CAPÍTULO III – EXCLUSÃO E TEORIA ECONÔMICA
2. PANORAMA DAS PRINCIPAIS LINHAS TEÓRICAS
2.3. Escola de Chicago
O movimento teórico conhecido como Escola de Chicago teve origem nos estudos de AARON DIRECTOR da década de 1950237, e foi popularizado nas décadas de 1960 e 1970, principalmente nos escritos de BORK e POSNER.238 Os autores ligados à Escola de Chicago questionaram diversos aspectos da política antitruste que vinha sendo aplicada nos
233 Conforme síntese de JACOBS, Michael. An Essay on the Normative Foundations of Antitrust Economics.
In: North Carolina Law Review, v. 74, 1995-1996, p. 227.
234 HOVENKAMP, Herbert. The Antitrust Enterprise. Principles and Execution. Harvard University Press.
2005, p. 36.
235 MOTTA, Massimo. Competition Policy: Theory and Practice. Cambridge University Press, 2004, p. 7. 236 O’DONOGHUE, Robert; PADILLA, A Jorge. Law and Economics of Article 82 EC. Hart Publishing,
2006, p. 179.
237 POSNER explica que DIRECTOR formulou grande parte de suas ideias oralmente. POSNER, Richard.
The Chicago School of Antitrust Analysis. In: University of Pennsylvannia Law Review, v. 127, 1978-1979, p. 925-926.
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Outros nomes frequentemente citados como alinhados à Escola de Chicago são George Stigler, Edward Levi, Lester Telser , William Baxter e Frank Easterbrook. Os trabalhos mais conhecidos, no entanto, são os de BORK (BORK, Robert H. The Antitrust Paradox. A Policy at War with Itself, publicado originalmente em 1978) e POSNER (POSNER, Richard E. Antitrust Law: An Economic Perspective, publicado originalmente em 1977).
Estados Unidos até a década de 1960.239 A Escola de Chicago enfatizava explicações de eficiência para fenômenos que eram geralmente vistos de forma suspeita pelas autoridades antitruste norte-americanas.240
HOVENKAMP escreveu recentemente que a linha teórica identificada como a Escola de Chicago foi provavelmente a crítica mais coesa e sustentável já desenvolvida com relação à política antitruste até hoje. A Escola de Chicago oferecia uma visão elegante, pró mercado e largamente anti-intervencionista.241 Os teóricos de Chicago argumentavam que os mercados tenderiam a corrigir suas próprias imperfeições, que a história intervencionista nos Estados Unidos teria produzido resultados desastrosos e que os tribunais teriam condenado com frequência determinadas práticas sem ao menos compreendê-las adequadamente; assim, se estas práticas fossem melhor compreendidas, seria possível demonstrar que elas poderiam produzir resultados benéficos à concorrência ou ter explicações pró-competitivas. Os teóricos ligados à linha de Chicago, portanto, argumentavam que os tribunais deveriam estudar a fundo determinadas práticas comerciais antes de decidir se alguma intervenção seria necessária. 242
A Escola de Chicago contestou a abordagem dos estruturalistas de diversas formas. Os teóricos questionavam a relação entre concentração da indústria e efeitos anticompetitivos e argumentavam que não se poderia presumir que a coordenação seria inevitável em mercados oligopolizados.243 A correlação estatística entre alta concentração e altas taxas de lucro não seria necessariamente causada por comportamentos anticompetitivos, mas seria o resultado de maior eficiência. Ainda, os teóricos de Chicago questionavam a definição de barreiras à entrada proposta pelos estruturalistas; a Escola de Chicago considerava que, em diversos mercados, a entrada era geralmente fácil e que as
239 Para uma descrição das principais proposições de Chicago, ver POSNER (POSNER Richard. The Chicago
School of Antitrust Analysis. In: University of Pennsylvannia Law Review, v. 127, 1978-1979) e HOVENKAMP (HOVENKAMP, Herbert. Antitrust Policy After Chicago. In: Michigan Law Review, v. 84, p. 212-284).
240 KOVACIC, William E.; SHAPIRO, Carl. Antitrust Policy; A Century of Economic and Legal Thinking. In:
Journal of Economic Perspectives, v. 14, n. 1, Winter 2000, p. 53.
241
HOVENKAMP, Herbert. The Antitrust Enterprise: principle and execution. Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts; London, England, 2005, p. 32.
242 HOVENKAMP, Herbert. The Antitrust Enterprise: principle and execution. Harvard University Press,
Cambridge, Massachusetts; London, England, 2005, p. 32.
243
Conforme explicação de BAKER. BAKER, Jonathan B. A Preface to Post-Chicago Antitrust. In: VAN DEN BERGH, Roger et al. (eds.). Post-Chicago Developments in Antitrust Analysis, Edward Elgar, 2002.
fontes mais prováveis de barreiras seriam justamente resultado de intervenções governamentais.244
A Escola de Chicago considerava que os mercados normalmente tenderiam a se “auto-corrigir”, que as falhas de mercado seriam transitórias e que a concorrência poderia ser mantida ou reestabelecida sem que fosse necessária a intervenção estatal. Os teóricos de Chicago, portanto, tinham uma visão otimista dos mercados e eram críticos e céticos com relação à intervenção de autoridades governamentais na forma de seu funcionamento.245
Nessa linha de confiança na capacidade de “auto-correção” dos mercados, a Escola de Chicago passou a argumentar que poucas situações ofereciam reais riscos à concorrência, quais sejam, os cartéis e as operações de concentração horizontal que reduzissem significativamente o número de agentes em determinado mercado, tendendo à facilitação de condutas coordenadas ou ao monopólio.246
No que diz respeito às condutas unilaterais de exclusão, a Escola de Chicago considerava que muitas das práticas identificadas como ilícitas pela jurisprudência e pela literatura então predominantes refletiriam formas de concorrência agressivas ou inovadoras. De acordo com os teóricos de Chicago, estas práticas não teriam qualquer efeito de exclusão ou excluiriam rivais simplesmente porque estes seriam menos eficientes.247
244
Na explicação de HOVENKAMP: ““Natural” barriers to entry are more imagined than real. As a general rule investment will flow into any market where the rate of return is high. The one significant exception consists of barriers to entry that are not natural – that is, barriers that are created by government itself. In most markets would be best off if left entry and exit unregulated.” HOVENKAMP, Herbert. Antitrust Policy After Chicago. In: Michigan Law Review, v. 84, p. 227.
245 Sobre o “ceticismo” da Escola de Chicago, ver EASTERBROOK: “This is a profoundly skeptical program
– skeptical of simple models, skeptical of simple analysis, skeptical of the ability of courts to make things better even with the best data.” EASTERBROOK, Frank H. Workable Antitrust Policy. In: Michigan Law Review, v. 84, 1985-1986, p. 1701. Uma crítica ao ceticismo da Escola de Chicago é oferecida por HOVENKAMP, Herbert. Rhetoric and Skepticism in Antitrust Argument. In: Michigan Law Review, v. 84, n. 8, Aug., 1986, p. 1721.
246 Conforme POSNER: “...the focus of the antitrust laws should not be on unilateral action; it should instead
be on: (1) cartels and (2) horizontal mergers large enough to create a monopoly directly, as in the classic trust cases, or to facilitate cartelization by drastically reducing the number of significant sellers in the market.” POSNER, Richard. The Chicago School of Antitrust Analysis. In: University of Pennsylvannia Law Review, v. 127, 1978-1979, p. 928. Na mesma linha, EASTERBROOK: “…Skepticism is why the Workable Antitrust Policy School seems to favor little other than prosecuting plain vanilla cartels and mergers to monopoly.” EASTERBROOK, Frank H. Workable Antitrust Policy. In: Michigan Law Review, v. 84, 1985- 1986, p. 1701.
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HOVENKAMP, Herbert. The Antitrust Enterprise: principle and execution. Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts; London, England, 2005, p. 32.
A Escola de Chicago desenvolveu modelos e raciocínios que buscavam demonstrar que determinadas condutas e arranjos, geralmente considerados ilícitos, tais como preços predatórios, vendas casadas e acordos de exclusividade, não seriam métodos racionais para adquirir ou preservar poder de mercado; pelo contrário, os modelos desenvolvidos pela Escola de Chicago procuravam explicar que estas práticas poderiam ser mecanismos para aumentar a eficiência.248
Nessa linha, práticas agressivas, tais como as ligadas à redução de preços, poderiam até prejudicar rivais, mas geralmente beneficiariam os consumidores. Condutas de agentes dominantes direcionadas contra seus rivais, contudo, somente deveriam ser consideradas ilícitas se também fosse demonstrado prejuízo aos consumidores.249
As proposições da Escola de Chicago tiveram influência significativa na aplicação das normas antitruste dos Estados Unidos, em particular, com relação à aplicação das normas relativas ao ilícito de monopolização. Os teóricos ligados à Escola de Chicago eram céticos com relação à possibilidade de agentes econômicos aumentarem seu poder de mercado de forma unilateral e, portanto, consideravam que diversos casos iniciados pelo governo norte-americano na aplicação da Seção 2 do Sherman Act não teriam qualquer mérito.