3 A ESCOLA MUNICIPAL UNIDOCENTE DE ENSINO FUNDAMENTAL
3.2 AS POTENCIALIDADES E TENSIONAMENTOS DA CULTURA ESCOLAR
3.2.3 Heterogeneidade, interdisciplinaridade e práticas colaborativas:
No movimento de visualizar as várias características que constituem a cultura escolar, encontramos com momentos vividos cotidianamente na EMUEF Califórnia. Ao analisarmos as atividades realizadas de junho até dezembro de 2018, vários aspectos que caracterizaram a Classe Multisseriada se apresentaram. Uma delas foi a prática colaborativa.
Nos vários momentos de observações e registros, a colaboração entre os profissionais, comunidade e os alunos foi percebida. Entre os alunos, os gestos, as atitudes, o empréstimo espontâneo dos materiais escolares, as brincadeiras, o suporte entre o ensino fundamental e a educação infantil, a ajuda entre os colegas para a realização das atividades e a própria organização da Classe e metodologia pedagógica se constituíram em ações colaborativas.
Dentre as diversas atividades realizadas, destacamos uma que consideramos pertinente em nosso processo de reflexão e corrobora com as nossas percepções sobre a cooperação. A professora solicitou o auxílio dos alunos para com os colegas durante a realização de uma atividade, que consistia em escrita e produção de cartazes sobre a reciclagem do lixo. Orientou-os quanto a forma do auxílio ao colega, para que esta não se restringisse a “respostas prontas” de um ao outro.
Figura 16 - Atividade com práticas colaborativas
Fonte: Acervo pessoal da autora.
Nesse contexto, a intervenção dos alunos, ao auxiliar os demais colegas reproduziu, de certo modo, a condução da professora. Isso demonstrou que, para a realização das tarefas e compreensão dos conhecimentos, o trabalho colaborativo foi primordial, haja vista que, um auxiliou e complementou a compreensão do outro. Vygotsky (2007, p. 119/120) nos ajuda a compreender que é por meio da mediação do outro que nos apropriamos dos conhecimentos e saberes culturais e que, a interação e a troca de informações contribuem para o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos. Assim, tanto a professora, quanto os alunos estiveram em permanente processo de formação. Isso nos levou a constatar que, no cotidiano da EMUEF Califórnia a diversidade de idades, de conhecimentos, de interesses, de culturas e de outros aspectos - propiciou uma interação formativa, pois entre esses sujeitos ocorreu um processo constante de troca de conhecimentos.
Mas, realizar toda essa mediação é desafiante? Questionamos a professora quanto aos desafios do trabalho pedagógico, levando em consideração toda a heterogeneidade existente na Classe, ela ressaltou que,
Vejo que os desafios e dificuldades numa escola multisseriada acontecem devido aos olhares, que às vezes, não são bem direcionados a essas escolas. São poucos que nos apoiam e acreditam que é possível sim ter um ensino de qualidade numa escola estruturada dessa maneira. No que diz respeito ao trabalho desenvolvido faltam alguns recursos que poderiam enriquecer mais as nossas aulas. (Narrativa da professora Giselle - Questionário, Domingos Martins-ES, novembro de 2018).
A fala da professora é bastante provocadora, pois, esperávamos uma lista de desafios das questões didático-pedagógicas, contudo, como podemos perceber, a professora apontou que as maiores dificuldades se ancoram no olhar externo daqueles que não tem conhecimento sobre o funcionamento de uma Classe Multisseriada, considerando o ensino e a sua estrutura inferior àquela ofertada por uma escola seriada. Por outro lado, a professora apresentou as possibilidades pedagógicas, dizendo que,
O trabalho é enriquecido a partir do momento que desenvolvo os temas de estudos que vem a encontro da realidade dos estudantes. Tenho o apoio e participação da família, desde a escolha dos temas até todo o desenvolvimento. Temos a comunidade e família como parceiras, os estudantes de outros anos nos auxiliam como monitores nas turmas dos primeiros anos, os estudantes estão conectados as nossas falas e de colegas de anos posteriores fazendo com que aprendam juntos mesmo não sendo algo que está na proposta deles. São muitas as possibilidades. (Narrativa da professora Giselle - Questionário, Domingos Martins-ES, novembro de 2018).
A narrativa da professora nos expõe que a relação colaborativa que estabelece em sala de aula e com a comunidade escolar, contribuiu diretamente para o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem, sendo fundamental para estabelecer o diálogo entre as culturas do Campo, como prática da interculturalidade e do fortalecimento de lutas coletivas por direitos sociais.
Ao buscarmos compreensão sobre a interação do processo de ensino e aprendizagem que ocorreu entre os alunos, entendemos que,
A heterogeneidade, característica sempre presente nas classes multisseriadas, ganha força, quando o professor a compreende como fator importante para as interações de aprendizagem nesse contexto. A mesma informação posta à disposição de todos, com a mesma linguagem e no mesmo momento, será assimilada de maneiras distintas pelos diversos sujeitos [...] demandando ações que exigem interação contínua dos alunos entre si e com o professor (FREITAS, GONÇALVES, 2005, p. 10).
De fato, a heterogeneidade é inerente ao processo educativo que se efetiva na múltissérie, elemento norteador segundo Hage (2010).
As escolas do campo, que em sua grande maioria se organizam sob a multisseriação, são espaços marcados predominantemente pela heterogeneidade ao reunir grupos com diferenças de sexo, de idade, de interesses, de domínio de conhecimentos, de nível de aproveitamento, etc. (HAGE, 2010, p. 410).
Nesses aspectos, ao observar os alunos na EMUEF Califórnia, verificamos que o fator “heterogeneidade” é por vezes desafiador, entretanto, os diálogos com a
professora Giselle e os registros no diário de campo apresentaram muitas possibilidades.
Ao observar os alunos durante o intervalo do recreio, a heterogeneidade de idades não foi elemento para distanciar as turmas da educação infantil e do ensino fundamental nas atividades pedagógicas e nos momentos de brincadeiras. Ao contrário, estavam sempre juntos, interagindo uns com os outros.
Figura 17 - Práticas interativas no intervalo do recreio entre as alunas da Educação Infantil e Anos Iniciais
Fonte: Acervo pessoal da autora.
Isso nos possibilitou observar que a forma de organização da Classe Multisseriada humaniza as relações dos sujeitos que nela estão visto que, tanto os valores individuais e coletivos são valorizados.
A heterogeneidade na EMUEF Califórnia - característica dessa cultura escolar - tem levado a professora desenvolver o seu planejamento curricular desprendido das indicações do livro didático, evitando a imposição desse manual nas atividades pedagógicas. Sobre esse aspecto, ela nos disse que
O livro didático para mim serve apenas como mais um apoio, porém o livro que é oferecido às escolas do campo não condiz com a nossa realidade, além de não ir ao encontro do nosso currículo. Como trabalho com temas de estudos, preciso de materiais que me ajudem a trabalhar conforme a realidade dos meus estudantes. (Narrativa da professora Giselle - Questionário, Domingos Martins-ES, novembro de 2018).
A elaboração do plano de ensino, das atividades pedagógicas, das avaliações, bem como das estratégias metodológicas levou em consideração o trabalho
interdisciplinar. A potência desse processo está justamente na diversidade de conhecimentos existente nesses espaços.
Observamos que além da cooperação, da heterogeneidade, outro elemento pedagógico característico nesta Classe, que retratou sua cultura foi a interdisciplinaridade. Esse elemento visou estabelecer o diálogo entre os componentes curriculares e entre o contexto vivido, levando em consideração o planejamento por temas de estudos. Segundo Schubert e Foerste (2009, p. 49),
A interdisciplinaridade pode ser compreendida como o nível de colaboração entre as diversas disciplinas ou entre os diversos setores heterogêneos de uma mesma ciência que conduz as interações propriamente ditas, ou seja, uma certa reciprocidade nos intercâmbios, de tal forma que, no final do processo interativo, cada disciplina saia enriquecida.
A compreensão aqui assumida nos permite ver que, a heterogeneidade e os processos interdisciplinares nas práticas desenvolvidas, apresentaram dificuldades, entretanto, a roda de conversa no GF, os dados do questionário e as nossas observações demonstraram um percentual maior de potencialidades para lidar com a pedagogia da Classe Multisseriada. Assim, buscamos elementos no Documento Curricular da Educação Básica de Domingos Martins, para saber se ele foi utilizado como referência para potencializar a prática e possibilitar a inserção da cultura local.