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3 A ESCOLA MUNICIPAL UNIDOCENTE DE ENSINO FUNDAMENTAL

3.2 AS POTENCIALIDADES E TENSIONAMENTOS DA CULTURA ESCOLAR

3.2.6 Escola e comunidade: entrelaçamentos culturais

Vários estudos têm indicado a importância da participação da família na escola, principalmente na parceria para o desenvolvimento escolar dos alunos. Na EMUEF Califórnia, constatamos que a relação – escola, família e comunidade – têm forte proximidade, e, uma das ações, diz respeito à realização anual de visitas a todas as famílias dos alunos, visando conhecer o contexto em que vivem, bem como, possibilitar a interação e inserção destas nas atividades escolares. Visitas essas, mediadas pela professora com o suporte da pedagoga, da servente e do motorista.

Figura 21 - Visita a casa dos alunos como prática da Cultura da Escola

Foto: Arquivo da EMUEF Califórnia. Segundo a professora Giselle,

Os alunos em cada casa são recebidos com muita alegria e desfrutam do acolhimento familiar dos seus colegas. Em cada família os alunos estabelecem outras relações sociais. É muito importante conhecer a

realidade social e cultural dos alunos (Narrativa da professora Giselle – Grupo Focal, Domingos Martins-ES, julho de 2018).

Essa cultura de visita às casas não é neutra, constitui-se em desafios e possibilidades. Desafiante, porque nem sempre foi fácil conseguir transporte para levar os alunos até as casas. Apresentou possibilidades, pois em cada família novos saberes foram vivenciados e compartilhados e a escola nesse processo, se mostrou como uma instância social servindo como base mediadora deste convívio social construído na prática coletiva.

Compreender essa dinâmica pedagógica possibilitou-nos ver que

[...] toda prática educativa implica sempre a existência de sujeitos, aquele ou aquela que ensina ou aprende e aquele ou aquela que, em situação de aprendiz, ensina também, a existência do objeto a ser ensinado e aprendido – a ser re-conhecido e conhecido (FREIRE, 1992, p. 109).

O pensamento de Freire é vivenciado na EMUEF Califórnia, pois os alunos, a professora, a servente, o motorista e as famílias ocuparam o lugar de quem ensinou e aprendeu no movimento das visitas, pois cada família revelou conhecimentos sociais e culturais significativos carregados de muita sabedoria. Por meio da conversa no Grupo Focal, a professora Giselle disse que,

É muito importante essa prática na escola, porque quando visitamos as famílias a gente tem conhecimento da realidade que aquela criança vive, da realidade dela e nos ajuda a entender as atitudes dela na escola. Faz muita diferença conhecer a família e o lugar onde ela vive. Essa é uma cultura que a escola tem. (Narrativa da professora Giselle por meio do Grupo Focal, Domingos Martins-ES, julho, 2018).

Diante da fala da professora, evidenciamos o quão forte é a interação dela com as famílias dos alunos, na promoção de uma relação interpessoal que amplia a atuação e comprometimento destas com a escola. Imersos nos diálogos com o Grupo Focal, a servente Maria Anita Monteiro Gaiotti Maioli complementou,

[...] para a família é uma alegria e preparam uma mesa de café e recebem todos com muita alegria. A família participa de alguma forma, seja no planejamento, nas festas da escola, na escolha dos temas, indicando o que é necessário trabalhar na escola. Através de bilhetes, de conversas, de visitas a escola está presente com a família. Essa participação da família e da escola é muito importante. A família se sente valorizada quando a escola visita eles. (Relato da servente Maria Anita, Grupo Focal, Domingos Martins- Es, Julho, 2018).

A servente indicou as várias formas de inter-relação entre a família, comunidade e escola. Dentre elas, citamos a Festa da Família que se realizou no dia 25 de outubro de 2018 no espaço da EMUEF Califórnia.

Todas as famílias foram convidadas a comparecer! E, participar desse momento foi muito significativo para nós enquanto pesquisadores.

A noite foi fantástica! As professoras da educação infantil e do ensino fundamental apresentaram as ações realizadas a partir dos temas de estudos diagnosticados no início do ano letivo. Momento que se consolidou em mostrar à comunidade escolar o que foi planejado e praticado com os alunos. As apresentações culturais das turmas fizeram muitas famílias se emocionarem.

Figura 22 - Festa da Família na EMUEF Califórnia

Fonte: Acervo pessoal da autora.

A entrega de camisas com o slogan do tema de estudo, da operação estrada limpa e da sacola ecológica foi mágico, pois para os alunos, aquele momento era muito significativo, já que estava conectado com tudo o que discutiram em sala de aula. Neste dia, uma das alunas disse que “tudo é uma festa pra mim. Eu estou muito feliz porque eu e meus colegas vamos fazer a nossa apresentação pra todo mundo ver e nossos trabalhos ficaram muito bonitos”.

A narrativa da aluna evidenciou que aquele momento além de festivo, representou mostrar o que vivenciavam nos estudos, isto é, os pais/responsáveis eram naquele momento os interlocutores reais das práticas sociais e culturais do processo ensino- aprendizagem. Ao dialogar com algumas famílias, relataram que esperam ansiosos por esse evento anual. Uma mãe diz que,

Hoje eu deixei a roça mais cedo, pois minha filha disse que não podemos chegar atrasados para a festa da escola. Ela quis colocar a bota e a roupa nova para vir pra escola. Essa festa é muito boa e gostamos muito de participar (Relato da mãe A na festa da Família).

Ao buscarmos compreender o porquê da satisfação, os diálogos com o Grupo Focal nos apresentaram que, por morarem no campo, a escola é um dos poucos espaços

em que a família se reúne para as festividades anuais e, a festa da família para muitos, tem um significado cultural marcante e esperado. Desta forma, a escola, enquanto um dos principais espaços de organização social na comunidade se difere das outras, porque, sua estrutura pedagógica e seu contexto organizativo dão significado às relações coletivas. Brandão nos instiga ver que nesse espaço,

A educação participa do processo de produção de crenças e idéias, de qualificações e especialidades que envolvem as trocas de símbolos, bens e poderes que, em conjunto, constroem tipos de sociedades. É esta a sua força (BRANDÃO, 1985, p. 11).

Isto é, na escola o contexto do cotidiano escolar é perpassado pelos processos culturais advindos dos alunos, dos pais, da comunidade e de outros sujeitos que influenciam sua gestão. Também influenciam nos modos de lidar com a organização dos processos educativos e na constituição dos conhecimentos curriculares que segundo Forquin (1993), “valha a pena” ensinar, que tenha relação com a realidade social e cultural dos alunos.

Reconhecemos que a organização de eventos, reuniões, encontros, que envolve a participação das famílias, da comunidade e da escola, promove a socialização e ampliação dos saberes, permitindo a produção de conhecimentos, que são fundamentais para a formação crítica comunitária. Também se constituem em mecanismos para produzir transformações sociais, usando o conhecimento como ferramenta em suas lutas. Partindo desse contexto, a festa da família realizada na EMUEF Califórnia, além da socialização, proporcionou um jantar que possibilitou a interação, o encontro e integração dos sujeitos.

Figura 23 - Mesa de alimentos da Festa da Família

Fonte: Acervo pessoal da autora.

Além deste evento, outros foram promovidos, dentre eles, a festa junina, que faz parte da cultura das escolas do campo e se traduz em espaço de interlocução cultural com a comunidade escolar.

Figura 24 - Festa junina realizada na EMUEF Califórnia em julho/2018

Fonte: Acervo pessoal da autora.

Outro evento que reúne sujeitos de diversos contextos e que conta com a participação da EMUEF Califórnia é a Jornada Pedagógica. Ela reúne anualmente as Classes Multisseriadas da região de Melgaço e Sede. Evento que tem grande repercussão, dada a participação de 7 unidades escolares. O propósito do encontro, segundo a pedagoga Gilla (que atende todas as de ensino), se dá pela troca das experiências escolares, pela reunião e interação entre os alunos, professores, serventes e representantes de pais e da comunidade, bem como, pela interlocução com a cultura local. Embora não seja uma atividade orientada pela SECEDU, as Classes Multisseriadas destas regiões, a mantém pelos objetivos mencionados. Ao participarmos desse evento, observamos que cada unidade de ensino se responsabilizou por realizar uma ação que procurasse mostrar o trabalho pedagógico voltado aos temas de estudos do seu contexto escolar.

Figura 25 - Jornada Pedagógica realizada entre as Classes Multisseriada da região de Melgaço e Sede

Fonte: Acervo pessoal da autora.

A Jornada pedagógica foi marcada pela troca de experiências por meio de atividades como: contação de histórias, teatros, danças, músicas, apresentações culturais, brincadeiras mediadas, e ainda, com mesa farta de alimentos doados pela comunidade escolar. Anualmente essa atividade pedagógica coletiva acontece no espaço da comunidade de Califórnia, cedido pelo pastor e com o apoio e suporte de representes de pais/responsáveis.

Os movimentos e ações que ocorrem na EMUEF Califórnia nos instigaram a compreender mais sobre o papel social e sistêmico da Classe Multisseriada. Desta maneira, perguntamos no Grupo Focal qual era o nível de importância e influência da escola junto à comunidade. Expressaram que a escola possui um papel referencial na comunidade, existindo uma espécie de relação de troca e de pertencimento dos sujeitos. Em nossas análises destacamos a disposição da EMUEF Califórnia em atender a comunidade e a satisfação desta em participar dos eventos, atividades, bem como, em auxiliar os alunos e a professora em suas necessidades.

As observações na Classe pesquisada nos apresentaram que seu cotidiano é produzido pela prática dialógica envolvendo toda a comunidade escolar, sendo a professora fundamental nesse processo. A interação dos sujeitos na EMUEF

Califórnia, a pedagogia de trabalho com temas de estudos voltados à prática da interdisciplinaridade com situações da realidade da comunidade e, a vivência heterogênea e colaborativa no processo de ensino e aprendizagem buscou superar a lógica seriada institucionalizada pela cultura escolar dos anos iniciais. Assim, ao observarmos as práticas nesta Classe percebemos que seu cotidiano se constituiu por uma cultura própria, requerendo uma gestão especifica docente para lidar com os processos escolares no ensino Multissérie.

A partir das observações in loco, desejamos saber como os demais professores que atuam nas Classes Multisseriadas do Município veem essas instituições de ensino e as multifaces de seu trabalho. Essa questão nos motivou a aplicar um questionário visando buscar dados para triangular e referendar nossas análises.

O processo de problematização e imersão na EMUEF Califórnia, o diálogo com a produção acumulada e os conceitos discutidos, nos levaram a realizar uma leitura mais ampliada das questões que envolvem a Classe Multisseriada. Para tanto, o capítulo 4 que ora se apresenta tem o objetivo de trazer o olhar dos demais profissionais que vivenciaram essa experiência em Domingos Martins-ES, entendendo que as narrativas que se produziram serviram para complementar e triangular com as análises realizadas in loco.

4 O QUE DIZEM OS PROFESSORES SOBRE A CLASSE MULTISSERIADA