1. Educação Hoje
1.4. As instituições educativas
1.4.2. Escola como instituição educativa
A escola é a instituição especificamente educativa criada para educação dos cidadãos. O aparecimento da escola está ligado à proclamação dos direitos civis pela Revolução Francesa nos finais do século XVIII. Porém, a sua consolidação e acessibilidade
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ainda está longe de ser uma realidade em muitos países. Este facto é comprovado pelas taxas actuais de acesso e sucesso das crianças ao nível das instituições escolares e pelas taxas de analfabetismo no seio de adultos e adolescentes principalmente do sexo feminino (Sarramona, 2000: 61).
Apesar de constantemente criticada, a presença da escola como instituição social continua a afirmar-se e justificar-se não só porque prepara as jovens gerações para integração na sociedade, segundo conhecimentos e normas exigidas em cada momento histórico, como também porque prepara para a sociedade futura, uma vez que os resultados são a médio e longo prazo.
Comparativamente a outras instituições educativas, a escola é a que consegue reunir condições cada vez mais propícias para educação das crianças e adolescentes, uma vez que permite, segundo o mesmo autor:
“a) Uma ampla convivência entre iguais o que favorece a socialização, processo em que, segundo opinião de vários especialistas, a escola oferece hoje melhores garantias devido às profundas e constantes transformações que se produzem tanto nas famílias, como nas sociedades em geral.
b) Os profissionais que nela trabalham possuem conhecimentos e técnicas pedagógicas que facilitam a criação de melhores condições para o alcance das metas educativas;
c) As actividades educativas desenvolvidas no ambiente escolar concorrem para a igualdade de oportunidades, uma vez que proporcionam um intenso relacionamento entre os mais diversos grupos e as camadas sociais. Esta realidade torna-se mais evidente em condições de uma rede escolar abrangente, capaz de abarcar a totalidade das crianças.
d) As actividades educativas exercem uma influência significativa sobre o meio social e consequentemente sobre a família e as diversas organizações sociais, principalmente quando a escola se identifica com o seu meio, através de um projecto específico.
e) A escola contribui de forma decisiva para a preservação da cultura geral de um povo ou território; para a aprendizagem das línguas e para o conhecimento e enriquecimento das culturas. Pode-se afirmar que uma cultura que não seja veiculada e tratada na escola pode correr o risco de não sobreviver. A escola e o sistema educativo, contribuem também para a conservação, a evolução e a dinamização da cultura, sobretudo quando promovem
reflexões e desenvolvem críticas que favorecem a assimilação e adopção de novas tecnologias indispensáveis ao progresso colectivo.
f) A Escola, ao assumir a custódia das crianças e ao oferecer uma série de apoios facilita a actividade laboral dos pais, em especial das mães.
g) A escola cria também condições para a materialização de projectos educativos pessoais, informando, formando e acompanhando”. (Sarramona, 2000: 61-62).
De acordo ainda com o mesmo autor, as transformações que ocorrerão na sociedade colocarão a escola perante intensos e complexos desafios. As transformações ao nível das famílias obrigarão a escola a assumir uma maior protagonismo no processo da primeira socialização. A escola será levada a oferecer uma diversidade de serviços que variarão com as características do meio ambiente e das famílias. Dessa transferência de funções da família para a escola, resultarão novas formas de financiamento da educação, com maior comparticipação das famílias. Esse facto gerará pelo menos dois tipos de escolas: i) escolas com serviços de apoio de qualidade, cujos beneficiários serão as famílias económica e socialmente mais favorecidas que terão obviamente uma intervenção mais directa na sua organização e funcionamento; ii) escolas mais limitadas do ponto de vista da oferta desses serviços, que funcionarão em contextos sócio-económicos mais débeis, a menos que sejam subvencionadas pelo Estado ou que contem com apoios de outras instituições.
O poder dos meios de comunicação e de informação sobre os indivíduos, as famílias e as próprias escolas, obrigarão os Estados a adoptarem novas estratégias educativas baseadas, designadamente, na negociação de acordos com todas as instituições educativas para poder garantir o seu papel de assegurar um justo acesso aos conhecimentos a todos os cidadãos. Perante a explosão e a quantidade de informações, provenientes de fontes incontroláveis, a escola ver-se-á compelida a desenvolver uma capacidade de filtrar, sintetizar, estruturar e simultaneamente desenvolver nos alunos uma atitude crítica perante essas mesmas informações, sob pena de serem alienados. Para poder assegurar a sua existência nesse contexto, a escola será obrigada a rever profundamente os seus métodos de forma a atribuir aos alunos maiores responsabilidades na gestão da sua própria aprendizagem e desenvolver neles a capacidade de auto-aprendizagem. A escola terá que ser selectiva e orientada para conhecimentos e competências básicas para poder enquadrar, em termos curriculares, a quantidade e a diversidade dos conteúdos que se lhe oferecem. O
aproveitamento máximo desses conteúdos terá que ser visto na perspectiva da educação permanente. O domínio de línguas será a via a privilegiar para acesso ao mundo das informações.
Quanto aos professores, impor-se-á a necessidade imperiosa de reformulação e adaptação da sua formação inicial e contínua às exigências da era da informação. Será inevitável que os professores tenham um domínio sobre os meios modernos de comunicação e competências para aplicá-los no processo do ensino-aprendizagem.
A globalização, que estimula o convívio multicultural, colocará a escola no centro de uma educação intercultural – baseada no respeito às diferenças, na diversidade cultural e no desenvolvimento de relações amplas com outros contextos – da coesão social e do respeito das minorias. Estas exigências implicarão reformas imediatas tanto ao nível dos currículos como da organização de actividades educativas. O inevitável pluralismo ideológico que resultará da convivência de diferentes correntes ideológicas num determinado contexto social, como expressão do pluralismo democrático, levará a escola a ter uma atitude activa e consciente perante elementos comuns das diferentes opções e a respeitar os divergentes, mantendo perante eles uma atitude imparcial e não neutral. A escola terá que privilegiar o diálogo e o respeito mútuo, repelir as imposições e preparar as pessoas para numa sociedade plural, baseada no respeito pelas diferenças.
Perante o mundo de trabalho que melhor reflecte as constantes e rápidas mudanças tecnológicas da sociedade actual, a competitividade na produção de bens e serviços e a evolução das relações sociais, a educação, incapaz de acompanhar estas rápidas transformações, deverá concentrar-se na difusão dos conhecimentos que possam proporcionar transferência de conhecimentos instrumentais como o domínio das línguas, as habilidades matemáticas, a capacidade de interpretação gráfica, as técnicas de resolução de problemas, etc. O sistema educativo terá que ser orientado para a aprendizagem de técnicas concretas que desenvolvam as mentalidades tecnológicas necessárias à compreensão dos processos tecnológicos que hoje caracterizam as actividades laborais, à afirmação de atitudes favoráveis às mudanças que ocorrerão nos postos de trabalho e nas profissões. A escola e o mundo de trabalho terão que celebrar acordos que viabilizem a preparação e a integração profissional dos indivíduos, na perspectiva de uma estreita colaboração entre a educação formal e não formal.
Os progressos da sociedade moderna produzem também efeitos negativos sobre a sociedade, ameaçam a perda de referências que orientam a integração social, exacerbam as tendências individualistas e exageram a competitividade. A escola, não podendo ficar indiferente perante estes fenómenos, terá que recorrer à educação moral, à educação para a cidadania para realçar e cultivar valores como a liberdade, a honra, a colaboração, a solidariedade, a responsabilidade, o espírito de sacrifício e a aceitação das normas legais (Sarramona, 2000: 62-76).