002 se lê:

O projeto institucional das escolas do campo, expressão do trabalho compartilhado de todos os setores comprometidos com a universalização da educação escolar com qualidade social, constituir- se-á num espaço público de investigação e articulação de experiências e estudos direcionados para o mundo do trabalho, bem como para o desenvolvimento social, economicamente justo e ecologicamente sustentável.

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CNA (Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais do Agronegócio) e OBSERVATÓRIO DAS

DESPROTEÇÕES SOCIAIS NO CAMPO. Disponível em:

http://icna.org.br/sites/default/files/artigo/escolas_esquecidas_edicao2014.pdf. Acesso em: 06 maio 2018.

Em seguida, em 2013, um conjunto de ações articuladas para melhorar o ensino nas redes existentes criou o Programa Nacional de Educação do Campo (PRONACAMPO)42 tendo por objetivo o apoio técnico e financeiro dos Estados, Distrito Federal e Municípios para a implementação da política de educação do campo, além disso, visando assegurar a formação dos professores, produzir material didático específico, acesso e recuperação da infraestrutura e qualidade da educação no campo em todas as etapas e modalidades da educação brasileira e para os estudantes do campo e quilombolas.

Art. 1º Fica instituído o Programa Nacional de Educação do Campo - PRONACAMPO, que consiste em um conjunto articulado de ações de apoio aos sistemas de ensino para a implementação da política de educação do campo, conforme disposto no Decreto nº 7.352, de 4 de novembro de 2010 (PORTARIA 86/2013).

Conforme o dicionário de educação do campo um dos princípios que orientam a Educação do Campo está em “os seres humanos se fazem, se formam e se humanizam no fazer a história” (CALDART, 2012, p. 232) e a diversidade de formas de fazer a história somada o fato de os seres humanos serem reconhecidos como sujeitos de história representam a visibilidade dos grupos segregados que precisam deixar suas marcas “no fazer-se, no formar-se, no humanizar-se que exigem reconhecimento na teoria e nos projetos de formação” (2012, p.233). A questão de significar um novo discurso envolve reconhecer as populações silenciadas, que possuem diversas formas de fazer história, de trabalhar, produzir alimentos e se reproduzir nos territórios.

Com a criação das políticas as ações do Estado se dão em quatro eixos: Gestão e Práticas Pedagógicas; Formação Inicial e Continuada de Professores; Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional; Infraestrutura Física e Tecnológica. Para ter acesso ao Programa Nacional de educação do campo as escolas devem realizar a adesão de acordo com o projeto educativo em curso, optando por atividades de acompanhamento pedagógico nos macrocampos; “educação ambiental; esporte e lazer; direitos humanos em educação; cultura e

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PRONACAMPO, Programa Nacional de Educação no Campo. O PRONACAMPO. Mais educação no Campo. Disponível em: http://pronacampo.mec.gov.br/10-destaque/2-o-pronacampo. Acesso em: 12 fev. 2018.

artes; cultura digital; promoção da saúde; comunicação e uso de mídias; investigação no campo das ciências da natureza e educação econômica”.

Assim, no eixo de Gestão e Práticas Pedagógicas, por exemplo, o PRONACAMPO desenvolve ações como o Programa Nacional do Livro Didático - PNLD Campo e o Programa Nacional Biblioteca da Escola — PNBE Temático, enquanto no eixo de Infraestrutura Física e Tecnológica pretende a Construção de Escolas e a Inclusão Digital. Essas medidas pretendem reparar os problemas já descritos sobre as características das escolas rurais municipais, fornecer meios para que o conhecimento possa ser construído coletivamente considerando a diversidade e especificidade dos povos do campo.

A partir de 2013 são estabelecidas metas políticas e administrativas para a educação impulsionar o desenvolvimento rural que passa a ser tema constante dos projetos de ensino e aprendizagem. A partir de agora, portanto, serão identificadas as características de programas institucionais voltados para os estudantes de áreas rurais na região sul do Brasil.

5.4 REGULARIDADE E CONDIÇÃO DE POSSIBILIDADE: DISCURSOS DE